Reação do PIB e a terceira onda de Covid-19 no Brasil
A variação de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, no 1º trimestre de 2021, em relação ao 4º trimestre de 2020, mensurada pelo IBGE, deve ser interpretada com bastante cuidado, sob pena de engendrar a adoção de posturas exageradamente otimistas quanto ao futuro de curto prazo e estimular a propagação de decisões equivocadas.
É fácil perceber a proliferação de diagnósticos e prognósticos triunfalistas emanados de entes do mercado financeiro, com forte antecipação de desejos eleitorais, apoiada em hipóteses de perspectiva de rápida solução dos imbróglios sanitários, econômicos e sociais que afligem a nação e, o que é mais preocupante, de efeito retardado do acerto da política econômica do Ministro Paulo Guedes que, a rigor, não existe.
A expansão apurada mostrou-se substancialmente menor que a apurada nos dois trimestres imediatamente antecedentes e foi puxada pela agropecuária (5,2%) e indústria (3%), sendo que o setor de serviços decresceu -0.8%. As compras do governo e o consumo das famílias declinaram -4,9% e -1,7%, respectivamente, e as vendas externas e importações aumentaram 0,8% e 7,7%, respectivamente, esta última movida principalmente por produtos químicos e farmoquímicos, vinculada à encorpada demanda provocada pelo desastre sanitário.
De fato, o comportamento da principal grandeza macroeconômica do país traduz a operação de dois fenômenos distintos: a natureza virtuosa do bônus externo e a baixa da demanda doméstica ante o desaparecimento da intervenção estatal anticíclica.
Mais especificamente, a excelente performance das exportações nacionais representa a continuidade do movimento desencadeado no 2º trimestre de 2020, impulsionado pela firme recuperação da economia chinesa – motivada pela conjugação entre rápido controle da pandemia do Novo Coronavírus e despejo de vultosos estímulos às atividades produtivas -, e subsequente disparada das cotações mundiais das commodities minerais, metálicas e agrícolas, e coadjuvado pela acentuada depreciação do real.
Já, a inflexão da absorção interna reproduz a adequação dos agentes à recusa oficial de renovação do elenco de providências de proteção à renda e ao emprego, instituídas pelo Congresso Nacional e vigentes entre abril e dezembro de 2020, particularmente o auxílio emergencial aos vulneráveis, o financiamento público da diminuição da jornada de trabalho, o crédito subsidiado aos ramos empresariais mais afetados pelas quarentenas empregadas para bloqueio do surto, e o socorro financeiro aos estados.
Ressalte-se que a desistência de imprimir prosseguimento ao aparato de apoio estatal e a abdicação da elaboração e lançamento do Programa Renda Brasil derivaram das pressuposições destituídas de fundamento, formuladas pelos experts das pastas da saúde e da economia, no apagar das luzes de 2020, que sinalizavam a proximidade do fim da 2ª onda de infecções, hospitalizações e óbitos por Covid-19, justamente no momento de colapso do sistema de saúde do Amazonas e produção da cepa brasileira P1, e uma vigorosa retomada econômica em formato de V.
Descontados os casos de êxtase palacianos, parece relevante considerar que os cenários de “céu de brigadeiro”, montados a partir dos dados favoráveis do PIB, revelam-se no mínimo precipitados, pois enfeixam essencialmente a potencialização de vontades de que as coisas venham a melhorar por aqui. Afinal de contas, é o que vem acontecendo lá fora.
Tanto é assim que, de acordo com Relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os programas de vacinação em massa e o crescente derrame de grandes somas de recursos fiscais e monetários, por nações avançadas e algumas poucas em desenvolvimento, serão os grandes responsáveis pelo acréscimo de 5,8% e 4,4% do PIB global, em 2021 e 2022, respectivamente, mais que compensando a diminuição de -3,3%, constatada em 2020.
Porém, conforme a entidade, apesar de ter sido insistentemente convidado, ainda em 2020, o Brasil não terá cacife para participar da festa do retorno do crescimento, especialmente em razão do desprezo governamental à dimensão e letalidade do Sars-CoV-2, a priorização do curandeirismo fervorosamente defendido pelo chefe de estado e o deboche às ofertas de imunizantes, realizadas por laboratórios internacionais.
Não bastasse a interferência decisiva daquelas condutas desastrosas, os modelos brasileiros de previsões ainda deverão incorporar outros elementos de perturbação para o restante de 2021, sobretudo os prováveis impactos devastadores da variante indiana do vírus e precipitação da 3ª onda (ou 4ª, para alguns especialistas), os desdobramentos negativos da crise hídrica, a imprevisibilidade da dimensão das repercussões da CPI da Pandemia, no Senado, e os desdobramentos pouco relevantes do regresso, em abrangência e intensidade menor, dos programas assistenciais aplicados em 2020.
Não por acidente, em contraste com o bom humor reinante em Brasília e nos meios especializados, a OCDE projeta expansão de apenas 3,7% e 2,5% do PIB brasileiro em 2021 e 2022, respectivamente, em linha com o Banco Central, que prospecta incremento de 3,9% e 2,3%, respectivamente.
Se confirmadas, tais inferências representarão a repetição dos patamares de estagnação cíclica da produção e negócios no Brasil, predominantes desde a superação, no princípio de 2017, da mais profunda e longa recessão da história republicana.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista e ex-presidente do Ipardes.








