Juro não é mercadoria. Por que seu crediário paga imposto como se fosse?

Juro não é mercadoria. Por que seu crediário paga imposto como se fosse?
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Separação entre venda de mercadorias e concessão de crédito pode ajudar empresas a organizar suas operações financeiras diante das mudanças da Reforma Tributária

O crediário próprio é uma ferramenta importante para o varejo, pois permite oferecer condições de pagamento aos clientes e ampliar as possibilidades de venda. Mas a forma como essa operação é estruturada também pode ter impacto tributário. Quando o valor da mercadoria e os juros do parcelamento são registrados conjuntamente, a composição da nota fiscal pode levar à inclusão de encargos financeiros na base de cálculo do ICMS, elevando o custo da operação.

O impacto pode ser expressivo dependendo das características do negócio. Uma loja, por exemplo, que movimenta R$ 6 milhões por ano em vendas no crediário, a diferença entre o preço à vista e o parcelado pode representar R$ 2 milhões em juros e encargos financeiros. Considerando uma alíquota de ICMS de 18%, isso corresponderia a R$ 360 mil anuais.

“Quando o varejista oferece crediário próprio, precisa olhar não apenas para o aumento das vendas, mas também para a estrutura financeira e tributária por trás dessa operação. A maneira como a venda e o crédito são formalizados faz diferença e precisa ser avaliada de acordo com as características de cada negócio”, explica André Bravo, CEO da Benqme, empresa que estrutura e opera soluções de crédito para médias empresas.

Nesse exemplo, o cálculo considera um produto vendido por R$ 1 mil à vista ou por R$ 1,5 mil em 12 parcelas. A diferença de R$ 500 é considerada como juros e encargos financeiros. Para uma operação anual de R$ 6 milhões em vendas parceladas, a aplicação dessa proporção resulta em R$ 2 milhões em encargos. Com uma alíquota de ICMS de 18%, o valor chega a R$ 360 mil. Trata-se de uma ilustração, e o tratamento tributário efetivo depende da estrutura contratual e fiscal da operação.

Venda da mercadoria deve ser separada da concessão de crédito

Uma das alternativas a serem avaliadas é separar a venda da mercadoria da concessão de crédito. Nesse modelo, a loja registra apenas a venda do produto pelo valor à vista e recebe o pagamento integral. Já o parcelamento passa a ser uma operação de crédito entre o cliente e uma instituição financeira, que recebe as parcelas do crediário. Assim, os juros deixam de compor o valor da mercadoria e passam a ser tratados como receita financeira da operação de crédito, observadas as regras tributárias aplicáveis.

A Benqme é uma das empresas que atuam nesse tipo de estruturação. Segundo a companhia, já foram implementadas mais de 150 estruturas, com mais de R$ 3 bilhões em operações realizadas.

A implementação desse tipo de estrutura exige uma análise das características do crediário, dos contratos, do fluxo financeiro e das obrigações regulatórias e fiscais. A separação entre venda e crédito não garante, por si só, redução de impostos: os efeitos dependem do modelo adotado e precisam ser avaliados caso a caso.

“Não existe uma estrutura única que funcione para todo varejista. É preciso entender como o crediário opera hoje, quais são os custos envolvidos e o que a empresa pretende alcançar. A partir desse diagnóstico, conseguimos avaliar alternativas para dar mais previsibilidade à operação e apoiar decisões de crescimento”, afirma Bravo.

A discussão ganha relevância diante da implementação da Reforma Tributária do consumo. De acordo com a Receita Federal, 2026 marca o início do período de testes da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). A partir de 2027, a CBS passa a substituir PIS e Cofins, enquanto a transição de ICMS e ISS para o IBS ocorrerá gradualmente entre 2029 e 2032, com conclusão prevista para 2033.

A Lei Complementar nº 214/2025 também prevê regras específicas para serviços financeiros, incluindo operações de crédito, com critérios próprios para a apuração dos tributos. Compreender como o crediário está estruturado hoje pode ajudar as empresas a avaliar alternativas e se preparar para as mudanças.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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