A recuperação de crédito e seus reflexos no comércio virtual
O endividamento brasileiro cresce mês a mês. Se isolarmos a população economicamente ativa, ele chega a representar 40% desse público. Para combater ou diminuir este índice, muitas instituições têm criado alternativas que buscam recuperar parte desse crédito, a fim de que possa ser utilizado em novas dinâmicas de negócios. Na visão das instituições financeiras, por exemplo, conceder bons descontos e recuperar uma parte do capital disponibilizado – para ter a oportunidade de voltar a operar com esse cliente inadimplente – pode ser a alternativa mais barata, e futuramente, lucrativa.
Em um cenário no qual o custo de aquisição de clientes se mostra muitas vezes a maior fonte de despesa, faz sentido “recuperar” esse usuário, enquadrar ele em sua nova e real capacidade financeira e, simultaneamente, melhorar a sua imagem com esse cliente, que estava desgastada. Em busca dessa recuperação, os bancos cada vez mais se utilizam de fintechs (startups do segmento financeiro).
De acordo com pesquisa realizada no primeiro semestre de 2018 pelo Finnovista e pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), 35% das fintechs brasileiras estão voltadas ao setor bancário (http://finnovation.com.br/mapa-de-fintechs-brasil-maio-de-2018/). Por terem em sua essência a agilidade no tratamento das informações, elas conseguem chegar ao cliente inadimplente, identificar o seu problema e tratá-lo de forma muito mais veloz do que as grandes corporações, que têm um sistema “engessado” e burocrático. Essas fintechs conseguem acionar mais de um milhão de clientes em único dia. Utilizando-se de estrutura automatizada, negociar com esse usuário – ora inadimplente –, recuperar o crédito e, ao mesmo tempo, melhorar a imagem da instituição, apresenta-se como uma alternativa simples, barata e ágil aos bancos.
Tal evolução nos faz refletir sobre o que tem sido feito, de forma semelhante, com os clientes do e-commerce? Existe hoje um crescimento importante no segmento de créditos para negativados. Segundo pesquisa realizada em agosto de 2018 pela Associação Brasileira de Fintechs (ABFintech), 21% das iniciativas atuam em atividades ligadas a crédito e apenas 8% na gestão financeira (http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2018-08/fintechs-enfrentam-desconhecimento-por-parte-das-empresas). Isso prova a preocupação em oferecer o crédito, porém não se observa a mesma relevância para o público depois de negativado.
E há de se pensar, afinal, segundo dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), são mais de 63 milhões de pessoas nessa situação. De acordo com levantamento da fintech paranaense QuiteJá, o desbloqueio do cartão de crédito para novas compras é o principal questionamento dos inadimplentes que renegociam seus débitos por meio da plataforma digital. Ou seja, esse cliente está “faminto” em voltar a consumir. Ora, se este usuário já se utilizou de uma plataforma digital para negociar, estaria ele ainda mais próximo de usar o e-commerce para suas futuras compras.
Desta forma, sugere-se observar com mais atenção essas novas alternativas digitais, que só crescem. Os dados são evidenciados na pesquisa ‘FinTech Deep Dive 2018’ – realizada pela AB Fintechs e consultoria PwC Brasil (http://www.pwc.com.br/pt/setores-de-atividade/financeiro/2018/pub-fdd-18.pdf). Os números revelam que 95% das 224 empresas ouvidas esperam aumentar suas receitas neste ano. Destas, 67% têm a expectativa de melhorar a renda bruta em mais de 30% em relação a 2017. Aparentemente distantes do segmento do comércio virtual, as plataformas de negociação digital podem elevar a curva de crescimento do e-commerce, afinal elas já estão em contato hoje com o potencial cliente digital de amanhã.
O artigo foi escrito por Luiz Garcia, que é advogado e CEO da QuiteJá – fintech de negociação digital – Graduado pela PUCPR, especializado em Análise de Riscos, Créditos, Cobrança e Direito Bancário.


