E 2018? Que Deus nos acuda e nos proteja

Gilmar Mendes Lourenço.

A nação brasileira encerra o ano de 2017 celebrando o fim da mais profunda e longa recessão da história e o princípio de um discreto processo de recuperação dos negócios, apoiado essencialmente na queda da inflação e dos juros e, no front externo, na continuidade da expansão da economia mundial, o que vem repercutindo positivamente no mercado de trabalho doméstico.

A inflação, medida pelo índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), levantado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para um grupo de produtos consumidos por famílias com renda mensal entre um quarenta salários mínimos, exibiu variação de 2,8% em doze meses encerrados em novembro de 2017, menos da metade daquela verificada no mesmo período de 2016 (7,0%), e abaixo do piso de 3,0% ao ano, da meta de 4,5% a.a., fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de acordo com o regime vigente desde 1999.

A calmaria na área de preços favoreceu a flexibilização da ortodoxia, por parte da autoridade monetária, ensejando, ao Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), a promoção de dez cortes seguidos na taxa Selic, reduzindo-a de 14,25% a.a., em outubro de 2016, para 7,0% a.a., em dezembro de 2017, o menor nível da história.

Não obstante, a elevada concentração bancária e o pronunciado e crescente endividamento do governo, encurtando a disponibilidade de crédito para os demais agentes econômicos, obstaculizam o declínio mais acentuado dos juros para os tomadores finais. Mais precisamente, o preço do dinheiro ainda situa-se em 338,0% a.a., no rotativo do cartão de crédito, e 324,0% a.a., no cheque especial, para pessoas físicas.

Isso em um cenário marcado por condição de endividamento recorde, manifestada por 62,2% das famílias, estando 26,0% das pessoas com contas em atraso superior a dois meses, em média, e 10,1% sem a menor condição de quitação dos débitos, conforme apurações da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Ademais, 77,0% dos consumidores continuam vítimas do feitiço das aquisições no cartão.

Com respeito ao clima laboral, é fácil perceber recuo do desemprego e avanço das contratações com carteira assinada. A taxa de desocupação, estimada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, caiu de 13,7% da população economicamente ativa (PEA), no primeiro trimestre do corrente exercício, para 12,2% da PEA, entre agosto e outubro de 2017.

Porém, ainda suplanta os 11,8% observados em idêntico trimestre de 2016 e representa o quarto maior desemprego, em um painel de 54 países, avançados e emergentes, acompanhados pela empresa de consultoria Austin Rating. Enquanto isso, o rendimento médio de todos os trabalhos exprime rota ascendente associada à queda inflação.

Já o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, mostra a geração líquida de 302,2 mil empregos formais, no período janeiro-outubro de 2017, contra fechamento líquido de 3.511,0 milhões de postos, em 2015 e 2016, a partir de contabilização da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). Ainda assim, o fôlego vem sendo garantido pelos segmentos de serviços, indústria de transformação e agropecuária, com retrações relevantes no comércio e na construção civil.

Pelo ângulo do comércio exterior, as exportações e importações, mensuradas em dólares, cresceram 18,2% e 9,6%, respectivamente, entre janeiro e novembro de 2017. As vendas externas foram impulsionadas pelos itens básicos (incremento de 28,0%) e as aquisições de fora foram determinadas por combustíveis e lubrificantes (+41,2%).

A restauração dos parâmetros de funcionamento adequado de algumas variáveis de estabilização, que contou com a colaboração decisiva do comércio internacional, catapultado pela China, estaria na raiz do acréscimo de 0,4% e 1,5%, acusado pelo produto interno bruto (PIB) brasileiro, respectivamente, no segundo e terceiro trimestre do ano, em comparação com igual intervalo de 2017, resultando em ampliação de 0,6%, acumulada entre janeiro e setembro, versus encolhimento acumulado de 8,5%, entre abril de 2014 e março de 2017.

A demonstração de vigor do aparelho produtivo, corroborada pela subida dos indicadores de confiança de empresários e consumidores, em paralelo à deterioração das peças políticas e institucionais, magnificada pela multiplicação das relações incestuosas entre membros dos poderes constituídos, até poderia permitir a conformação da falsa impressão de descolamento da economia e da política.

Rigorosamente, a marcha dos atores sociais carrega a mensagem ou pedido de resgate das condições de viabilização de um projeto de longo prazo para a nação, capaz de proporcionar a geração de poupança para o reerguimento do investimento, particularmente em infraestrutura econômica e social, algo que depende crucialmente de intensa discussão coletiva do arcabouço de reformas imprescindível à diminuição do custo Brasil e à elevação da eficiência da microeconomia.

Não é necessário ser um expert em conjuntura política e econômica para constatar que o atual núcleo de Brasília (governo, legislativo e judiciário) não é portador de qualquer tipo de aptidão para a organização e condução de processo de tamanha complexidade. Decerto, o que for realizado até o final de 2018 terá que ser desmanchado por outra aliança hegemônica, a qual, a partir de janeiro de 2019, caberá, dentre outras tarefas, a feitura de uma verdadeira auditoria nos fluxos financeiros da União e das empresas estatais.

Até porque, o horizonte temporal de perpetuação da atmosfera benigna no terreno da inflação, dos juros e do emprego pode ser diminuto. A safra de grãos de 2018 deve ser 9,0% inferior à quantidade colhida em 2017, as margens de capacidade ociosa da época recessiva sofrem contração e a ausência de empenho oficial para a redução do déficit e da dívida pública deve produzir um rombo primário de 3,0% do PIB (aproximadamente R$ 190,0 bilhões), até o final do ano, bastante acima da meta de desequilíbrio de R$ 159,0 bilhões, acordada entre executivo e congresso nacional.

Sem contar os efeitos da provável polarização política entre o pior (reencarnação do povo e salvador dos pobres, defendendo uma espécie de versão ampliada dos erros cometidos entre fins de 2008 e maio de 2016, conhecida como intervencionismo populista) e o ruim (ignorante confesso em economia e arauto da aplicação da violência e do nacional desenvolvimentismo dos tempos do regime militar). Que Deus nos acuda e nos proteja.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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