Ganhar dinheiro ou construir patrimônio? O ponto cego que ameaça o futuro dos investidores

Ganhar mais, investir mais e ainda assim não acumular riqueza: essa é a realidade de muitos brasileiros que confundem renda com patrimônio
Nunca foi tão fácil falar sobre dinheiro. Redes sociais estão repletas de conteúdos sobre investimentos, empreendedorismo, renda extra e independência financeira. Aplicativos permitem investir com poucos cliques e milhões de brasileiros passaram a acompanhar o mercado financeiro de forma mais próxima. Ainda assim, um desafio persiste: ganhar dinheiro não significa necessariamente construir patrimônio.
Os números mostram essa transformação. A mais recente edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) em parceria com o Datafolha, aponta que o país encerrou 2025 com 60,6 milhões de investidores, o equivalente a 36% da população. Em 2021, esse percentual era de 31%. O conhecimento espontâneo sobre produtos financeiros também avançou, saltando de 28% para 43% no mesmo período.
Apesar da evolução, especialistas observam que o aumento do acesso ao mercado financeiro nem sempre é acompanhado por uma visão patrimonial de longo prazo. Segundo Sabrina Herrschaft, especialista em planejamento financeiro e previdência privada, a geração atual aprendeu rapidamente a gerar renda, mas ainda enfrenta dificuldades quando o assunto é transformar essa renda em patrimônio duradouro.
“Existe uma diferença importante entre ganhar dinheiro e construir patrimônio. Hoje vemos pessoas que investem, empreendem e diversificam suas fontes de receita, mas muitas ainda não possuem um plano estruturado para proteger esse patrimônio e garantir segurança financeira no futuro”, afirma a especialista.
A mudança tem raízes econômicas e culturais. Enquanto gerações anteriores associavam patrimônio à aquisição de bens físicos, especialmente imóveis, os mais jovens convivem com uma realidade marcada por mobilidade profissional, economia digital e novas formas de investimento. O resultado é uma relação mais dinâmica com o dinheiro, mas nem sempre mais estratégica.
O próprio levantamento da ANBIMA revela que o avanço da cultura financeira brasileira ainda encontra limitações. Embora mais pessoas estejam investindo, 64% da população permanece fora do mercado financeiro e a capacidade de formar reservas continua diretamente ligada à renda disponível.
Outro dado chama atenção: entre os brasileiros que ainda não se aposentaram, apenas uma parcela reduzida afirma guardar dinheiro com foco específico na aposentadoria. Ao mesmo tempo, quase metade acredita que sua principal fonte de renda no futuro não virá do INSS, evidenciando uma preocupação crescente com a sustentabilidade financeira de longo prazo.
Para Sabrina, profissional certificada CFP® (Certified Financial Planner), a discussão sobre patrimônio se tornou ainda mais relevante em um cenário de aumento da longevidade.
“As pessoas estão vivendo mais, permanecendo mais tempo no mercado de trabalho e enfrentando um custo de vida cada vez mais elevado. Construir patrimônio deixou de ser apenas uma questão de acumulação de riqueza e passou a ser uma estratégia de proteção financeira para décadas futuras”, explica Sabrina.
Nesse contexto, instrumentos como previdência privada, planejamento sucessório e diversificação de investimentos ganham relevância. Mais do que buscar rentabilidade, especialistas defendem que o desafio está em criar uma estrutura capaz de sustentar objetivos de longo prazo e proporcionar estabilidade diante das mudanças econômicas.
A transformação do comportamento financeiro brasileiro é evidente. Nunca tantas pessoas falaram sobre investimentos, abriram contas em corretoras ou buscaram alternativas para aumentar a renda. O próximo passo, porém, pode ser mais complexo do que aprender a investir.
“Ganhar dinheiro é uma habilidade. Construir patrimônio é um processo. E esse processo exige tempo, planejamento e disciplina. O verdadeiro desafio da nova geração talvez não seja aprender a investir, mas aprender a pensar no futuro com a mesma intensidade com que pensa nas oportunidades do presente”, conclui Sabrina.








