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IGP-M e reajuste dos aluguéis: premência de separação amigável

A enorme variação registrada pelo índice utilizado para a realização de reajustes dos valores dos aluguéis, observada em 2020, bastante superior e absolutamente dissociada da esmagadora maioria dos parâmetros gerais empregados para atualização dos demais preços, contratos e ativos reais e financeiros, serviu para o restabelecimento da discussão acerca da necessidade de identificação e/ou construção de indicadores que reflitam, de maneira mais precisa, a dinâmica do mercado de locação de imóveis residenciais e comerciais no país.

De fato, a referência adotada, expressa no comportamento do índice geral de preços do mercado (IGP-M), aferido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), apontou subida de 23,14% no ano passado. Um exame específico dos três grandes componentes do indexador permite constatar elevação de 31,64% no índice de preços ao produtor amplo (IPA), 8,69% no índice de custo nacional da construção (INCC) e 4,82% no índice de preços ao consumidor (IPC),

O IGP-M constitui uma espécie de variante do índice Geral de Preços – Disponibilidade (IGP-DI), também da FGV, existente desde 1944, tendo sido empregado durante mais de quarenta anos como indicador da inflação brasileira. O IGP-DI é obtido a partir de uma média entre IPA, IPC e INCC, com ponderações 06 (seis), 03 (três) e 01 (um) respectivamente, sendo que os levantamentos de campo são realizados no mês calendário (01 a 30 ou 31).

Os critérios metodológicos e operacionais pormenorizados a respeito da montagem da amostra de produtos e unidades pesquisadas, coleta de preços, sistematização e consistência dos dados primários, determinação da estrutura de pesos e cálculo do índice geral e dos subíndices podem ser encontrados diretamente na FGV.

O IGP-M apresenta praticamente as mesmas características e limitações do IGP-DI. A diferença principal corresponde à periodicidade de coleta dos preços, cobrindo o intervalo entre os dias 21 do mês anterior e 20 do mês corrente. Seu uso engloba especialmente atualizações de tarifas de telefonia e de energia elétrica e dos contratos de concessão de alguns serviços públicos e aluguéis.

Foi criado em 1989, na época da hiperinflação indexada, dada a necessidade dos agentes econômicos, notadamente aqueles atuantes no mercado financeiro, representados pela então Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro (ANDIMA), disporem de um índice de atualização de preços logo no começo do mês.

A rigor, o Brasil é o único país do mundo que disponibiliza um índice de preços híbrido. As demais nações efetuam a apuração e o fornecimento dos resultados em separado ao produtor (atacado) e consumidor (varejo).

Dentre as várias restrições inerentes à coleta de preços, salta aos olhos o fato de o IPA – componente de maior envergadura do IGP, que traduz a curva de preços das cadeias de insumos e produtos agropecuários e industriais – refletir essencialmente os valores de tabela e não os de transação, o que anula a possibilidade de captura de descontos ou ágios registrados nas operações interindustriais e comerciais e, por extensão, propicia um subdimensionamento ou superestimativa da inflação efetiva.

O IPA é afetado pelos conhecidos choques de oferta, expressos em modificações bruscas no mercado de commodities globais e na taxa de câmbio. Em sistemas econômicos menos fechados e/ou em estágios recessivos, normalmente acontece o represamento desse evento adverso ao longo das inúmeras e complexas etapas de transações, alcançando, de modo menos acentuado o consumidor final.

O anômalo empuxe do IPA e dos IGPs em 2020 advém da conjugação entre depreciação cambial e multiplicação das cotações dos bens agropecuários em escala global, puxada pela firme recuperação da demanda chinesa, extremamente benéfica, por sinal, ao agronegócio nacional. A desvalorização do real superou 35% e os preços médios dos principais produtos primários, convertidos em reais, acusaram substanciais majorações, com ênfase para soja (126,3%), boi gordo (125,7%) milho (103,5%), trigo (69,3%), açúcar (62,4%) e algodão (43,6%).

Em um cotejo histórico, é fácil perceber que, por motivos outros, o acontecimento desfavorável de 2020 representa reprise dos episódios de 1999 e 2002. Em 1999, ano marcado pelo super-ajuste do real, enquanto as variações anuais médias no atacado chegaram a 29%, as de varejo foram de 8%. Com semelhante desenho, em 2002, exercício em que a matriz econômica e financeira sentiu o enorme salto do dólar derivado do denominado risco de descontinuidade política, os índices de atacado e varejo sofreram incremento médio de 35% e 12%, respetivamente.

Por tudo isso, afigura-se urgente a definição de instrumentos alternativos de precificação do mercado de aluguéis, aderentes a trajetória de evolução de custos dos imóveis e dos rendimentos e, notadamente, poder aquisitivo dos locatários. Um esforço de experimentação da mistura entre o INCC, da FGV, e o IPCA ou INPC, do IBGE, mensurados de forma regionalizada pelo IBGE, seria um excelente começo de uma separação amigável.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, ex-presidente do IPARDES.

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Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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