Protagonista de espetáculos de ineficiência permanente: Correios

Gilmar Mendes Lourenço.
Este artigo esboça um desvio do cenário de verdadeira busca de vandalização ou demolição institucional que domina a nação, notadamente com o flagrante enfraquecimento da funcionalidade do Supremo Tribunal Federal (STF), marcado pela preponderância de aspirações e articulações políticas individuais em relação aos propósitos e atitudes de nobreza, que deveriam permear o colegiado, voltados à interpretação e aplicação da Carta Magna à luz das normas jurídicas.
O texto atende principalmente, mesmo que de um jeito preliminar, os anseios de parcela respeitável de minha qualificada massa de leitores e seguidores que insistem em enxergar a ausência de preocupação, por parte deste humilde colunista semanal, com a expansão fiscal desenfreada.
De fato, o endividamento bruto global do governo, que abrange administração federal, INSS e esferas estaduais e municipais, chegou a 82,5% do produto interno bruto (PIB), em julho de 2026, o maior patamar desde abril de 2021, quando atingiu 82,6% do PIB, de acordo com cálculos do Banco Central (BC).
Tais números resultam da elevação do déficit público nominal consolidado – que inclui as receitas e despesas primárias, acrescidas dos encargos financeiros incidentes sobre os passivos (velhos e novos) – que ascendeu de 8,34% do PIB, no ano de 2025, para 9,53% do PIB, entre janeiro e julho de 2026.
O déficit primário subiu de 0,43% do PIB, em 2025, para 1% do PIB, no acumulado de 2026, e os juros apropriados saltaram de 7,91% do PIB, para 8,52% do PIB, em idêntica referência de cotejo, o que evidencia a extraordinária influência do componente financeiro na escalada da dívida pública.
Enquanto as finanças do governo federal acusaram acréscimo de tamanho do superávit primário, de 2,04% do PIB para 2,25% do PIB, o déficit do INSS pulou de 2,49% do PIB para 3,29% do PIB, refletindo a exaustão das fontes de financiamento do custeio da previdência.
O retrato aparentemente pré-falimentar do sistema de aposentadorias e pensões deriva da precarização do mercado de ocupações, com informalidade superior a 40% da população empregada, e da crise estrutural de cobertura financeira do arranjo, explicada pela combinação entre a exaustão do bônus demográfico, com o declínio das taxas de fecundidade e natalidade, e o envelhecimento da população, ambos os fenômenos atestados pelas observações censitárias do IBGE.
Essa anomalia é expressa no alargamento da expectativa de vida e, por extensão, do envelhecimento da sociedade, que amplia o contingente e a participação relativa de idosos na matriz populacional, e encurta a presença das pessoas economicamente ativas.
De seu turno, precisamente as companhias estatais controladas exclusivamente pela União (exceto instituições financeiras, Petrobras e Eletrobras) indicaram avanço do saldo negativo de 0,04% do PIB para 0,11% do PIB, catapultadas especificamente pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (Correios).
Em se efetuando uma breve retrospectiva da trajetória das demonstrações contábeis da estatal, englobando o desempenho negativo e as iniciativas de correção, apreende-se a preparação, em 2020, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), de uma estratégia de inserção no elenco das privatizações.
O arcabouço, bastante conservador por sinal, que previa a preservação do caráter público dos serviços de postagem considerados essenciais, por inúmeras razões, com destaque para a priorização do enfrentamento dos impactos negativos da pandemia de Covid-19 e dos desmandos do incumbente de plantão, não foi levado adiante pela gestão econômica sob a batuta de Paulo Guedes.
Em sentido de marcha à ré, em abril de 2023, a administração de Lula 3 suprimiu os Correios da lista de empresas passíveis de transferência à iniciativa privada, com a intransigente, vaga e/ou nada convincente justificativa de necessidade de cumprimento de funções eminentemente sociais.
Sintomaticamente, a progressão de desequilíbrios financeiros assumiu contornos alarmantes, pulando de R$ 597 milhões, em 2023, para R$ 2,6 bilhões, em 2024, R$ 8,5 bilhões, em 2025, e R$ 5,5 bilhões, no interregno entre janeiro e junho de 2026, suplantando em 30,3% as perdas experimentadas nos seis primeiros meses de 2025, que foram de R$ 4,26 bilhões, malgrado a queda de 5,5% e 24%, apurada no segundo trimestre, em relação a igual período de 2025 e a janeiro-março de 2026, respectivamente.
