Brasil: desinflação e juros reais

Gilmar Mendes Lourenço.

O índice nacional de preços ao consumidor amplo 15 (IPCA-15), levantado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para medir a variação média dos preços de um abrangente grupo de produtos e serviços, consumidos por famílias com renda mensal entre um e quarenta salários mínimos, pesquisados entre os dias 15 do mês antecedente e 15 do mês atual, chegou a 2,78%, quando considerada a base de cálculo em doze meses até julho de 2017. Isso representou a menor marca desde março de 1999, quando o indicador foi de 2,64%, imputado aos efeitos depressivos da crise financeira internacional sobre a economia brasileira.

O arrefecimento do processo inflacionário, que vem surpreendendo desde analistas de mercado até autoridades governamentais, repousa na combinação entre safra recorde de grãos, estimada em 240,3 milhões de toneladas, 30,1% superior à registrada em 2016, retração nos preços administrados (energia elétrica, combustíveis e transportes) e câmbio, depois do ajuste corretivo, promovido pelo ministro Joaquim Levy, em 2015, e impactos da mais severa e longeva recessão da história do País sobre a demanda para consumo e investimento.

O comportamento cadente dos indicadores de preços permite a prospecção do furo do piso inflacionário de 3% ao ano, estipulado no regime de metas de inflação, fixado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e monitorado pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), para os exercícios fechados de 2017 e 2018. Lembre-se aqui que o sistema de metas persegue um IPCA de 4,5% (núcleo), com margem de 1,5% para mais ou para menos. Para 2019 e 2010, a faixa de tolerância foi encurtada para 1,25%.

Por essa perspectiva, a própria cartilha do estabelecimento e gerenciamento dos objetivos da dimensão dos patamares de preços recomenda a intensificação dos cortes dos juros básicos da economia, expressos na taxa Selic (sistema especial de liquidação e custódia do BC), por parte da autoridade monetária, na mira do alvo de 8% ao ano, em dezembro de 2017, contra os 14,25% a.a., em outubro de 2016, e 10,25% a.a., desde maio deste ano.

A viabilização dessa ambição ou esperança, manifestada de maneira reiterada pelo lado real da economia nacional, requer nova alteração de postura da autoridade monetária, despojando-se da condição passiva, de mero reagente à marcha da inflação, e assumindo posturas ativas, focadas na busca de imediato abrandamento, ou até eliminação em médio prazo, da dramática situação de endividamento de famílias e organizações produtivas.

Até porque, diferentemente de outros episódios de instabilidade econômica no País, normalmente associados à vulnerabilidade externa, ou dificuldades de financiamento dos crescentes desequilíbrios nas transações correntes do balanço de pagamentos, a turbulência atual deriva do enorme passivo privado (consumidores e empresas) e da virtual falência do setor público, cujo combate exige pronunciada diminuição dos encargos financeiros.

Não bastasse isso, a maior velocidade de queda da inflação, em relação à Selic, provoca a elevação, em vez do recuo, dos juros reais (7,3% a.a., em julho de 2017, versus 5,0% a.a., em julho de 2016), o que dificulta as tarefas de otimização orçamentária dos consumidores e gestão dos fluxos de caixa das corporações, e multiplica as despesas de rolagem da dívida governamental, em um contexto de decréscimo da arrecadação, atrelado à contração dos níveis de atividade.

Por certo, considerando a exacerbação das expectativas negativas dos agentes sociais, especialmente com relação à restauração do equilíbrio das finanças públicas e ao avanço das reformas institucionais, em face da deterioração da matriz política, atestada pela brutal diminuição dos indicadores de confiança depois de 17 de maio, com a inauguração da era DJ (depois de Joesley), poderia ser compreensível e aceitável a conduta conservadora do BC.

No entanto, é importante reconhecer que o retardo da recuperação da capacidade de crescimento – por enquanto restrita à cadeia do agronegócio -, altamente dependente da diminuição do preço e expansão da disponibilidade de crédito, poderá vir a ampliar o espectro do colapso, ao envolver redutos que ainda operam no azul, cuja preservação da solidez venha impor a captação de capitais de terceiros.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, pProfessor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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