Canetas emagrecedoras podem transformar o turismo. O setor está preparado?

Canetas emagrecedoras podem transformar o turismo. O setor está preparado?

Mudanças no peso e nos hábitos de consumo já entram no radar da aviação, de bares e restaurantes e levantam uma questão para hotéis, cruzeiros, operadoras e agências de viagem

Uma redução média de dois quilos no peso dos passageiros poderia representar uma economia de aproximadamente R$ 3 milhões por mês em combustível para a Azul. A projeção foi feita em junho pelo CEO da companhia, John Rodgerson, ao analisar um efeito pouco óbvio da popularização das chamadas canetas emagrecedoras sobre a aviação.

A conta ajuda a revelar uma discussão que começa no medicamento, mas vai muito além dele. Se um fenômeno em expansão é capaz de alterar peso, alimentação, consumo de bebidas e decisões de lazer, seus efeitos podem chegar a diferentes negócios ligados ao turismo.

Nos Estados Unidos, uma simulação da instituição financeira Jefferies chegou a uma conclusão semelhante. Em um cenário de redução de 10% no peso médio dos passageiros, o peso total das aeronaves poderia cair cerca de 2%, diminuindo em até 1,5% os gastos com combustível. Para as quatro maiores companhias aéreas americanas, a economia potencial foi estimada em US$ 580 milhões por ano.

Paulo Manuel.

Para Paulo Manuel, CEO e fundador da TZ Viagens, rede presente em 24 estados brasileiros, olhar para esses movimentos faz parte de uma discussão maior sobre a capacidade do turismo de antecipar transformações no comportamento do consumidor.

“Para o turismo, a discussão não é médica. O que precisamos observar é o impacto de um fenômeno que ganha escala e muda o comportamento de milhões de consumidores. Se as pessoas comem menos, bebem menos e perdem peso, isso pode chegar à companhia aérea, ao hotel, ao restaurante e à própria experiência de viagem”, afirma Manuel.

Do avião ao comportamento do consumidor

Se na aviação o impacto potencial aparece na relação entre peso e consumo de combustível, dados brasileiros mostram que a mudança de comportamento já alcança outras categorias.

Pesquisa da NielsenIQ publicada em abril mostra que os medicamentos à base de GLP-1 ainda estão presentes em apenas 5% dos lares brasileiros, mas já provocam uma reorganização de gastos entre seus usuários. Seis em cada dez lares que utilizam esses medicamentos afirmam ter despriorizado outras despesas para acomodar o tratamento no orçamento.

Entre os gastos que perderam espaço estão saídas a bares, citadas por 62,3% dos entrevistados, restaurantes, por 54,9%, e lazer, por 50%. O estudo também identificou mudanças na alimentação: 76,9% afirmaram ter reduzido ou zerado o consumo de chocolates e doces e 73,4% diminuíram snacks e biscoitos.

Os números interessam ao turismo porque alimentação, bebidas e lazer estão diretamente ligados à experiência de viagem. Resorts trabalham com sistemas all inclusive, hotéis dimensionam cafés da manhã, bares e restaurantes, cruzeiros têm a gastronomia como parte importante do produto e muitos destinos são construídos também em torno da experiência gastronômica.

“Um hotel preparado para determinado padrão de consumo pode encontrar um hóspede que busca outra quantidade, outro tipo de alimentação e talvez valorize menos a abundância e mais a qualidade e a personalização. A gastronomia não perde importância, mas a percepção de valor pode mudar”, analisa Manuel.

O turismo está preparado?

Para Manuel, é nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre as canetas emagrecedoras e passa a ser sobre a capacidade das empresas de perceber mudanças no comportamento do viajante antes que elas estejam consolidadas.

O turismo absorve transformações econômicas, sociais, tecnológicas e comportamentais que muitas vezes começam fora do próprio setor. Quando os efeitos aparecem nas vendas, na ocupação dos hotéis ou no padrão de consumo durante uma viagem, a mudança já está em curso.

“Podemos imaginar impactos na aviação, na hotelaria, nos restaurantes, nos cruzeiros e em uma série de experiências. Mas existe uma pergunta anterior a todas elas: o turismo está preparado para essas mudanças?”, questiona Manuel.

Ainda é cedo para dimensionar até onde esses efeitos chegarão. E essa distinção é importante: enquanto mudanças de consumo já são identificadas entre usuários brasileiros, impactos mais amplos sobre a cadeia turística ainda precisam ser acompanhados.

Para Manuel, entretanto, esperar que uma transformação esteja consolidada para só então reagir é justamente o risco.

“Não se trata de prever exatamente como uma caneta vai mudar uma viagem. Trata-se de perceber os sinais. Como será esse novo viajante? O que ele vai consumir? O que deixará de valorizar? Pelo que estará disposto a pagar? E, principalmente, estamos desenhando hoje produtos para o viajante de amanhã ou continuamos trabalhando para o consumidor de ontem?”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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