Setor público e desigualdade social no Brasil

O setor público brasileiro, expresso em distintas instâncias alojadas na união, governos estaduais e municipais, empresas estatais e poder judiciário, constitui poderoso mecanismo de concentração de renda e perpetuação da desigualdade social que, a rigor, deveria empenhar-se em combater e minimizar.

Simulações estatísticas recentes, realizadas com base em registros administrativos, dados e informações oriundas das próprias entidades governamentais e ancoradas na trajetória do volume total de salários pagos revelam flagrante priorização e, por extensão, supremacia, do conjunto de servidores públicos em detrimento das demais categorias de trabalhadores.

De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o contingente de funcionários públicos federais, estaduais e municipais foi agraciado com reajustes salariais reais (com desconto da inflação), de 5,1% ao ano, no intervalo de tempo compreendido entre 2006 e 2014, contra 1,7% a.a., conferidos aos empregados com carteira assinada no mercado privado.

Essa absoluta ausência de sincronia entre a curva de majorações reais de salários e outras remunerações, verificada entre os servidores públicos e os ocupados no segmento privado, foi construída essencialmente entre o fim do primeiro mandato do presidente Lula até o epílogo da primeira gestão de Dilma Rousseff, em íntima aderência com o atendimento dos interesses das corporações, acopladas à aliança hegemônica de poder e, o que é pior, revelando a ineficácia e, sobretudo, o caráter de consolidação da miséria e da pobreza, implícitos nas estratégias oficiais de transferência de renda, especialmente a propalada valorização do salário mínimo.

Em linha comparativa mais abrangente, exercícios efetuados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) identificaram, entre 2007 e 2016, média real salarial de R$ 16 mil mensais, no poder judiciário, incluindo ministério público, quase 12,0% superior às cifras pagas pela esfera legislativa (R$ 14,3 mil mensais) e o dobro da apurada para o executivo (R$ 8 mil).

Ademais, cálculos do ministério do planejamento apontam que 67% dos servidores civis federais integram a faixa dos 10% mais ricos da população, coadjuvados por 45% dos funcionários públicos estaduais e 20% dos municipais, corroborando a constituição de uma autêntica elite na dinâmica de ocupações.

Essa anomalia vem sendo viabilizada pela feitura de concursos públicos com a designação de proventos substancialmente desproporcionais, para os estágios iniciais das carreiras, incompatíveis com o comportamento da microeconomia, avessos às imposições de restrições orçamentárias e, na maioria dos casos, desalinhados das efetivas necessidades de provisão de serviços públicos.

A situação é particularmente mais preocupante nas unidades subnacionais, marcadas pela perversa e curiosa concatenação entre falência financeira e inchaço da máquina, este último amparado na criação de cargos comissionados e outros regimes especiais que permitem, sem a exigência de concursos, alterações de funções e carreiras capazes de engendrar despropositada disparada salarial, sob o conveniente descaso da justiça.

A propósito desse último ponto, convém destacar que a burocracia judiciária nacional revela-se proporcionalmente a mais dispendiosa do planeta, abocanhando 1,3% do produto interno bruto (PIB) por ano, ou 1,8% do PIB se forem adicionados os haveres aportados no ministério público.

Trata-se de dimensão orçamentária maior, individualmente, que a metade dos estados brasileiros, e que suplanta em onze vezes os entes congêneres na Espanha, em dez vezes os da Argentina, e em nove vezes os dos Estados Unidos (EUA), sendo igualada apenas pela Suíça, que possui população 25 vezes menor e renda cinco vezes maior que a brasileira.

Apesar da situação dramática multiplicam-se sinais de aprofundamento da proteção às castas, exemplificadas na deliberação do ministro do supremo tribunal federal (STF), Ricardo Lewandowski, de concessão, em 2019, da segunda parte dos reajustes dos vencimentos dos servidores federais, definida em 2017, com repercussão fiscal de R$ 4,7 bilhões na contabilidade pública, sem contar os inevitáveis efeitos em cascata.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-diretor presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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