Em um mercado de US$ 4 trilhões, a geopolítica decide para onde vai o dinheiro do M&A

Em um mercado de US$ 4 trilhões, a geopolítica decide para onde vai o dinheiro do M&A

Tarifas, sanções, conflitos armados e a disputa por tecnologia entraram na conta do valuation

Por muito tempo, uma operação de fusão ou aquisição foi decidida por um conjunto relativamente estável de variáveis: receita, margem, sinergias e potencial de crescimento. Em 2026, um fator que antes vivia no capítulo de riscos do memorando migrou para o centro da conta: a geopolítica.

A escalada das tensões entre Estados Unidos e China, os reflexos da guerra no Oriente Médio, o movimento de países para fortalecer suas indústrias nacionais e a disputa por tecnologia, energia e infraestrutura estratégica necessária ao avanço da inteligência artificial transformaram a percepção de risco dos investidores e mudaram a lógica da alocação global de capital.

“A geopolítica não reduziu o apetite por fusões e aquisições. Ela mudou o destino do capital: alguns setores perderam atratividade e outros passaram a concentrar a atenção dos compradores”, avalia Lucas Della-Sávia, sócio-diretor da FC Partners.Os números confirmam que o apetite permanece elevado: segundo a PwC, o mercado global de M&A deve movimentar cerca de US$ 4 trilhões em 2026.

O caso mais didático dessa nova dinâmica chegou ao mercado recentemente. Em agosto de 2022, uma captação privada avaliou a varejista chinesa Shein em US$ 98,2 bilhões. Em 23 de agosto de 2026, ao lançar sua oferta pública inicial em Hong Kong, a companhia passou a trabalhar com uma avaliação de até cerca de US$ 27 bilhões. A precificação final está prevista para 31 de agosto e a estreia em bolsa, para setembro. É uma queda da ordem de 70% em relação ao pico.

Mudanças

A retração não veio de uma empresa que parou de vender. A receita da Shein subiu de US$ 32,1 bilhões em 2023 para US$ 41,9 bilhões em 2025, segundo os documentos da listagem. O que mudou foi o ambiente ao redor dela. Os Estados Unidos encerraram a isenção alfandegária para pequenas encomendas em duas etapas, para China e Hong Kong em maio de 2025 e para todos os países em agosto de 2025, com taxa fixa de US$ 80 a US$ 200 por pacote como alternativa à tarifa ad valorem. Na União Europeia, o Conselho aprovou em fevereiro de 2026 o fim da isenção para encomendas abaixo de € 150, com taxa fixa transitória a partir de julho de 2026.

O efeito aparece nos próprios números da companhia: no primeiro trimestre de 2026, a receita cresceu apenas 1,1%, a receita nos Estados Unidos caiu 14,3%, o lucro operacional recuou 26% e a margem operacional passou de 3,9% para 2,9%.

“Nenhuma dessas variáveis é uma falha de execução da empresa. São decisões tomadas em Washington e em Bruxelas que se transformaram em custo, em ritmo de crescimento menor e, no fim da linha, em múltiplo menor. É exatamente isso que queremos dizer quando afirmamos que a geopolítica passou a fazer parte da precificação dos ativos”, explica Della-Sávia.

O contraste aparece na indústria de defesa. De acordo com a PwC, o valor global das operações de M&A nos setores aeroespacial e de defesa passou para mais de US$ 30 bilhões em 2025, e o ritmo observado no primeiro semestre indica que 2026 deve encerrar em um patamar próximo de US$ 32 bilhões. Além do crescimento financeiro, a mudança está no perfil dos negócios: compradores buscam empresas capazes de ampliar capacidade produtiva, desenvolver tecnologias críticas e fortalecer cadeias de suprimentos em um cenário geopolítico mais instável.

Inovação

A mesma lógica aparece nos investimentos em inovação. Segundo levantamento da Dealroom, empresas globais de defesa participaram de um volume recorde de US$ 4,1 bilhões em rodadas de investimento em startups do setor em 2026. A maior parte dos recursos foi destinada a empresas que desenvolvem inteligência artificial, drones, robótica, sistemas autônomos e outras tecnologias de uso dual, reforçando como os conflitos internacionais vêm redefinindo as prioridades de investimento.

“Se antes uma due diligence estava concentrada em receita, margem, participação de mercado e sinergias, hoje ela também precisa responder se a operação depende de fornecedores externos, se o preço de seus insumos é volátil, se está exposta a tarifas, se pode ser afetada por sanções internacionais e qual seria o impacto de uma interrupção na cadeia global de suprimentos”, conta.

