Enfraquecimento do Minha Casa e reforma tributária preocupam setor da construção civil

Enfraquecimento do Minha Casa e reforma tributária preocupam setor da construção civil

Apesar de algumas sinalizações positivas – como o crescimento dos lançamentos e das vendas imobiliárias, do financiamento imobiliário e das obras de infraestrutura –, persiste grande preocupação no SindusCon-SP em relação ao desejado crescimento sustentado da indústria da construção.

O setor, que já está sendo afetado com a paralisação de novas contratações na faixa 1 do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), poderá ter sua tributação aumentada com a reforma tributária e seguir em recuperação muito lenta, se não houver um crescimento mais robusto da atividade econômica e do emprego. Por enquanto, ainda está mantida a previsão de crescimento de 0,5% do PIB da construção para este ano.

Estes foram os principais pontos analisados na Reunião de Conjuntura do SindusCon-SP, conduzida pelo vice-presidente de Economia do sindicato, Eduardo Zaidan, nesta terça-feira (15), com a participação do presidente da entidade, Odair Senra.

Na avaliação de Zaidan, além de faltar um crescimento mais robusto do PIB para a construção decolar, a polarização que marca a atuação do governo tem levado ao desmonte de programas que deram certo, como o financiamento à habitação de baixa renda do MCMV.

Bases da recuperação

Em sua apresentação, Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção da FGV/Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), relativizou a afirmação feita em 29 de agosto por Rebeca Palis, chefe do Departamento de Contas Nacionais do IBGE, de que a construção, impulsionada principalmente pela edificação de imóveis, e não por obras de infraestrutura, teria sido a responsável pela “grande virada” nos investimentos do país no segundo trimestre deste ano.

Segundo Ana Maria, a recuperação da construção traduziu-se pelos indicadores que medem a atividade total do setor, incluindo o segmento informal: nos 12 meses até agosto, a produção física de materiais de construção acumulava aumento de 1,2% e o volume de vendas desses insumos, 2,9%; e o número de pessoas ocupadas no segundo trimestre deste ano se elevara em 0,9%, na comparação com o mesmo período do ano passado, com um ganho real salarial de 2%. Além disso, o crédito imobiliário até agosto atingia R$ 68,64 bilhões, com incremento de 31% nas concessões de financiamentos nos oito primeiros meses do ano.

O saldo líquido do emprego formal na indústria construção, principal indicador de sua atividade, também registrou elevação, de 52.951 vagas (+1,31%), na comparação dos primeiros oito meses de 2018 com o mesmo período do ano passado. Mas esse crescimento foi puxado pelos serviços de engenharia (+7,46%), obras de instalação (+7,15%) e outros serviços (+2,72%), enquanto no período ainda apresentavam declínio incorporação de imóveis (-0,77%) e imobiliário (-0,91%).

Com ajuste sazonal, prosseguiu Ana Maria, os setores que mais tiveram crescimento no emprego foram o de projetos (+3,78%), infraestrutura (+1,74%) preparação de terrenos (+1,51%) e incorporação (+0,95%), enquanto imobiliário ainda mostrava declínio (-1.07%).

Ademais, a situação do mercado imobiliário não é homogênea. No acumulado do ano até julho, as vendas de imóveis mostravam declínio de 0,9%, puxado pela queda de 1,7% na comercialização das unidades do Minha Casa, Minha Vida, contra um aumento de 2,6% nas de alto e médio padrão. Os lançamentos aumentaram 15,4% no primeiro semestre na comparação com o mesmo período do ano passado, puxado pela região Sudeste (especialmente a cidade de São Paulo), mas com exceção da região Centro-Oeste, declinaram nas demais do país.

Com relação a São Paulo, Odair Senra observou que os lançamentos de imóveis de até 50 m² de área útil têm sido mais atrativos para os investidores, enquanto a comercialização de imóveis com metragens superiores anda mais devagar.

Ele observou que o financiamento imobiliário corrigido pelo IPCA tem o potencial de criar estímulo para a aquisição de imóveis. Já Ana Maria ponderou que os bancos privados ainda relutam em adotá-lo, pela insegurança de atrelar prazos longos de financiamento ao indicador de inflação.

Também a Sondagem da Construção da FGV captou um declínio da percepção dos empresários do setor, de 2,2 pontos, na situação dos negócios de edificações, na comparação entre setembro de 2019 e dezembro de 2018. Já a percepção em relação aos demais setores no período aumentou: preparação de terreno (+9,2 pontos), obras de artes especiais e outros tipos (+9,1 pontos), e obras viárias (+4,9 pontos).

Baixo rendimento

Em sua análise da conjuntura, o professor da FGV Robson Gonçalves comparou o desempenho da política econômica a um motor de alto consumo de energia com baixo rendimento: em um ano de governo, a única reforma de peso deverá ser a da Previdência e o governo se perde em grandes discussões e desgastes que não levam a um crescimento da economia.

Gonçalves voltou a alertar para o risco de a reforma tributária, da maneira como está sendo levada adiante no Congresso, eleve tanto os preços dos materiais de construção como os dos imóveis, dificultando o financiamento imobiliário.

Ele defendeu um tratamento tributário diferenciado para setores geradores de crescimento econômico e emprego, como a indústria da construção. Além de alíquotas diferenciadas na reforma tributária, esse tratamento deveria incluir estímulos, como a elevação do valor dos imóveis a serem incluídos no Regime Especial Tributário (RET). Isso possibilitaria mais atividade de edificações e, consequentemente, mais arrecadação.

Ana Maria ainda chamou a atenção de que um novo ciclo de crescimento da economia também passa pela recuperação do investimento no setor de infraestrutura, fundamental para a geração de renda e emprego, o que também acabaria beneficiando a indústria imobiliária.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *