É hora da indústria buscar novas oportunidades

Depois de mais de uma década, indústria paranaense está produzindo menos que a média nacional.
Após mais de uma década em alta, produção industrial do Paraná cai abaixo da média nacional. Foto – Gelson Bampi

As políticas de incentivo ao consumo acabaram, os juros e a inflação subiram, o dólar disparou. Os indicadores negativos e a insegurança política que toma conta do País acabaram se refletindo nos números da indústria. Em 2014, a produção industrial do Paraná fechou negativa em 5,5%. No primeiro semestre de 2015 a indústria paranaense produziu 6,5% a menos do que em igual período do ano passado, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A indústria do Paraná que durante os anos de 2002 a 2013 cresceu bem acima da média nacional, apresenta este ano indicadores inferiores à média brasileira.

Para o economista e gerente da Cortex Intelligence, Leonardo de Assis, os empresários devem estar conscientes que terão de ser mais eficientes para superar este período de dificuldades e trabalhar nos próximos dois a três anos para equilibrar suas empresas e torná-las mais eficientes.

O cenário negativo que a economia brasileira está atravessando não é novo. Nossos empresários já estão acostumados a ter que buscar saídas para os problemas econômicos do País, bem como soluções criativas para amenizar os efeitos negativos do reflexo da alta carga tributária, dos encargos sociais, dos juros, dos spreads abusivos, além, é claro, do pouco acesso à capacidade de investimentos. Na avaliação do gerente da Cortex Intelligence, desde a eleição de Lula não se via um cenário de incertezas tão grande. Segundo ele, o Índice de Confiança dos Empresários na indústria vem caindo há três anos. No caso da indústria do vestuário, este índice é de 27%, ou a metade da média histórica. Para este ano, o economista prevê uma taxa de desemprego de 9% e de 10% em 2016.

Apesar das dificuldades, os negócios não podem parar. Cada setor deve buscar alternativas e reinventar o modo de trabalhar, mas o aumento da produtividade e a redução de custos têm sido a principal preocupação dos industriais.

gráfico - produção industrial Iprdes

Para o gerente de Fomento e Desenvolvimento da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Marcelo Antonio Percicotti da Silva, as indústrias devem aproveitar os momentos de crise e buscar novas oportunidades. Ele destaca que o Paraná tem várias vocações industriais e os grandes investimentos estão focados para estes polos. “A partir das vocações, o grande desafio do empresário da indústria é identificar novos negócios e contribuir para o aumento da participação do PIB industrial do Paraná”, salienta.

De acordo com Percicotti, os setores de alimentos e bebidas, automotivo, petróleo e gás, metalmecânico e químico, incluindo borracha e plástico representam 75,3% do Valor de Transformação Industrial da indústria de transformação e extrativa do Paraná, estimada em R$ 77,9 bilhões. Só o segmento de alimentos e bebidas têm uma participação de 21,5%.

Já os setores da indústria paranaense que mais empregam são alimentos (177.971), metalmecânica e elétrica (106.451), têxtil, vestuário e couro (98.642), madeira e móveis (82.927), química, farmacêutica, borracha e plásticos (58.723. Estes cinco setores representam 76% dos empregos industriais do Estado.

O gerente de Fomento e Desenvolvimento da Fiep aponta que os setores mais relevantes para a economia do interior do Paraná são o têxtil, confecção e vestuário e móveis. “Estes segmentos estão concentrados em polos importantes no interior, com grande geração de emprego e renda”.

Percicotti lembra que outro setor que tem potencial para agregação de valor é o da madeira. “Este setor, que é um grande exportador passou vários anos amargando perdas em função do câmbio, mas agora com a alta do dólar tem tudo para deslanchar”, observa.

Na avaliação do gerente de Fomento e Desenvolvimento da Fiep, o momento agora é para trabalhar custos e inteligência comercial. “As empresas devem buscar novos mercados tanto nacional quanto internacionalmente e tomar muito cuidado com os seus caixas, pois serão dois anos de muita tensão e pé no freio”.

Os empresários também devem aproveitar a desvalorização do real, por exemplo, vendendo mais para o mercado externo. Aliás essa pode ser uma ótima ideia para compensar as perdas internas. Mesmo que a empresa nunca tenha exportado nada, este é o momento para se pensar nisto, diz Percicotti.

Mercados promissores para confecções e vestuário

Vestuário, que é o terceiro setor que mais emprega no Paraná.
Vestuário é o terceiro setor que mais emprega no Paraná. Foto: Sebrae/PR

Os empresários da indústria têxtil e do vestuário do Paraná têm se reunido, participado de seminários e buscado soluções para o período de crise. O setor têxtil e do vestuário é o segundo maior empregador da indústria paranaense. Segundo dados do Departamento Econômico da Fiep, são 6.500 indústrias que geram 92 mil postos de trabalho.

