Levantamento aponta que conciliar vida pessoal com profissional influencia mais a satisfação no trabalho
Houve um tempo em que um salário generoso era mais do que o suficiente para satisfazer funcionários. Os tempos mudaram e esse fator caiu para terceiro lugar segundo um levantamento feito pela comunidade de carreiras Love Mondays no Brasil. A empresa analisou todas as respostas de profissionais que preencheram voluntariamente avaliações sobre seus lugares de trabalho nos mais diferentes pontos do país. O resultado surpreendeu: em uma escala crescente de 1 a 5 de satisfação, o item que mais pesa no grau de felicidade do profissional brasileiro nas empresas é Conciliar Vida Profissional com a Pessoal com um índice de 4.48. Logo em seguida vem Cultura da Empresa com 3.91. Em terceiro e quarto lugares aparecem Remuneração e Benefícios (3,84) e Oportunidades de Carreira (3.68).
Segundo Luciana Caletti, CEO da Love Mondays – responsável por este levantamento -, pode-se perceber que entre os brasileiros há uma busca constante para que se consiga lidar com as pressões de trabalho de modo que não interfira demais na vida pessoal. “Analisamos as respostas destes profissionais e foram constantes alguns termos como treinamentos, oportunidades de crescimento, valorização e respeito no ambiente de trabalho… mas nada superou essa busca constante por um equilíbrio entre casa e trabalho, sobretudo entre profissionais de alta qualificação”, explica Luciana.
Essa tendência começou a dar sinais que poderia ganhar força nos anos 80 quando Edgar Schein – o criador do conceito de cultura organizacional – falava em oito elementos na chamada “Âncoras de Carreira”. Entre eles estava o estilo de vida. “Mais do que se adaptar, o profissional precisa que o seu ambiente de trabalho proporcione uma percepção de que não são os benefícios os mais importantes para um colaborador, mas sim ter liberdade de exercer a sua atividade laboral de forma mais conveniente”, afirma Adriana Gomes, Coordenadora do Centro de Carreiras da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP) e diretora do site vidaecarreira.com.br .
Em busca de novos ambientes de trabalho em que a vida pessoal ganhe mais espaço, diversos profissionais se arriscam a encarar novas realidades. Foi o caso da advogada gaúcha Jessilena Alano Echeverry. Com um emprego estável em um escritório de advocacia trabalhista onde recebia uma remuneração muito acima da média, Jessilena percebeu que o salário não estava valendo a pena. “Eu tinha dinheiro, mas não tinha onde gastar. Tudo porque não existia feriado na minha agenda. Adiava encontros com minha família, amigos… ficava até tarde no trabalho para cumprir prazos apertadíssimos. Uma hora eu disse chega!”.
Há dois anos ela pediu demissão do antigo emprego e passou a viver apenas de audiências. Além da área da justiça do trabalho, passou a atuar também com direto de família e do consumidor. “Os honorários caíram pela metade, mas em compensação eu me sinto muito mais feliz e satisfeta”, conclui Jessilena que passou a se dedicar a outras atividades paralelas como atuação e canto. Na semana passada, ela ganhou o mais importante concurso amador de intérprete vocal feminino do sul do Brasil, uma conquista que simboliza o auge de uma nova fase.
A saída de Jessilena do antigo escritório pode ser explicada por uma deficiência das empresas em elaborar uma política de benefícios concreta. “Dar essa liberdade ao profissional traz uma contrapartida muito vantajosa para as organizações”, aponta Adriana Gomes. Mas conseguir esse equilíbrio também depende muito de cada pessoa. A diretora de negócios de uma empresa líder mundial de equipamentos médicos, Ana Carolina Gomiero, encontrou na culinária sua válvula de escape para se distrair. “Além da faculdade de Administração, me formei no mês passado em culinária aqui em São Paulo. É preciso você fazer coisas diferentes no seu dia a dia senão sua rotina te engole”, explica Ana que hoje encara o desafio de coordenar uma equipe de 120 pessoas.
Na visão do mineiro Rogério Chaves, gerente de serviços de uma multinacional americana no Brasil, o segredo para o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal é ter metas claras e muita disciplina. “Se eu tivesse que trabalhar oito horas por dia com horários fixos, eu não estaria satisfeito. Tem vezes que meu expediente é de dez ou mais horas por dia, mas sempre dou um jeito para o meu horário esportivo que é sagrado”, enfatiza ao explicar que além de praticar ciclismo, participa de competições em esportes de alta performance e está concluindo um mestrado em Engenharia da Computação na Universidade de São Paulo (USP). E ainda não descarta os planos de aumentar a família.
Por mais que Jessilena, Rogério e Ana Carolina vivam em centros urbanos como São Paulo, Belo Horizonte em Porto Alegre, os profissionais de cidades de menor porte também enfrentam alguns empecilhos na hora de conciliar vida pessoal e profissional. Na região de Pelotas (RS), a enfermeira Cibelle Veleda encarou por alguns anos uma rotina de trabalho acelerada, digna de cidades grandes. “Quando eu falo que não tinha nem tempo para comer, não é exagero. Minha saúde acabou sendo afetada e meu convívio familiar inexistente. Troquei de emprego que passou a me proporcionar situações banais que hoje tem grande importância como passar finais de semana com meus amigos, acabei conseguindo cuidar mais da minha alimentação, praticar esportes e até cursar um doutorado em parasitologia na Universidade Federal de Pelotas que estou concluindo agora”.
O levantamento em questão que apontou o que é importante para o profissional brasileiro se sentir satisfeito na sua empresa foi feito por meio de avaliações dentro da plataforma Love Mondays (“ame as segundas-feiras” em tradução livre). A startup está entre as aceleradas pela Aceleratech e permite com que profissionais acessem e postem de maneira anônima avaliações sobre como é trabalhar nas grandes empresas formando assim um “boca a boca corporativo”. Assim, um candidato a uma oportunidade pode se informar previamente sobre como é trabalhar na organização e uma empresa pode usar como forma de atrair os melhores talentos para seu quadro de colaboradores.








