Relatório aponta impactos da pandemia em aplicações no Tesouro Direto

Após as oscilações no mercado financeiro que ocorreram no mês de março, muitos investidores ficaram assustados. Aqueles com perfil mais conservador e que começaram a investir há pouco tempo sentiram o impacto das suspensões de negociações de títulos prefixados ou atrelados ao IPCA, no Tesouro Direto, como aponta o relatório mais recente da casa de análises Capital Research sobre os efeitos da crise gerada pelo Covid-19 na renda fixa.
De acordo com o analista Felipe Silveira, que produziu o material, o isolamento social é uma das principais causas do que o gestor americano Howard Marks definiu como um “coma induzido” pelos governos na economia, já que mesmo diante do lockdown foi preciso estabelecer e prover medidas de reforço de liquidez de bancos e empresas para garantir a subsistência da população desprovida de reservas. Além disso, outras medidas foram tomadas, exigindo um esforço fiscal dos governos.
Aproximadamente 5% do PIB mundial já foi destinado ao apoio de sistemas de saúde e no combate dos efeitos do coronavírus na economia. No caso do Brasil, as cifras são menores devido aos gastos estarem relacionados às antecipações de benefícios, por exemplo, como a parcela do 13º, a qual já fazia parte do plano de qualquer forma. Até o momento, tais medidas representam um impacto de menos de R$ 200 bilhões nas contas do governo em 2020, o que representa 3% do PIB brasileiro.
Como os gastos ainda podem aumentar, dependendo da prorrogação da quarentena, Silveira indica três pontos de atenção para os investidores observarem:
1. O impacto do chamado coronavoucher, de aproximadamente R$60 bilhões
2. A ampliação do seguro desemprego, com mais de R$50 bilhões
3. Queda na arrecadação por conta da retração na atividade
“Em um cenário em que o período de quarentena se estenda muito, os efeitos nas empresas e no mercado de trabalho não seriam positivos e o tempo de recuperação seria maior”, explica o analista.
Silveira ainda ressalta a estimativa do secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, que é de um déficit entre R$ 450 bilhões e R$ 500 bilhões em 2020, e também a mediana das estimativas de mercado para a dívida bruta do governo para o fim deste ano, reveladas no relatório Prisma Fiscal do início de março, que é 76,45% do PIB.
O cenário descrito acima e as incertezas do setor de saúde levaram o mercado a precificar uma elevação nos juros no futuro, a qual “seria necessária para evitar que esse descompasso tenha um impacto relevante na inflação e, ainda há o fato da desconfiança sobre o governo aumentar, exigindo que ele pague prêmios maiores a quem topar emprestá-lo dinheiro. E é justamente isso que explica a desvalorização dos títulos”, indica Silveira. Mas o analista reforça que a possibilidade de ter um desarranjo de contas públicas ao ponto de ter um default – “calote” – está afastada.
Por fim, também é preciso levar em consideração o dólar: “o Brasil sempre foi um bom destino para o capital estrangeiro por conta das taxas de juros de dois dígitos. O estrangeiro se beneficiava de captar a taxas bem mais baixas lá fora e investir em títulos de baixo risco por aqui. Mesmo o risco cambial valia a pena, pelo diferencial de juros gigantesco. Porém, essa realidade mudou e agora temos taxas de juros mais civilizadas, o que afastou aqueles que faziam essa operação, o chamado carry trade”, comenta Silveira, ponderando que a desvalorização cambial é um dos fatores de pressão inflacionária, o que torna o Tesouro Prefixado mais arriscado que o Tesouro IPCA+.
A recomendação da Capital Research aos investidores, neste momento, é manter a maior parcela da carteira de renda fixa em Tesouro Selic, mesmo que não se saiba de antemão quais são os retornos nominal – rendimento da aplicação descontando apenas os impostos – e real – considera a inflação do período e indica perdas e ganhos de poder -, pois é o único que não tem risco de perda para quem quiser vender antes do vencimento.