Desse modo, empresas passaram a negociar múltiplos bastante diferentes. Ou seja, um negócio altamente dependente de fornecedores asiáticos ou exposto às disputas comerciais entre grandes potências pode valer menos do que um concorrente com operações mais diversificadas, mesmo apresentando resultados financeiros semelhantes. “A geopolítica passou a fazer parte da precificação dos ativos, e a reorganização das cadeias globais de suprimentos também vem alterando o mapa das aquisições”, avalia.

A compra da Wiz pelo Google é um M&A clássico, envolvendo comprador e vendedor independentes, e mostra a geopolítica como um dos indicadores que influenciaram o valor dos ativos digitais. Anunciada em 2025 por US$ 32 bilhões, a maior aquisição da história da companhia refletiu não apenas a estratégia de expansão da computação em nuvem, mas também a necessidade de reforçar a cibersegurança diante de um ambiente internacional mais instável.

Outro exemplo dessa nova lógica veio de duas empresas controladas por Elon Musk e foi uma reorganização dentro do mesmo grupo econômico. Em fevereiro de 2026, a SpaceX anunciou a aquisição da xAI, em uma operação que avaliou a startup de inteligência artificial em US$ 250 bilhões e criou uma empresa combinada de cerca de US$ 1,25 trilhão. A operação uniu inteligência artificial, infraestrutura espacial e conectividade, três áreas que ganharam importância estratégica em meio à disputa tecnológica entre Estados Unidos e China e ao aumento dos investimentos em segurança nacional.

A nova geografia do capital

Diante desse ambiente de maior incerteza, a reorganização das cadeias produtivas tornou-se uma das principais estratégias adotadas pelo mercado para reduzir a dependência de um único país e mitigar os riscos provocados por guerras, sanções econômicas, tarifas comerciais e gargalos logísticos.

A atualização de 2026 do estudo do McKinsey Global Institute sobre a geometria do comércio global, publicada em março, mostra essa redistribuição em curso: o Sudeste Asiático aprofundou seu papel na manufatura global, com alta de cerca de 14% nas exportações manufaturadas da ASEAN em 2025, e a Índia ganhou terreno em setores selecionados. O Brasil aparece como uma das poucas economias a ampliar exportações para a China em escala, sobretudo substituindo commodities que os chineses antes compravam dos Estados Unidos.

O próprio comércio de infraestrutura para inteligência artificial,

como os data centers, tornou-se um dos principais motores da expansão do comércio internacional em 2025.

“Essa reorganização faz com que empresas posicionadas em mercados considerados mais resilientes passem a ser alvos naturais de investidores estratégicos, e, embora o Brasil esteja distante dos principais conflitos militares, seus efeitos são sentidos diretamente nas decisões de investimento”, explica o executivo da FC Partners.

A indústria farmacêutica é um dos exemplos. O país continua altamente dependente da importação de insumos farmacêuticos ativos (IFAs), principalmente provenientes da Ásia. Sempre que há aumento das tensões internacionais, interrupções logísticas ou mudanças tarifárias, cresce o custo de produção, aumenta a volatilidade dos estoques e surgem incentivos para investimentos em produção nacional.

“Esse contexto vem estimulando investimentos em produção nacional, integração vertical e consolidação do setor, abrindo espaço para fusões e aquisições envolvendo fabricantes de insumos, laboratórios e empresas químicas”, diz Lucas Della-Sávia. Situação semelhante ocorre em setores ligados à infraestrutura energética, equipamentos industriais, mineração, fertilizantes, logística, defesa, tecnologia e segurança digital, áreas que passaram a ser vistas como estratégicas para garantir maior autonomia econômica.

No Brasil, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), responsável por analisar fusões e aquisições que podem afetar a concorrência, concede atenção sobre operações envolvendo inteligência artificial, plataformas digitais e ativos tecnológicos. O entendimento é que, nesses casos, o valor da transação muitas vezes está menos na receita da empresa e mais no acesso à tecnologia, à propriedade intelectual e a equipes altamente especializadas.

Na avaliação de Della-Sávia, toda essa transformação alterou a própria lógica da precificação das empresas.

“O valuation deixou de refletir apenas o desempenho financeiro. Ele passou a medir a capacidade de uma empresa continuar operando quando o mundo muda. Mais do que receita, margem e potencial de crescimento, hoje é preciso entender de onde vêm os insumos, onde a empresa produz, quais mercados concentram sua receita, qual é o grau de dependência internacional e como uma nova tarifa, sanção ou conflito afetaria a operação. Um ativo intangível ganhou peso na formação do preço: a capacidade de operar com previsibilidade”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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