Aliás, a última performance trimestral azul da estatal aconteceu entre janeiro e março 2022, quando assinalou lucro irrisório de R$ 216 milhões e, segundo projeções moderadas dos especialistas de mercado, deve bater novo prejuízo recorde até dezembro de 2026.
O pior é que, inclinado ao atendimento de pleitos corporativistas e interesses arraigados a preceitos ideológicos pouco contemporâneos, o executivo federal definiu a incorporação, à proposta de orçamento para 2027, de uma injeção adicional de R$ 6 bilhões no caixa da organização, até o final daquele ano, em razão da imposição contratual para fechamento da operação de socorro financeiro de R$ 12 bilhões, celebrada em 2025.
Especificamente, essas arrumações sacramentam o suprimento dos haveres por um consórcio constituído pelos bancos do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú e Santander, com aval do Tesouro Nacional, de modo a evitar a penalização de vencimento antecipado dos valores emprestados.
Em outras palavras, ao afiançar e/ou assegurar os montantes captados, via financiamentos ou transações de capitalização, pelos Correios, a União desloca ao erário a crônica deficiência da empresa e contamina, de maneira antecipada, a contabilidade primária não financeira para 2027, sacrificando prováveis destinações a projetos prioritários em benefício de ente público em autêntica deterioração.
Também estão previstas novas entradas de capital de empréstimo, ainda em 2026, desdobradas em R$ 7 bilhões, provenientes de organizações financeiras atuantes no território nacional, e R$ 2,9 bilhões, fruto de adiantadas tratativas com o Banco dos Brics.
A contrapartida do conjunto de alocações de salvamento deveria abarcar o preparo e implementação de um programa de reestruturação, na direção da interrupção das condições deficitárias e gradativo, porém rápido, restabelecimento da geração de fluxos de caixa da estatal, algo trivial no funcionamento de qualquer agente econômico que mira ao menos o alcance do ponto de equilíbrio.
No fundo, as estatísticas aqui apresentadas expõem retumbante fracasso da obra de reengenharia gerencial, operacional e financeira, e, o que é mais grave, sinais consistentes de fadiga irreversível dos Correios.
A título de ilustração, os dispêndios com a inchada rubrica de pessoal recuaram apenas 3,8%, no primeiro semestre de 2026, por conta, fundamentalmente, de pressões sindicais, evidenciadas pela não adesão plena ao plano de demissões voluntárias (pouco mais de seis mil e quinhentos funcionários, contra previsão de até dez mil, em 2026, e até quinze mil, em 2027, para um quadro superior a oitenta mil) e a morosidade das providências administrativas que estipulavam o fechamento de unidades comprovadamente deficitárias.
A miopia ideológica, ladeada pela troca da gestão profissional pela podridão do aparelhamento o preenchimento partidário dos cargos e funções de comando da empresa, sepultou as chances de adaptação às expressivas mudanças tecnológicas e comportamentais, que culminaram na obsolescência da atividade de entrega física de correspondências.
Esse comportamento alheio aos princípios das organizações modernas também interferiu no nocaute dos Correios no certame de competição acirrada, com o ingresso de grandes empresas privadas de logística, especializadas no fornecimento dos serviços mais rentáveis, maximizado com o aparecimento e proliferação de plataformas on line de recebimento e envio de encomendas, que respondem por 56,1% das receitas da estatal, seguida por mensagens (29,3%).
Em condições de perpetuação tanto da sangria desmedida de somas públicas quanto da vontade política de intocabilidade de exigências legais, em especial a presença atomizada em todos os municípios da nação, parece razoável supor a não derrubada das barreiras erguidas contra o saneamento da estatal e a celebração de meras parcerias, como sublinhou o candidato à reeleição, em entrevista concedida à TV Globo.
Em consequência, não é difícil prospectar a compressão do valor de mercado dos ativos da companhia, o que, por certo, representará o elemento determinante do afastamento ou aproximação de investidores privados potenciais, de um negócio em estado praticamente terminal, valendo, para a segunda categoria, o “preço de pechincha”.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








