Urgente: Alteração de comando no Posto Ipiranga

Em meio à formação de apreciáveis barreiras à continuidade do generalizado ciclo de expansão da economia global, iniciado depois da superação dos impactos provocados pela quebra do subprime, segmento hipotecário de segunda linha dos Estados Unidos (EUA), em 2008 e 2009, o ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes (PG), emitiu opiniões tão estapafúrdias que passaram a impressão de que ele estaria recebendo aulas e lições de ciências sociais do próprio presidente da república.

Apenas para esclarecer melhor, recorde-se que, ao longo da árdua campanha eleitoral de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro, quando provocado a emitir comentários a respeito de questões econômicas, quase sempre se esquivava e alertava que aqueles assuntos deveriam ser tratados, esclarecidos e resolvidos por PG, que seria uma espécie de Posto Ipiranga, ou a pessoa adequada para a elucidação e solução de todas as mazelas.

Em palestra proferida em evento organizado pelo banco Santander, Guedes negligenciou, de maneira jocosa e pouco responsável, os perigos de deflagração e proliferação de nova turbulência mundial, por conta da não reversão da tendência de aprofundamento do conflito comercial entre EUA e China e da retração industrial europeia, evidenciada pela inversão da curva de remunerações das aplicações financeiras de longo (30 anos) e curto prazo da economia norte-americana, em detrimento das primeiras, o que não ocorria desde meses antes da deflagração do estágio depressivo, em fins de 2008, que, em efeito dominó, derrubou os mercados imobiliário e financeiro e a produção de bens e serviços em escala planetária.

O ministro afirmou peremptoriamente que, se confirmada a constituição de um ambiente de contração dos negócios no mundo, o Brasil não será afetado se estiver fazendo a “coisa certa”, e sentenciou absoluta falta de preocupação com os reflexos de movimentos de escalada do dólar, ainda que de curto termo. “Se o mundo acabar, o Brasil vai sair do buraco”.

Mais que isso, ferrenho defensor de radical abertura comercial, PG destacou a vantagem de a economia do país ser bastante fechada e não depender de muitos mercados. Só faltou fazer registro em cartório do compromisso de promoção do retorno do modelo de industrialização por substituição de importações, para consolidar o déficit de coerência.

Enfatizou até as chances de o país rumar na contramão do retrocesso da economia internacional, ignorando fracassos recentes, expressos nos incentivos anticíclicos, tributários e creditícios, disponibilizados no final do mandato de Lula, que, ao tornarem-se permanentes, sob a administração de Dilma Rousseff, quebraram o estado brasileiro e causaram perda dos expressivos ganhos de inclusão social, conquistados pela nação a partir de 1994, graças à desinflação, ensejada pelo Plano Real, os programas oficiais de transferência de renda e a política de valorização do salário mínimo.

Porém, o maior deslize do titular da pasta econômica repousou no descaso com as inevitáveis repercussões dos momentos tortuosos, chamados por ele de balancê, vividos pela Argentina, marcados por caos econômico e chances concretas de retorno de correntes de esquerda ao poder, pela via democrática.

O terceiro maior parceiro comercial brasileiro, atrás apenas de China e EUA, convive com o fenômeno conhecido com estagflação (inflação elevada e ascendente e recessão), caracterizado nesse particular, por subida anual de 54,4% do nível geral de preços e queda do produto interno bruto (PIB) superior a 4,0% em doze meses, de acordo com o Instituto Nacional de Estadísticas y Censos (INDEC).

Guedes aproveitou ainda para ressuscitar sua equivocada avaliação de pequenez do Bloco Mercosul e afirmar que o crescimento econômico brasileiro nunca dependeu da Argentina. Nesse tópico específico, a eficiente e ágil assessoria do ministro poderia tê-lo lembrado de que os caminhos difíceis trilhados pela indústria de material de transporte atuante em território nacional decorrem do forte encolhimento da demanda argentina, responsável pela absorção de aproximadamente 70,0% das vendas externas do ramo.

Em posição antagônica à arrogante postura de PG, na semana de 12 a 16 de agosto, as bolsas despencaram, com o Ibovespa furando o piso dos 100 mil pontos, o dólar valorizou, derrubando novamente a barreira de R$ 4, e o Banco Central (BC) anunciou a venda à vista de reservas internacionais sem compromisso de recompra, o que não acontecia desde fevereiro de 2009 quando, o comandante da autoridade monetária, Henrique Meirelles, percebeu que o tsumani global não se traduziria internamente somente em uma marola, como desejava o presidente Lula.

Por uma ótica prospectiva, em um cenário de juros globais negativos ou um pouco acima da inflação que, por sinal, situa-se em patamares inferiores às metas fixadas pelos principais bancos centrais, o escape da crise exigirá condutas fiscais mais ativas nas economias avançadas, combinando contração de impostos e ampliação de dispêndios públicos.

No Brasil, o quadro de enorme ociosidade dos fatores produtivos e inflação cadente – favorecida pela expressiva safra de grãos 2018/2019, que deverá chegar a 243,1 milhões de toneladas, suplantando em 1,2% o recorde registrado em 2016/2017 – oportuniza novas rodadas de diminuição da taxa Selic, que deverão ser acompanhadas de outras iniciativas visando à diminuição do custo do crédito para os tomadores finais. Até porque, não há como contar com a colaboração do front fiscal, em função do agravamento das contas governamentais.

Logo, além de empenho no avanço das reformas, parece crucial a inclusão, na pauta de itens prioritários da agenda do Ipiranga, a aceleração de um programa de privatizações dotado de regras claras e estáveis e voltado à viabilização da restauração da competitividade da infraestrutura nacional.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço (foto), que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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