Importações da China exigem planejamento logístico antecipado para evitar gargalos na Black Friday

Dependência de fornecedores chineses exige maior controle sobre prazos de transporte, desembaraço aduaneiro e disponibilidade de estoques
A preparação para a Black Friday começa muito antes da abertura das primeiras promoções. Para empresas brasileiras que dependem de produtos e componentes fabricados na China, o período exige uma operação logística capaz de conectar fornecedores internacionais, transporte marítimo, procedimentos aduaneiros e distribuição nacional. Com o aumento da demanda característico do fim do ano, atrasos em qualquer uma dessas etapas podem comprometer a disponibilidade de mercadorias justamente no momento de maior concentração das vendas.
A relevância da China para esse cenário aparece nos dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Em setembro de 2026, o país asiático respondeu por 26,5% do valor total das importações brasileiras, segundo as estatísticas oficiais da balança comercial. Embora o indicador considere todos os segmentos econômicos, e não apenas os produtos destinados ao varejo, ele evidencia a importância da origem chinesa para o abastecimento do mercado nacional.
Para Luiz Policarpo, CEO da Einship, ecossistema de soluções em inteligência artificial para o comércio exterior que une inteligência de dados de mercado à gestão de fretes internacionais, a concentração de fornecedores em um mercado geograficamente distante torna a previsibilidade logística especialmente importante em períodos de maior demanda comercial. A preocupação não se limita à capacidade de transportar mercadorias, mas envolve a coordenação entre diferentes agentes e etapas até que os produtos estejam efetivamente disponíveis para comercialização.
“Na Black Friday, o problema não é apenas uma carga chegar atrasada. É a empresa descobrir tarde demais que não terá o produto disponível na data planejada. Quando a mercadoria vem da China, estamos falando de uma operação que envolve transporte internacional, procedimentos aduaneiros e distribuição interna. Cada etapa precisa ser acompanhada para que o varejista consiga trabalhar com prazos confiáveis”, explica Policarpo.
A distância entre os centros produtores chineses e o mercado brasileiro torna o planejamento de importações particularmente sensível a mudanças nas programações de embarque, à disponibilidade de espaço nos navios e aos tempos de trânsito. Mesmo quando a mercadoria deixa a origem dentro do prazo previsto, eventuais alterações nas conexões marítimas ou dificuldades na liberação aduaneira podem afetar o cronograma de entrega.
O desafio é ainda maior para empresas que trabalham com estoques reduzidos ou concentram suas compras internacionais nos meses anteriores às grandes campanhas promocionais. Nesses casos, a chegada tardia de um lote pode representar não apenas a perda de vendas, mas também a necessidade de recorrer a alternativas de transporte mais caras ou de manter produtos em estoque depois do período de maior procura.
O custo da imprevisibilidade
Segundo Policarpo, um dos principais erros das empresas é avaliar o custo da importação considerando apenas o preço do frete, sem incorporar os riscos associados ao prazo efetivo de disponibilização da mercadoria. Uma contratação aparentemente mais econômica pode resultar em despesas adicionais quando a operação exige soluções emergenciais para cumprir compromissos comerciais.
“Uma importação precisa ser analisada pelo custo total da operação e pela capacidade de cumprir o prazo necessário ao negócio. Não adianta conseguir uma tarifa de transporte mais baixa se a mercadoria chega depois da campanha para a qual foi comprada. A previsibilidade passou a ter um valor comercial tão importante quanto o próprio custo logístico”, afirma o executivo.
Para reduzir esses riscos, o especialista recomenda que importadores acompanhem a programação dos fornecedores chineses, revisem os prazos de transporte, organizem antecipadamente a documentação necessária e mantenham visibilidade sobre o andamento das cargas. A integração dessas informações com o planejamento comercial permite identificar possíveis desvios antes que eles se transformem em problemas de abastecimento.
A análise também vale para as empresas que já receberam parte de seus produtos, mas ainda dependem de novos embarques para reposição de estoques durante novembro. A necessidade de atender rapidamente à demanda pode ampliar a pressão sobre a cadeia de distribuição e reduzir a margem de reação diante de imprevistos.
Para o CEO da Einship, a Black Friday evidencia uma mudança na forma como o varejo precisa enxergar suas importações. A logística internacional deixa de ser apenas uma etapa operacional e passa a influenciar diretamente a capacidade das empresas de cumprir suas estratégias comerciais.
“A relação com a China oferece oportunidades importantes de abastecimento, mas exige planejamento compatível com a complexidade dessa cadeia. A empresa que conhece o andamento de suas importações consegue tomar decisões com antecedência. Quem só identifica o problema quando a carga deveria estar chegando ao Brasil já perdeu parte da capacidade de reação”, conclui Policarpo.








