Curitiba é a capital com o maior porcentual de pessoas endividadas do Brasil
De dezembro de 2013 até junho de 2016, a crise econômica do Brasil gerou uma forte redução na massa total de rendimentos mensais das famílias brasileiras, com uma perda estimada de R$ 4,4 bilhões ao mês (R$ 52,6 bilhões em termos anuais) no final desse período. Essa diminuição resultou na queda de quatro pontos porcentuais na proporção de famílias endividadas nas capitais do País, que passou dos 62% em 2013 para 58% em junho deste ano. Em termos absolutos, significa que o número de famílias endividadas no total das capitais caiu de 9,466 milhões no final de 2013 para 9,062 milhões em junho de 2016 – mais de 400 mil famílias conseguiram sair do endividamento nesse período.
Curitiba/PR permaneceu sendo, em junho de 2016, a capital com o maior porcentual de famílias endividadas (86%). Florianópolis/SC continuou no 2º lugar do ranking (85%), mesmo com a redução de três pontos porcentuais em relação a 2013. Os dados compõem a sexta edição da Radiografia do Crédito e do Endividamento das Famílias Brasileiras, realizada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). A análise contempla dados de 2013 ao primeiro semestre de 2016, com base em informações do Banco Central do Brasil, IBGE e da CNC.
De acordo com a Assessoria Econômica da FecomercioSP, as grandes turbulências nos quadros político e econômico vividos pelo Brasil a partir de 2014 impactaram de maneira expressiva as famílias brasileiras ao deteriorar as condições de renda e emprego. Esses fatores, juntamente com a queda no grau de confiança dos consumidores, explicam nitidamente o ciclo recessivo do consumo, que ainda prevalece corroendo as vendas do comércio em todo o País, além da retração das operações de crédito.
Considerando o número menor de famílias endividadas nas capitais nacionais nesse período, o valor total mensal dessas dívidas caiu, em valores reais, cerca de R$ 1 bilhão, passando de R$ 15,2 bilhões em 2013 para R$ 14,2 bilhões em 2016.
Ainda em relação a 2013, o valor da dívida mensal por família nas capitais também caiu ao passar de R$ 1.611 para R$ 1.569 em junho de 2016, e a parcela da renda mensal comprometida com o pagamento de dívidas subiu um ponto porcentual, de 30% em 2013 para 31% em 2016. Segundo a Federação, o patamar em torno de 30% é considerado razoavelmente adequado para não sinalizar risco de elevação da inadimplência.
No âmbito da inadimplência, a menor procura por empréstimos, ao lado da maior preocupação com a administração mais rígida do orçamento doméstico via redução de dívidas levou a uma trajetória de queda de atrasos na quitação dos empréstimos. Na verdade, houve um acordo tácito: os bancos não querem emprestar como em passado recente e as famílias não querem se endividar da mesma forma que faziam nos tempos de pleno emprego. Esse ajuste, bastante racional e responsável, garantiu, até o momento, um ambiente financeiro com notável alívio na inadimplência.
O processo de redução no número de famílias endividadas fez com que restasse, um conjunto de famílias com menor poder aquisitivo relativo. O reflexo disso foi uma leve alta na proporção de famílias com dívidas em atraso, que era de 21% em 2013, caiu para 18% no final de 2014 e cresceu para 23% em 2015 e em junho deste ano.
Juros
Embora as famílias de todo o País, em 2016, tenham tomado 11% menos empréstimos do que há três anos, elas tiveram um aumento real no pagamento de juros de 6,3%, em função das fortes altas ocorridas no custo dos financiamentos no período. Os juros passaram de 18,9% acumulados nos seis meses iniciais de 2014 para 24,1% no 1º semestre de 2016. Isso representa sair de uma taxa mensal de 2,9% para 3,7%.
