Demissões na conta da IA: empresas cortam pessoal, mas quem assume o trabalho

É preciso saber se o custo desapareceu ou apenas mudou de lugar
A inteligência artificial aparece na justificativa das demissões, mas o trabalho nem sempre desaparece com os funcionários. Parte pode ser automatizada; outra continua exigindo revisão, atendimento e decisões humanas. Para avaliar a economia anunciada pelas empresas, é preciso descobrir quanto a tecnologia assumiu e quanto foi transferido para quem ficou.
Anúncios de grandes companhias colocaram essa conta em evidência. Em fevereiro de 2026, a Block comunicou a redução de mais de 10 mil pessoas para menos de 6 mil. Na carta aos acionistas, Jack Dorsey afirmou que equipes menores poderiam fazer mais com ferramentas de inteligência. Em maio, a Cloudflare anunciou mais de 1.100 cortes e informou que seu uso interno de IA havia crescido mais de 600% em três meses. Os comunicados apresentam a justificativa das reorganizações, mas não detalham quais tarefas de cada função eliminada já haviam sido absorvidas.
Essa diferença entre utilizar uma ferramenta e dispensar uma função é central para João Paulo Batistella, executivo de inovação e fundador e CEO da Eleva Technologies. “Eu preciso saber se o custo desapareceu ou apenas mudou de lugar. Se a folha caiu, mas aumentaram os gastos com prestadores, revisão e correção de erros, a economia precisa ser recalculada. O ganho aparece quando a empresa consegue manter a qualidade e atender à demanda a um custo total menor”, afirma.
A experiência da Klarna mostra por que volume automatizado e resultado precisam ser examinados juntos. Em fevereiro de 2024, a empresa informou que seu assistente havia realizado 2,3 milhões de conversas no primeiro mês, volume classificado como equivalente ao trabalho de 700 agentes. Isso não significava 700 demissões naquele momento. Em setembro de 2025, o presidente da companhia reconheceu à Reuters que a estratégia havia dado peso excessivo à redução de custos e precisava ser corrigida.
Automatizar atividades, portanto, não encerra a discussão sobre quantas pessoas são necessárias. Mas destacar a tecnologia pode tornar o corte mais fácil de apresentar. Em pesquisa com mil gestores americanos de contratação, realizada em dezembro de 2025, 59% disseram enfatizar, em algum grau, a IA ao explicar demissões ou congelamentos de contratação porque essa justificativa é mais bem recebida do que restrições financeiras.
O levantamento não mede quantas demissões foram falsamente atribuídas à tecnologia e não descreve o mercado brasileiro. Ele ajuda a explicar o incentivo por trás de uma das manifestações do “AI washing”: exagerar o papel da IA para dar aparência de transformação tecnológica a decisões que também envolvem orçamento e reorganização. Cortar para investir em IA, antecipar ganhos futuros e substituir trabalho já automatizado são situações diferentes.
Para Batistella, a explicação precisa ser confrontada com o funcionamento da empresa depois dos desligamentos. “Eu acompanharia os prazos, as reclamações dos clientes e as horas extras da equipe. Se esses indicadores pioram, é preciso investigar se a capacidade foi reduzida antes de a tecnologia estar pronta. A decisão de cortar continua sendo da gestão. Para atribuí-la à IA, a empresa precisa mostrar o que passou a ser feito por ela e quem responde pelo que ainda exige intervenção humana”, conclui.
É nos meses seguintes que essa distinção aparece: na capacidade de atender novos pedidos, cumprir contratos e resolver problemas sem recompor as funções eliminadas. Até lá, a redução da folha é um resultado conhecido. A parcela dessa economia produzida pela IA ainda precisa ser demonstrada.








