Recuperação do PIB e tortura às estatísticas
As autoridades de Brasília e os meios especializados foram surpreendidos positivamente com o desempenho exibido pela economia brasileira, no 2º trimestre de 2019, sintetizado no crescimento de 0,4% do produto interno bruto (PIB), em relação ao mesmo período do ano anterior, inferido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os dados divulgados pelo organismo nacional contrastam com estimativas preliminares, feitas pelo Banco Central, que apontavam queda da atividade econômica nos dois trimestres do corrente ano, e conduziam à hipótese de retorno do país à condição de recessão técnica, sem que este sequer tenha esboçado saída consistente da fase de estagnação, vivida desde o começo de 2017.
Adicionalmente, utilizando-se como bases de cotejo o igual trimestre de 2018, o 1º semestre do ano passado, e os últimos doze meses encerrados em junho de 2019, é possível denotar acréscimos de 1,0%, 0,7% e 1,0%, respectivamente, do PIB.
Nessas condições, proliferaram manifestações triunfalistas do governo e formadores de opinião e de esperança dos atores sociais na direção da ocorrência de um circulo virtuoso, puxado pelos investimentos, baseadas na identificação de variações mais encorpadas da formação bruta de capital fixo, ou da taxa de investimento agregada, amparada em impulsão da construção civil, segmento que ostentou, entre abril e junho de 2019, o 1º resultado positivo depois de 20 trimestres seguidos de retração.
Decerto, a interpretação otimista a respeito do escape de nova recaída depressiva e formação de um embrião de recuperação, apoiado nos números do 2º trimestre, expressa fundamentalmente o desejo de abandono da postura de angústia e desesperança dos agentes e feitura de apostas num esboço de retomada, ainda que discreta, por parte do aparelho de negócios.
A alteração de humor aconteceu a despeito da não derrubada das barreiras erguidas pela ausência de montagem de um arranjo macroeconômico, pelo novo governo, dirigido ao revigoramento da absorção interna, especialmente consumo das famílias e investimento, a partir de algumas providências emergenciais e outras estruturais voltadas à reversão da debilidade do mercado de trabalho e ociosidade dos equipamentos das empresas.
Sem contar os efeitos perversos da recente demonstração de probabilidade de mudança de rumos da economia global, traduzida em intensificação da guerra comercial entre Estados Unidos e China, ameaça de recessão na Europa e derrocada da Argentina, em um cenário de derretimento dos juros e das pressões inflacionárias, em múltiplos mercados, e enormes restrições ao emprego de políticas fiscais para impedir que a quase inevitável desaceleração, do generalizado crescimento verificado desde 2009, resulte em pronunciada contração.
Por essa ordem de ideias, é fácil perceber que o sentimento de euforia com as grandezas gerais não permitiu perceber detalhes acerca do comportamento de variáveis específicas, embora de extrema relevância, que podem conduzir a diagnósticos e prospecções contrárias.
Por exemplo, a tão celebrada subida do investimento, cuja taxa chegou a 15,9% do PIB, entre abril e junho de 2019, versus 15,5% do PIB, nos três meses imediatamente anteriores, e 15,3% em igual trimestre de 2018, ainda situa-se bastante distante do pico recente de 20,9% do PIB, apurado em 2013, e, o que é pior, oportuniza o levantamento de suspeitas quanto à possível ocorrência de obsolescência de parcela da capacidade instalada e, notadamente, de supressão do poder competitivo da já combalida indústria.
Ademais, o investimento produtivo no Brasil também figura em degrau incomparavelmente menor do que o exibido pelos mercados emergentes, notadamente Chile (22,7% do PIB), México (23,0% do PIB), Índia (31,6% do PIB) e China (44,2% do PIB).
Sem contar que aproximadamente metade da ascensão contabilizada pela formação de capital, em 2019, é proveniente da construção civil, cuja performance esteve ancorada no mercado residencial – mesmo com o apreciável encolhimento dos repasses de haveres para cobertura dos programas de habitação popular – o que desautoriza argumentos relacionados à efetivação de substancial ampliação do potencial produtivo da economia.
A rigor, a fração da construção considerada pesada, responsável pelos empreendimentos infraestruturais portadores de maiores efeitos multiplicadores de emprego e renda, ainda padece com a acentuada compressão (em certos casos interrupção ou cancelamento) das obras públicas, associada à falência do estado, consequência da conjugação entre crescente malversação dos recursos administrados por governos e apuração dos escândalos de corrupção, resumidos em verdadeiros assaltos ao caixa das empresas estatais e à execução das peças orçamentárias, investigados predominantemente no âmbito da operação Lava Jato.
Por fim, é prudente recordar que a base de comparação deprimida do 2º trimestre de 2018, em função das repercussões inflacionárias e depressivas da paralisação do transporte rodoviário de cargas, desabona exercícios de projeção, sem a introdução de filtros estatísticos, dos indicadores positivos, capturados no intervalo compreendido entre abril e junho de 2019.
Até porque, seria ocioso advertir sobre a necessidade de redobrada cautela na apreciação e extrapolação de dados conjunturais que, por denotarem arrepiante frieza, mesmo que torturados, serão incapazes de confessar o que não exprimem. O chefe da pasta do Planejamento no governo Castelo Branco (1964-1967) sentenciou certa vez que “estatísticas são como biquíni: mostram quase tudo, mas escondem o essencial”.
Não bastasse isso, logo que veiculados aqueles parâmetros já passam a fazer parte da história. A esse respeito, vale sublinhar uma célebre frase de Pedro Malan, titular do ministério da Fazenda, na gestão Fernando Henrique Cardoso (1995-2002): “no Brasil, até o passado é incerto”.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, professor da FAE e ex-presidente do Ipardes.