Esse comportamento dos juros praticados levou, por consequência, a uma expressiva elevação do valor dos juros pagos pelas famílias nesse período: enquanto que no primeiro semestre de 2014 as famílias despenderam R$ 158,9 bilhões para pagamento de juros de seus empréstimos, essa despesa passou para R$ 174,4 bilhões no mesmo período de 2016, valor equivalente a 5,7% do PIB semestral. Em 2014, nesses mesmos seis meses, esse valor correspondeu a 4,8% do PIB. Assim, mesmo com a retração na tomada de empréstimos pelas famílias em 2016, o custo pago a título de juros foi R$ 15,5 bilhões maior do que há dois anos.
De 2013 a 2016, o saldo do volume das operações de crédito total para pessoas físicas caiu 11,2% em termos reais, passando de R$ 905 bilhões para R$ 804 bilhões. Ao mesmo tempo, nesse período houve aumento substancial na taxa média anualizada de juro ao consumidor, que passou de 42,7% a.a. em 2013 para a média de 54,1% a.a. em 2016.
Segundo os economistas da FecomercioSP, essas constatações deixam clara a importância da política monetária sobre o dia a dia e sobre a capacidade de consumo da população, pois a taxa de juros representa um elemento relevante no total do orçamento doméstico. Isso realça também a importância de uma economia com suas contas públicas ajustadas, pois no final a prática de altos juros nada mais é do que a necessidade de se utilizar uma política monetária restritiva, na ausência de política fiscal adequada, visando evitar o descontrole de algumas variáveis macroeconômicas importantes, principalmente da inflação.
Como a taxa de juros elevada é um obstáculo ao crescimento econômico e um custo elevado tanto para os consumidores como para as empresas e para o setor público, qualquer melhoria passa, necessariamente, por um forte ajuste fiscal. O desajuste é causa e não consequência da crise.
Destaques nas capitais
Curitiba/PR permaneceu sendo, em junho de 2016, a capital com o maior porcentual de famílias endividadas (86%). Florianópolis/SC continuou no 2º lugar do ranking (85%), mesmo com a redução de três pontos porcentuais em relação a 2013. Destacaram-se também Boa Vista/RR (82%), Brasília/DF (78%) e Natal/RN (76%).
Goiânia/GO e Belo Horizonte/MG foram as capitais que, em junho de 2016, apareceram com as menores taxas de famílias endividadas, com 34% e 38%, respectivamente, índices que representam reduções de 16 e 10 pontos porcentuais em relação a dezembro de 2013. Completam a lista das cinco capitais com menor taxa de famílias endividadas: Teresina/PI (53%), Salvador/BA (52%) e São Paulo/SP (49%).
Já entre as capitais com maiores médias mensais de dívidas por família, Vitória/ES liderou o ranking com R$ 3.222, seguida por Porto Alegre/RS (R$ 2.296), Curitiba/PR (R$ 2.133), Belo Horizonte/MG (R$ 2.068) e Florianópolis/SC (R$ 2.042). Em contrapartida, as capitais São Luís/MA (R$ 1.056), Fortaleza/CE (R$ 992), Aracaju/SE (R$ 784), Maceió/AL (R$ 747) e João Pessoa/PB (R$ 612) apresentaram os menores valores médios de dívidas por família, em junho deste ano.
Segundo a FecomercioSP, os dados de distribuição regional do crédito pelo Banco Central justificaram a causa da forte concentração de endividados em algumas capitais do País, como as da região Sul. Os dados do Banco Central indicaram uma assimetria entre população e crédito nessa região, pois respondendo por 15% do número de famílias, a região captou 20% do total de crédito. A região Centro-Oeste foi aquela onde se teve a maior concentração relativa das operações de crédito, respondendo por 8% do número de famílias e 13% das tomadas de empréstimos no sistema financeiro formal.
No sentido inverso, as Regiões Nordeste e Norte foram as que apresentaram as maiores desigualdades relativas entre população e volume de crédito: tendo 27,4% da população, o Nordeste teve uma oferta de crédito de apenas 15,7% do total, e no Norte, essa relação foi de 7,4% e 4,8%, respectivamente. Isso explica em grande parte os altos índices de endividamento informal e contas em atraso nessas capitais.
