Saída da UTI e recuperação do consumo
Os indicadores relativos ao desempenho do consumo privado no Brasil vêm traduzindo discretos sinais de recuperação da atividade econômica, apesar da prevalência de um clima de instabilidade, marcado essencialmente pelas crescentes dificuldades enfrentadas pelo governo no esforço de transmissão de mensagens de confiança ao tecido social, especificamente a manifestação de compromissos e atitudes voltadas à retomada sustentada do crescimento.
Ainda assim, alguns sinais vitais conseguem demonstrar o inquestionável desejo de reação do organismo econômico e, ao menos, de saída da unidade de terapia intensiva (UTI), dedicada ao tratamento do quadro crítico de estagnação/recessão, e ocupação de outras acomodações visando à rápida melhora e recebimento da esperada autorização de supressão do internamento hospitalar.
De fato, sondagem realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), captou que, depois de despencar por cinco meses seguidos, a intenção de consumo das famílias apresentou ligeira elevação em agosto de 2019, perfazendo 91,4 pontos (o índice varia entre zero e duzentos pontos, sendo cem pontos a linha divisória entre pessimismo e otimismo), ainda bastante abaixo do pico de 98,5 pontos, medido para fevereiro de 2019.
No front dos negócios, de acordo com a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o volume de vendas do comércio varejista tem registrado variação positiva desde maio de 2019, acumulando acréscimo de 3,8% em sete meses. Sete dos onze ramos investigados exibiram crescimento, com destaque para veículos e motos, partes e peças (11,9%), artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (6,5%), outros artigos de uso pessoal e doméstico (4,9%) e material de construção (4,4%).
Tal comportamento reflete a conjugação virtuosa entre queda da inflação e dos juros, moderada melhora das condições de crédito e gradual, embora modesta, reativação do mercado laboral, explicada pela diminuição do desemprego, intimamente associada à ampliação da informalidade, evidenciando precarização das relações de trabalho.
Assim, os resultados alcançados no mês de julho de 2019 simplesmente reconduziram o volume de transações aos patamares obtidos em junho de 2015, época em que o sistema econômico encontrava-se em pleno ciclo depressivo, e sendo ainda 5,3% inferiores ao auge contabilizado em outubro de 2014, tempos do episódio de reeleição da presidente Dilma Rousseff.
Ao mesmo tempo, em linha de reativação menos vistosa, o volume de serviços, mensurado pela Pesquisa Mensal dos Serviços (PMS), também do IBGE, cresceu 0,8% e 1,8% em julho de 2019, em relação ao mês anterior e ao mesmo mês de 2018, respectivamente, recompondo parte da queda de -0,7% e -3,5%, amargada em junho, em análogas referências comparativas.
Com isso, a variável acumulou aumento de somente 0,8% no ano, ancorado em tecnologia da informação (13,6%), serviços prestados às famílias (4,5%) e outros serviços (4,4%). Ressalte-se que seis das doze atividades acompanhadas experimentaram redução, em especial aquelas mais sensíveis à evolução da produção, como transporte aéreo (-5,6%) e terrestre (-1,9%) e armazenagem e correios (-3,6%).
Por essa perspectiva, considerando que as divisões de comércio e serviços objeto dos dois levantamentos do IBGE respondem por aproximadamente 45,0% do produto interno bruto (PIB) da nação e que o consumo das famílias representa 64,3% daquela grandeza, segundo o Sistema de Contas Nacionais Trimestrais (SCNT), do IBGE, parece lícito admitir que a restauração da saúde econômica do país requer a adoção de providências que ultrapassem o imediatismo dos relevantes estímulos heterodoxos advindos da liberação de parcela dos recursos das contas ativas e inativas do FGTS e do PIS/PASEP.
Até porque, fração substancial dos haveres desbloqueados será destinada à quitação de dívidas. Inquérito da CNC identificou, em agosto de 2019, a oitava alta mensal seguida no nível de endividamento das famílias brasileiras, chegando a 64,8% do total, o maior desde junho de 2013. E mais, 24,3% delas informaram atraso de mais de dois meses no pagamento dos débitos.
Faz-se necessária o revigoramento estrutural da capacidade de consumo das famílias, que constitui o presente, e do investimento, variável antecedente da expansão de longo prazo, expressando o futuro, cuja viabilização requer a formulação e negociação política de um projeto de nação que englobe os elementos imprescindíveis à impulsão dos ganhos de eficiência e diminuição de custos dos agentes produtivos atuantes no território nacional.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, professor da FAE Business School e ex-presidente do Ipardes.








