Projeto americano de IA no Paraguai reforça atratividade do país para investimentos

Projeto americano de IA no Paraguai reforça atratividade do país para investimentos

Parceria entre empresas dos EUA e do Paraguai prevê a construção de estrutura de computação de alto desempenho e inteligência artificial abastecida pela usina de Itaipu

O Paraguai tem se consolidado como polo de atração de investimentos estrangeiros no setor industrial e agora acaba de ganhar um projeto intensivo em tecnologia e energia.

O Departamento de Estado norte-americano anunciou na semana passada um acordo entre empresas dos EUA e do Paraguai para a construção de um centro de computação de alto desempenho e IA (inteligência artificial) abastecido com energia da Usina Hidrelétrica de Itaipu, localizada na fronteira entre Brasil e Paraguai.

A parceria foi firmada entre a empresa norte-americana Crusoe e a Araico, desenvolvedora paraguaia de projetos de energia e obras de infraestrutura. O anúncio não cita a participação de governos e, até o momento, não foram divulgados valores do investimento.

O principal atrativo para o investimento na região é o baixo custo da energia elétrica, gerada pela força da água de Itaipu, considerada uma das maiores fontes de energia 100% renovável do mundo. Há anos o Paraguai consome apenas uma pequena parte da energia a que tem direito e destina o excedente ao Brasil. Agora, há a possibilidade disso começar a mudar.

Para Suelen Raizer, fundadora da Frontexa, empresa especializada em competitividade regional e estruturação de operações empresariais em novos territórios, o anúncio reforça a atratividade do Paraguai para investidores estrangeiros e pode contribuir para impulsionar o desenvolvimento econômico do país, que já vem crescendo bem acima da média dos outros países da América Latina.

“O anúncio demonstra que a competitividade energética do Paraguai começa a atrair projetos intensivos em tecnologia, além das indústrias tradicionais. Mas o diferencial de um país não pode ser medido apenas pela tarifa de energia. Para transformar essa vantagem em desenvolvimento econômico, é necessário garantir infraestrutura, capacidade de fornecimento e condições operacionais. É essa análise que deve orientar qualquer decisão de investimento”, afirma.

Ela avalia que um projeto de grande porte como esse da Crusoe pode ajudar a dar mais visibilidade internacional ao Paraguai, atraindo novos investidores estrangeiros, inclusive brasileiros.

Custo da energia e Tratado de Itaipu

A especialista explica que o custo da energia elétrica tem sido cerca de 65% menor no Paraguai do que no Brasil, quando se compara o preço médio da tarifa cobrada para empresas.

De acordo com reportagem do Bloomberg Línea, a partir de informações da GlobalPetrolPrices, o preço médio da eletricidade no mundo foi de US$ 0,172 por kWh para empresas entre 2023 e 2026, enquanto no Brasil ficou em US$ 0,134 e no Paraguai em US$ 0,047. Veja mais aqui.

“As empresas não analisam apenas um custo isolado, mas o Paraguai possui uma das maiores disponibilidades de energia hidrelétrica do mundo, e isso contribui para tarifas mais competitivas para a indústria”, explica Raizer, acrescentando que o custo depende da demanda contratada, tensão de fornecimento, localização, perfil de consumo e condições de conexão.

O projeto da norte-americana em parceria com a Araico no Paraguai está previsto para iniciar a operação em meados de 2027, com um caminho para escalar até 106 MW de capacidade de TI, podendo chegar a aproximadamente 280 MW no longo prazo.

Com novos empreendimentos industriais e de tecnologia, a tendência é que o Paraguai utilize uma parcela maior da energia gerada por Itaipu e diminua o excedente atualmente disponibilizado ao Brasil. Raízer destaca, porém, que o assunto exige cautela uma vez que ainda não há uma estimativa oficial sobre eventuais impactos na oferta ou na tarifa.