Em termos do porcentual de famílias com contas em atraso, Boa Vista foi a capital com a maior taxa, com um conjunto de 44% de inadimplentes em junho de 2016. Essa taxa, no entanto, já foi maior em 2013, quando acusou um contingente de 53% de famílias inadimplentes. O aspecto mais preocupante, segundo a Federação, é que a maioria das dívidas em Boa Vista está concentrada em cartão de crédito e carnês, o que sinaliza para elevados custos dessas contas.
As cidades de Macapá/AP (41%), Belém/PA (36%), Cuiabá/MT (35%) e Manaus/AM (35%) completaram o ranking das capitais com as maiores proporções de famílias inadimplentes do País. Já Teresina/PI (17%), Belo Horizonte/MG (16%), Palmas/TO (14%), Brasília/DF (14%) e João Pessoa/PB (10%) apresentaram as menores taxas.
As quatro capitais com as maiores taxas de comprometimento da renda com dívidas estão nas regiões Norte e Nordeste: Manaus/AM (42%), Boa Vista/RR (41%) Teresina/PI (41%) e Natal/RN (36%). São justamente as regiões onde a oferta de crédito mostra as maiores desproporções em relação à população. Brasília/DF completa a lista dos maiores comprometimentos de renda, com 35%.
No sentido oposto, as famílias de Maceió/AL (27%), Belém/PA (27%), Recife/PE (23%), Aracaju/SE (14%) e João Pessoa/PB (13%) foram as que menos comprometeram suas rendas com as dívidas, em junho de 2016.
Ranking Nacional (Junho de 2016)
1 – Porcentual de famílias endividadas
5 maiores
Curitiba/PR – 86%
Florianópolis/SC – 85%
Boa Vista/RR – 82%
Brasília/DF – 78%
Natal/RN – 76%
5 menores
Teresina/PI – 53%
Salvador/BA – 52%
São Paulo/SP – 49%
Belo Horizonte/MG – 38%
Goiânia/GO – 34%
2 – Número absoluto de famílias endividadas
5 maiores
São Paulo/SP – 1.890.447
Rio de Janeiro/RJ – 1.294.260
Brasília/DF – 708.550
Curitiba/PR – 538.939
Salvador/BA – 491.053
5 menores
Vitória/ES – 79.974
Macapá/AP – 79.564
Boa Vista/RR – 73.628
Rio Branco/AC – 68.181
Palmas/TO – 56.840
3 – Parcela da renda mensal comprometida com dívidas
5 maiores
Manaus/AM – 42%
Boa Vista/RR – 41%
Teresina/PI – 41%
Natal/RN – 36%
Brasília/DF – 35%
5 menores
Maceió/AL – 27%
Belém/PA – 27%
Recife/PE – 23%
Aracaju/SE – 14%
João Pessoa/PB – 13%
4 – Valor médio mensal de dívidas por família
5 maiores
Vitória/ES – R$ 3.222
Porto Alegre/RS – R$ 2.296
Curitiba/PR – R$ 2.133
Belo Horizonte/MG – R$ 2.068
Florianópolis/SC – R$ 2.042
5 menores
São Luís/MA – R$ 1.056
Fortaleza/CE – R$ 992
Aracaju/SE – R$ 784
Maceió/AL – R$ 747
João Pessoa/PB – R$ 612
5 – Porcentual de famílias com dívidas em atraso
5 maiores
Boa Vista/RR – 44%
Macapá/AP – 41%
Belém/PA – 36%
Cuiabá/MT – 35%
Manaus/AM – 35%
5 menores
Teresina/PI – 17%
Belo Horizonte/MG – 16%
Palmas/TO – 14%
Brasília/DF – 14%
João Pessoa/PB – 10%








