Rodrigo Maia, Lewandowski e o espírito natalino

Em paralelo à confirmação pelo poder executivo da meta fiscal para 2019, expressando déficit primário de 139,0 bilhões e, por consequência, a necessidade de enorme esforço de ajuste das contas públicas, por parte das três órbitas de governo, as casas legislativa e judiciária, provavelmente impregnadas de espírito natalino, decidiram anunciar algumas bondades que deverão produzir enormes restrições ao gerenciamento das finanças no próximo exercício.

A entrega do presente da casa de leis aconteceu por ocasião da ausência do país do presidente Michel Temer, em viagem ao Uruguai para encontro da cúpula do Mercosul. De pronto, o mandatário em exercício, deputado Rodrigo Maia, presidente da câmara dos deputados, sancionou a Lei Complementar (LC) 164/2018, que introduz alterações na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF, LC 101/2000), que permitem estouro adicional de dispêndios com pessoal pelas instâncias municipais, contrariando avaliação do ministério da fazenda, evocando nota técnica do parlamento e ignorando a cadeira que estaria ocupando por um solitário dia.

Ressalte-se que o chefe de estado teria até o dia 28 de dezembro de 2018 para vetar o dispositivo aprovado pela câmara, que beneficia municípios que amargaram redução de arrecadação real (com desconto da inflação) acima de 10%, em confronto com o equivalente quadrimestre do ano antecedente, ocasionada pelo declínio das transferências oriundas Fundo de Participação dos Municípios (FPM), associado à concessão de isenções tributárias federais, pela União, e retração das receitas provenientes de royalties e participações especiais.

Isso seria particularmente importante se se levar em conta a permanente resistência das administrações municipais em fazer a “lição de casa” na busca do reequilíbrio financeiro, atestada pela constatação de que mais de 1/3 das prefeituras do país deverá encerrar 2018 contabilizando expressivos rombos orçamentários derivados do atraso no pagamento de supridores e na quitação da folha de salários dos servidores, duplicada com o décimo terceiro, conforme levantamento da Confederação Nacional dos Municípios.

Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), entre 1995 e 2016, o contingente total de servidores públicos no Brasil cresceu 82,0%, sendo 175,0% nos municípios, que empregam 60,0% da força, 28,0% nos estados e 25,0% na órbita federal.

Na mesma linha, o outro bônus foi entregue pelo judiciário, especificamente pelo ministro do supremo tribunal federal (STF), Ricardo Lewandowski, que concedeu liminar suspendendo a medida provisória (MP) 849/2018 que postergava, de 2019 para 2020, a segunda parcela do reajuste de proventos dos servidores públicos federais, definida em 2017. Tal deliberação, que favorecerá 209 mil funcionários civis ativos e 163 mil inativos, deverá custar R$ 4,7 bilhões aos cofres públicos em 2019.

Lembre-se aqui que a massa de salários do funcionalismo representa o segundo maior componente de gasto no Orçamento da União – sendo que o primeiro carrega o fardo previdenciário –, o que, blindado pela estabilidade plena do servidor, que aufere remunerações bastante superiores às praticadas pela iniciativa privada em funções semelhantes, abre flancos para o imobilismo e a reduzida eficiência.

Sem contar o inchamento (sem lubrificação) da máquina por conta de passagens pelo poder de entes populistas que proporcionaram aquela elevação de 82,0% do contingente de servidores, no lapso 1995-2016, já mencionada, fazendo o peso da folha saltar de 8,8% do produto interno bruto (PIB), em 1995, para 10,7%, do PIB, em 2016, contra, por exemplo, 9,0% do PIB, nos Estados Unidos e Austrália, e 6,4% do PIB, no Chile (6,4%), apenas para mencionar uma nação latino-americana igualmente de renda média.

Mais que isso, o reajuste dos recursos destinados à cobertura dos salários dos funcionários públicos suplantou em 34,0% a inflação, no período, corroborando a existência de uma espécie de primeira classe no país, separada das demais categorias sociais e quase imune às flutuações cíclicas da economia.

Por certo, urge a recondução desse encorpado grupo à vida cotidiana por meio de criteriosa revisão de aspectos como estabilidade e carreira, além de introdução de critérios privados de avaliação de desempenho.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-diretor presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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