Numa iniciativa do Sebrae/PR, foi criado, este ano, o Circuito Inteligência Competitiva – Perspectivas Brasil 2015/2016, que está sendo levado a todos os sindicatos empresariais do setor de Vestuário e Têxtil por meio do Conselho Setorial da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep). Ao longo deste ano foram realizadas palestras nas cidades de Maringá, Terra Roxa, Apucarana, Francisco Beltrão e Curitiba. O objetivo é debater o cenário político, econômico e de mercado no Brasil e encontrar possíveis alternativas para os impactos no setor do vestuário paranaense.

E, ao que tudo indica, os resultados estão sendo alcançados. O fato é que este setor, que é o terceiro que mais emprega no Paraná, está entre os cinco que não tiveram queda nas vendas industriais no primeiro semestre de 2015 em relação a igual período do ano anterior. De janeiro a junho último, as vendas industriais do vestuário e têxtil cresceram 2,1%. Mas, desde 2003, vinha amargando perdas diante da importação de roupas, principalmente da China. Segundo o gerente da Cortex Intelligence, Leonardo de Assis, em dez anos, o volume de importações do setor de vestuário aumentou 25 vezes.

Com a alta do dólar, Leonardo de Assis recomenda a venda de produtos para o exterior. Foto:Gilson Abreu
Com a alta do dólar, Leonardo de Assis recomenda a venda de produtos para o exterior. Foto:Gilson Abreu

As projeções para o dólar continuam apontando um cenário de alta. Para 2020, a expectativa dos bancos Bradesco e Itaú, é que a moeda norte americana seja cotada no câmbio comercial a R$ 4,45. Neste sentido, Leonardo de Assis recomenda para os industriais do setor do vestuário que entrem firme no mercado internacional, exportando principalmente para os países do Mercosul, Estados Unidos, Portugal, França, Austrália e Angola. Segundo ele, vender para estes países é uma boa opção, especialmente pela alta concentração de brasileiros nesses países, o que ajuda a conquistar novos mercados e a recomendar o nosso vestuário.

O gerente da Cortex Intelligence recomenda que entre os produtos paranaenses com grande potencial de exportação estão os paletós de uso masculino, meias acima do joelho e até o joelho de uso feminino, calças, bermudas e shorts de malha, maiôs e biquínis, cuecas e ceroulas, gravatas, camisetas e roupas para bebês.

Outro caminho apontado pelo gerente da Cortex Intelligence diz respeito à especialização da produção, como nos setores plus size, evangélico, gestante, sustentável, street style, country e terceira idade, que são os estilos que lideram as preferências do consumidor. Na sua opinião, a atuação em um nicho de mercado permite à empresa dar mais foco ao seu posicionamento.

O mercado de plus size é mundialmente grande e tem um faturamento anual de R$ 4,5 bilhões. Já o mercado de roupas para evangélicos é o de maior crescimento em termos de vestuário. Há dez anos consecutivos vem crescendo 20% ao ano e, inclusive, supera a moda gestante, que também é carente de roupas para este tipo de consumidor.

Outro setor que vem se fortalecendo é o de moda sustentável. Segundo Leonardo de Assis, 46% da nossa população está disposta a pagar mais por um produto sustentável. O segmento de street style tem crescido 20% nos últimos cinco anos, sendo que só o número de praticantes de skate no Brasil chega hoje a 4 milhões de pessoas.

Também os números da moda country são animadores. A taxa de crescimento anual das festas de rodeio no Brasil é de 7% com um faturamento de R$ 6 bilhões/ano. O gerente da Cortex também aponta o mercado de confecções para a terceira idade como muito promissor, já que em 2015 a nossa população de pessoas com mais de 60 anos chegará a 32 milhões, representando 30% da população.

O e-commerce tem a moda como o item que mais vende no Brasil. “Esta pode ser também outra alternativa, especialmente no segmento infantil. Mas é preciso estar atento porque se trata de um novo mercado, que exige novas métricas de avaliação de resultados e uso de novas ferramentas”, alerta Leonardo de Assis.

A coordenadora estadual do Vestuário do Sebrae/PR, a consultora Carla Werkhauser relata experiências que acontecem nos Estados Unidos, nas universidades de moda, que também podem ser soluções aplicáveis no Brasil, em momentos de crise. Segundo ela, as escolas de moda dos Estados Unidos se preocupam em formar profissionais voltados para as estratégias, para os negócios. Existe uma preocupação global com a cadeia produtiva, mas a produção é terceirizada nas cidades metropolitanas dos grandes centros ou na China. “Eles têm a percepção de que não conseguem controlar tudo, por isso segmentam algumas funções”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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