Ausência de governo, desigualdade social e pandemia no Brasil

A ocorrência de episódios catastróficos em escala global, encaixados pelos cientistas sociais, em especial os Economistas, como choques de oferta ou demanda, costuma resultar em aprofundamento da desigualdade social e da miséria, ao atingir, de maneira mais aguda, as nações mais pobres, particularmente aquelas integrantes do território africano e da América Latina e Caribe.

O exemplo mais recente dessa realidade engloba o surgimento da pandemia do Novo Coronavírus, no continente asiático, em fins de 2019, o transbordamento para o restante do mundo, em 2020, e a persistente continuidade, no corrente ano.

A despeito da situação pandêmica considerada controlada, nos espaços geográficos avançados, explicada pela conjugação entre aplicação correta de confinamentos da população e avanço da vacinação, a patologia segue em marcha ascendente em parcela expressiva dos países de renda média e baixa, o que contribui para o alargamento da heterogeneidade social, das condições de miserabilidade e da fome.

No entanto, inferências preliminares realizadas por entidades internacionais evidenciam que o efeito de multiplicação das disparidades atingiu mesmo aqueles países que, desde o início, promoveram o enfrentamento do abalo, de intensidade e duração pouco previsíveis, por meio da adoção de verdadeiro despejo de vultosas somas de recursos fiscais e financeiros, destinado a abrandar os desdobramentos nefastos ocasionados pelo surto e por medidas restritivas utilizadas para a contenção de sua propagação.

Ao alcançar com maior furor o segmento de serviços, o mais representativo na formação do produto agregado e ocupação de mão de obra, o desastre da Covid-19, assumiu a condição de autêntico efeito dominó nos níveis de atividade, ao derrubar o emprego e o fluxo de renda das famílias e catapultar as relações informais de trabalho.

Mais precisamente, o enfrentamento da crise engendrada pelo inesperado e enorme desastre sanitário foi incapaz de impedir o rápido agravamento das condições de concentração de renda no mundo, marcado pelo perverso aumento entre a distância que separa o topo e o piso da pirâmide social.

Decerto que a combinação entre fabricação de vários imunizantes em economias de escala, desenvolvidos em tempo recorde, realização de compras públicas voltadas à viabilização da massificação da vacinação da população e flexibilização e/ou retirada das limitações à mobilidade das pessoas, deve abrir espaço à restauração sustentada do ambiente virtuoso à produção e negócios.

Até porque, simulações feitas por entidades multilaterais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), em outros casos de entrada e saída de depressões causadas por eventos dramaticamente desfavoráveis, denotam que a expansão econômica, englobando geração de renda e emprego, responde, em média, por 70% do encolhimento da desigualdade na apropriação do produto social.

No Brasil, a reprodução das repercussões negativas do ingresso e propagação da doença revelou-se mais acentuada e a superação dos constrangimentos vem ocorrendo em ritmo vagaroso, a ponto de, ao contrário do preconizado pelas autoridades governamentais, servir de referência planetária do jeito errado de chegar à solução de um problema complexo.

Por aqui predominou no comando e em peças importantes da gestão pública, com ou sem disfarces, uma postura de desprezo à gravidade, dimensão e duração da patologia e abdicação da tarefa de coordenação nacional das inúmeras atividades relacionadas ao bloqueio e reversão da subida das infecções, hospitalizações e mortes derivadas dos vírus.

Na mesma linha antagônica à prevalecente nas demais nações, o staff do palácio do planalto, liderado pelo chefe de Estado, boicotou o pacote de ações sanitárias e de distanciamento social, decretadas ou estimuladas por governadores e prefeitos, e os esforços empreendidos por entidades científicas na participação de projetos dirigidos à identificação de vacinas.

Igualmente reprovável foi a dedicação dos membros do poder executivo na priorização da aquisição, fabricação e incentivo à prescrição de medicamentos ineficazes contra o patógeno e no retardamento da celebração de compromissos com a compra de imunizantes.

O colapso do sistema de saúde de Manaus, maximizado com a morte de inúmeros pacientes por falta de oxigênio hospitalar, por conta da inação de gestores estaduais e federais, representa a ilustração patética da preferência dos governos pela montagem de fortalezas para a defesa do vírus em detrimento da busca intransigente de seu extermínio.

Não por acidente, um ano e quatro meses depois do 1º registro de contágio (a 1ª morte aconteceu em 12.03.2020) dentro das fronteiras nacionais, dominado por variantes, o país ocupa a incômoda liderança mundial na média móvel de mortes pela enfermidade, superando a Índia (2.060 versus 1.975), e representando ¼ do total de falecimentos do planeta, segundo o site Our World in Data.

A escolha de iniciativas anticíclicas emergenciais obedeceu a uma espécie de reconhecimento envergonhado acerca do reduzido alcance da prática liberal no tratamento de distúrbios exógenos de grande proporção e repleto de condutas improvisadas.

O pacote de apoio financeiro direcionado a famílias e empresas mais afetadas pelas repercussões da endemia, ao socorro a estados e municípios e à feitura de maiores dispêndios com saúde, reflete essencialmente uma obra concebida e aprovada pelo parlamento.

Coube às instâncias governamentais o cumprimento das decisões do legislativo, com a expressão de constrangimento, sentimento de arrependimento antecipado e fragrante desinteresse na construção de um arranjo permanente de inclusão social, focado notadamente no pós-pandemia, apesar de o manejo do bloco de benesses ter ensejado a melhoria do apoio popular ao presidente da república.

Essas circunstâncias de indiscutível ausência, descaso e reduzida competência do aparelho de estado podem ser resumidas nas estatísticas de desnível no mercado de ocupações, preparadas pelo Centro de Políticas Sociais, da Fundação Getúlio Vargas (FGV Social), a partir dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Índice de Gini – indicador de desigualdade de renda, que varia entre zero e um, denotando ampliação da concentração de renda à medida que se aproxima da unidade – da renda média domiciliar oriunda do trabalho subiu de 0,642, no 1º trimestre de 2020, para 0,674, no 4º trimestre de 2020, e 0,674, entre janeiro e março de 2021, o maior nível da série histórica, iniciada no 4º trimestre de 2012.

A renda média real por pessoa caiu -11,3% entre 1º trimestre de 2020, ainda pouco afetado pelo Sars-CoV-2, e idêntico intervalo de 2021, ou de R$ 1.122 para R$ 995, ou 9,5% inferior ao valor do salário mínimo, com declínio de -20,8%, para os mais pobres. É, no mínimo, trágico.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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