A recessão acabou?

A identificação de indicadores econômicos positivos, no final de 2016, ainda que localizados e de reduzida magnitude, ao lado de sinalizações de retorno da confiança de empresários e consumidores, no começo de 2017, sob a influência, sobretudo, da decisão acertada, embora demorada, do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), em produzir ondas mais fortes de redução dos juros, oportunizou a feitura de diagnósticos de que a instabilidade teria chegado ao fundo do poço e o País estaria finalmente superando o flagelo recessivo.
Do ponto de vista estritamente técnico, o quadro depressivo desaparecerá quando, de maneira generalizada, as estatísticas das diversas variáveis subjacentes aos níveis de atividade, superarem as verificadas no mesmo período do ano antecedente. Nessa perspectiva, parece até razoável admitir e projetar a ocorrência desse fenômeno já no primeiro trimestre de 2017.
Contudo, convém advertir que se trata de um tempo da produção e dos negócios tradicionalmente determinado pela ampliação das encomendas do comércio à indústria, visando à recomposição dos estoques em face da movimentação de vendas de final de ano que, por sinal, em 2016, revelou a pior performance desde que a conjuntura de varejo é alvo de mensuração pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Ao mesmo tempo, os trabalhos relativos à colheita, comercialização, processamento industrial e exportação dos produtos do agronegócio, em um cenário de estabilização de preços nos mercados globais, devem ativar os fluxos de renda, de uma forma pulverizada geograficamente, e provocar efeitos multiplicadores em um número nada desprezível de cadeias de valor acopladas ao segmento.
Neste particular, nota-se que o evento abarca a repetição do que ocorre em praticamente todos os anos, exceto por ocasião de frustrações de safra, associadas a problemas climáticos, ou compressão das cotações internacionais dos alimentos, costumeiramente motivada por declínio de demanda ou circunstâncias de oferta excessiva. Até porque, não fosse a produtividade e competitividade do agronegócio, cada vem menos preso às amarras da ineficiência governamental, as contas externas da nação estariam em situação de absoluto colapso.
Por certo, a combinação de alguns elementos virtuosos, gestados no plano doméstico, em 2016, permite a captação e observação de horizontes menos turvos e, por extensão, o regresso dos componentes essenciais ao alargamento temporal da previsibilidade dos agentes.
Dentre os itens favoráveis, sobressai o acentuado decréscimo da inflação, surpreendendo aos mercados e à própria equipe econômica, oportunizado por recessão inédita, em intensidade e duração, que ensejou o abrandamento das posturas conservadoras da autoridade monetária; a prospecção de esquemas fiscais na direção da restauração do equilíbrio orçamentário, em longo prazo, fruto da imposição de tetos constitucionais à evolução dos gastos públicos federais, e o encaminhamento, pelo executivo ao legislativo, de indiscutíveis avanços institucionais, como a proposta de um novo arcabouço previdenciário e a reforma de aspectos da legislação trabalhista.
Só que a legitimidade de tais empreitadas esbarra no desenrolar das investigações da operação Lava Jato que, a julgar pela multiplicação das delações premiadas dos executivos das corporações, públicas e privadas, envolvidas, deve, paradoxalmente, atingir apreciável fração dos parlamentares encarregados da discussão de formulação de modificações no modus operandi do tecido econômico e social do País.
Por tudo isso, a retomada do fôlego, sem o uso contínuo de aparelhos, da economia brasileira deve ser recebida com redobrada cautela. Na melhor das hipóteses, será um estágio reerguimento amparado na ocupação das enormes margens de ociosidade, acumuladas durante a fase de prolongada retração, em um ambiente de massa de salários cadente, com o desemprego recorde e o encolhimento dos rendimentos reais, mesmo com a queda da inflação, e endividamento e inadimplência ainda em patamares extremamente elevados.
Sem contar as incertezas oriundas do front externo, determinadas pelas posições nocivas ao funcionamento do comércio global, manifestadas pelo novo governo dos Estados Unidos que, em uma pressuposição otimista, devem brecar acenos de sincronização da recuperação econômica mundial e punir estados com finanças públicas cronicamente abaladas.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.