A especialista explica que o artigo XIII do Tratado de Itaipu estabelece a divisão igualitária da energia produzida e reconhece o direito de aquisição da parcela não utilizada pelo outro país.

“Como Itaipu é uma usina binacional e o Paraguai cede ao Brasil parte da energia que não consome, um maior uso interno pode reduzir o excedente disponível para exportação. Mas ainda não há indicação de mudança na divisão da energia ou de cessão da energia não utilizada”, afirma.

Gargalos na infraestrutura e oportunidades

A fundadora da Frontexa explica que o país vive um forte ciclo de atração de capital estrangeiro e industrialização, mas ainda enfrenta um déficit de infraestrutura.

O Paraguai possui grande disponibilidade de geração hidrelétrica, mas isso não significa disponibilidade de energia com qualidade e estabilidade em todas as regiões industriais. Ainda existem desafios na geração, transmissão, distribuição e capacidade de conexão de novos empreendimentos.

“Um data center pode estimular melhorias específicas, mas também aumenta a demanda sobre o sistema elétrico”, afirma.

Raizer explica que energia barata é um diferencial competitivo importante, mas que a viabilidade de um projeto de internacionalização depende também de infraestrutura, logística, fornecedores, disponibilidade de trabalhadores e investimentos eventualmente necessários para implantação.

“Esse anúncio indica o potencial de diversificação econômica do Paraguai, que passa a ganhar atenção de empresas intensivas em tecnologia e energia, e abre uma discussão importante sobre como utilizar a disponibilidade energética para atrair investimentos capazes de gerar valor agregado, qualificação profissional e desenvolvimento econômico”, afirma.

A expectativa é que empreendimentos como esse da empresa estadunidense Crusoe possam abrir oportunidades para projetos de investimento em infraestrutura elétrica e digital, engenharia, construção especializada, conectividade e serviços técnicos.

Fluxo de empresas brasileiras para o Paraguai

Além do preço da energia barata, a combinação de incentivos fiscais, custo mais baixo de mão de obra e menor burocracia tem atraído empresas brasileiras a expandir suas operações para o Paraguai.

Um dos grandes atrativos é a Lei de Maquila, criada para atrair indústrias que exportam e gerem empregos no Paraguai. O regime prevê tributação única de 1%, calculada sobre o valor agregado no Paraguai ou sobre o valor da fatura de exportação, prevalecendo a maior base, além de isenções tributárias específicas para operações aprovadas no regime.

De janeiro a setembro, as exportações do Paraguai sob o regime somaram US$ 1,148 bilhão, registrando um crescimento de 25% em relação ao mesmo período de 2025. O último balanço oficial registra 36.382 empregos vinculados ao setor.

Segundo dados da Câmara de Empresas Maquiladoras do Paraguai (Cemap), em abril o país possuía 339 maquiladoras, com uma predominância de investimentos vindos do Brasil. A Cemap estima que cerca de 70% do capital instalado sob esse regime de incentivo tem origem no Brasil.

Entre os setores que têm ampliado atividades no país estão o têxtil, o alimentício, o de plásticos e o de autopeças. No primeiro semestre de 2026, o Brasil recebeu 62% das exportações paraguaias de maquila.

Para Suelen, o Paraguai deve ser visto como uma oportunidade para fortalecer o Mercosul e ajudar as empresas brasileiras a enfrentar a concorrência chinesa e competir em outros mercados.

“É menos uma história de substituição de um país pelo outro e mais de reorganização das cadeias produtivas e expansão produtiva”, afirma a especialista, citando como exemplo a Lupo, que inaugurou uma fábrica em Ciudad del Este, no ano passado, mas não fechou nenhuma unidade no Brasil.

“O objetivo de uma empresa ao decidir investir no Paraguai pode ser complementar operações, diversificar a estrutura produtiva, ampliar capacidade e melhorar a competitividade. Nosso trabalho na Frontexa é avaliar onde e como uma empresa pode se tornar mais competitiva, considerando toda a operação”, acrescenta.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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