O PIB e o estágio de estagnação econômica do Brasil

As informações relativas à evolução e dimensão do produto interno bruto (PIB) do país, mensuradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem sido impiedosamente cruéis com aqueles observadores do comportamento dos mercados, interessados em traçar e vender situações animadoras e triunfalistas acerca da economia nacional, desde o desfecho do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, marcadas pelo fim do ciclo recessivo e o retorno de condições objetivas e favoráveis ao crescimento sustentado.

Ao menos por enquanto, os números disponíveis vêm desqualificando aquelas leituras mais eufóricas da realidade. Depois de encolher 8,5% entre abril de 2014 e dezembro de 2016, traduzindo a mais intensa e prolongada retração da história republicana, a principal grandeza macroeconômica exibiu variação de apenas 1,1%, em 2017, repetida em 2018, contabilizando reação acumulada de 2,2%, no biênio, o que constituiu a mais lenta e modesta que se tem notícia por essas paragens, representando a exibição, sem cortes, do filme da estagnação econômica.

Apenas em caráter de ilustração, de acordo com estimativas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a contração de 1981 foi superada 13 trimestres depois de iniciada, com a colaboração decisiva do esforço exportador, edificado durante o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), da gestão Geisel (1974-1979). Na mesma linha, a regressão de 1989 foi eliminada após 16 trimestres, a partir da criação das bases do plano real, na administração de Itamar Franco. A conjuntura atual abrange o rastejar de 19 trimestres.

No entanto, esse tipo de evento é perfeitamente normal e previsível no curso de economias capitalistas que vivenciaram longos e profundos estágios depressivos, notabilizados por substancial elevação das margens de capacidade ociosa dos fatores, e cujo escape se dá em clima de multiplicação de desconfianças, por conta do não equacionamento da instabilidade política.

A par disso, emerge a percepção dos atores de ausência de consistentes compromissos oficiais com a formulação, aprovação e execução de reformas institucionais capazes de assegurar a eliminação das anomalias que impedem a viabilização dos requisitos à reativação dos negócios, especialmente, no caso brasileiro, a falência do estado e contaminação do cotidiano microeconômico.

Especificamente em 2018, o PIB chegou a R$ 6,8 trilhões e, pela ótica da produção, o modesto incremento foi distribuído entre agropecuária (0,1%), indústria (0,6%) e serviços (1,3%). No setor fabril, os desempenhos relevantes ocorreram em eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos (2,3%), transformação (1,3%) e extrativas (1,0%), e a construção caiu 2,5%. A performance dos serviços foi puxada por atividades imobiliárias (3,1%), comércio (2,3%) e transporte, armazenagem e correio (2,2%).

Do ângulo da absorção doméstica, constatou-se estabilidade dos gastos públicos e subida do consumo das famílias (1,9%), branda reflexo da diminuição dos juros, inflação e desemprego, e formação bruta de capital fixo (4,1%), primeira variação positiva depois de 4 anos consecutivos de queda, o que fez a taxa de investimento ascender de 15,0% do PIB, em 2017, para 15,8% do PIB, em 2018.

No front externo, as exportações aumentaram 4,1%, fruto da combinação entre expansão da economia mundial e depreciação do real, enquanto as importações avançaram 8,5%, graças à discreta reação da demanda interna, sobretudo o investimento.

Por tudo isso, é fácil notar que os patamares de atividade no Brasil continuam bastante abaixo daqueles registrados quando a crise foi deflagrada, pela falta de orientação econômica e apego ao diálogo político na gestão Dilma, problemas potenciados pela maximização de práticas, herdadas de seu antecessor, de deslocamento de recursos orçamentários e do caixa das companhias estatais para fins diferentes do que o preenchimento das lacunas existentes no atendimento das prioridades de infraestrutura física e carências sociais.

Nesse sentido, cálculos da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontam ampliação da disparidade de renda no Brasil em 2018, alcançando o maior nível desde 2012. O Índice Gini do rendimento domiciliar per capita foi de 0,6259 entre outubro e dezembro de 2018, contra 0,6156, entre julho e setembro, representando a 16ª elevação seguida. O Índice varia entre 0 e 1, sinalizando aumento da concentração ao se aproximar da unidade.

A virada do jogo, em 2019, esbarra nos fortes indícios de desaceleração do comércio global, puxado por China e Europa, reforçados pela exacerbação da cautela de empresas e consumidores diante das dúvidas quanto à concretização dos arranjos políticos para a aprovação das modificações estruturais pelo congresso e, por extensão, da não explicitação de qualquer estratégia macroeconômica de estabilização.

O mais preocupante, porém, é que enquanto as nuvens negras não forem dissipadas, a roda pode voltar a girar em sentido contrário. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, elaborada pelo IBGE, aponta que a taxa de desocupação subiu de 11,7% da população economicamente ativa (PEA), entre outubro e dezembro de 2018, para 12,0% da PEA, no intervalo compreendido entre novembro de 2018 e janeiro de 2019, em razão do fechamento das vagas temporárias abertas no final de ano, totalizando 12,7 milhões de brasileiros à procura de trabalho.

Já a taxa de subutilização da mão de obra – abrangendo aqueles desempregados que buscam trabalho, os que desistiram de fazê-lo e os ocupados por tempo insuficiente – aumentou de 24,1% da PEA para 24,3% da PEA, em igual período, correspondendo a 27,5 milhões de pessoas praticamente à margem do mercado de consumo.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes. 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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