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Bolsonaro na ONU: retórica coerente e consistente

O discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da 76ª Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU), repleto de mentiras e contradições e dirigido prioritariamente a seus fervorosos devotos, hospedados na “ilha ou cercadinho da fantasia”, confirmou a coerência, concatenação e consistência do governo brasileiro. 

Trata-se de uma administração coesa e firme na combinação entre vários quesitos viciosos, dentre os quais sobressai fraqueza, isolamento, precariedade, insuficiente competência estratégica, tática e gerencial e aversão ao diálogo e negociação política, ingredientes fundamentais ao cumprimento das regras escritas e não escritas da democracia.

A atual gestão poderia ser retratada em um painel luminoso, com as cores verde, amarela e vermelha, que representariam, respectivamente, brilho e excelência, desempenho morno ou moderado e iniciativas equivocadas, estripulias, inações e fracassos.

O acionamento dos interruptores permitira constatar intensa predominância de pontos colorados, o que assustaria até aqueles observadores mais críticos do arranjo oficial dedicado ao tratamento das variáveis políticas, institucionais, econômicas e sociais e ambientais.

Só a título de ilustração, enquanto a Saúde foi ocupada por insensíveis predadores subjugados pelo chefe maior, depois da demissão de Luiz Henrique Mandetta e o pedido de desligamento de Nelson Teich, ainda no começo do episódio sanitário, a Educação foi dominada por seres pré-históricos despreparados e o Meio Ambiente foi ajustado para a “passagem da boiada”, a Economia padeceu por conta da incapacidade do “liberalismo de quermesse” em equacionar problemas complicados que impõem arrojadas intervenções do Estado.

A honrosa exceção esverdeada caberia à qualificada atuação do Banco Central (BC) que, na ausência de uma orientação macroeconômica capaz de fincar os pilares fiscais da estabilização, vem realizando esforços na tentativa de reversão, ou ao menos diminuição de ímpeto, da escalada inflacionária.

A subida dos níveis de preços é motivada por choques de oferta (cotações das commodities globais, câmbio, combustíveis e, mais recentemente, energia elétrica, com o reconhecimento retardado da crise hídrica) e componentes inerciais, vinculados à perspectiva de aprofundamento da instabilidade fiscal e financeira do setor público.

Mesmo assim, a autoridade monetária possui plena consciência acerca do alcance limitado da terapia baseada na elevação dos juros primários, apropriada essencialmente para derrubar tensões de preços provocadas pelo lado da demanda (especificamente salários e disponibilidade de crédito), ainda ausentes do panorama conjuntural.

Até porque, a barriga inflacionária, interpretada por parcela expressiva dos especialistas, que desapareceria neste 2º semestre, parece ter encontrado um porto seguro por aqui, em razão essencialmente da minimização de sua trajetória e dimensão, por parte dos experts públicos e privados.

Não é difícil perceber a natureza perversa do emprego prolongado desse medicamento sobre os níveis de atividade que, depois de emitirem sinais de revigoramento, entre o 2º semestre de 2020 e o 1º trimestre de 2021, passaram a acusar estagnação a partir de abril do corrente ano, em face das incertezas subjacentes à atuação (ou a falta dela) desfocada do executivo federal, em diferentes frentes de perturbação, começando pela crise sanitária.

A performance morna do governo, de coloração amarela, adviria do segmento de infraestrutura, palco do aproveitamento de iniciativas adequadas, organizadas pela equipe do mandatário antecessor, Michel Temer, principalmente alguns projetos de concessões de serviços públicos. Aliás, as inconfessáveis pretensões políticas do titular da pasta têm ocasionado a priorização da inauguração de obras concebidas e tocadas por antecessores, algumas de pouca relevância.

A  lacuna produzida pela não formulação e discussão coletiva de um programa de longa maturação, em paralelo às posições tresloucadas assumidas pelo chefe de estado, vem abalando a confiança de investidores potenciais em aplicar recursos excedentes em empreendimentos carentes de regulação adequada e transparente e de retorno temporal defasado.

Já, a prevalência do tom vermelho, no retrato oferecido pelo Palácio do Planalto e esplanada dos ministérios, é resultado de um verdadeiro desgoverno despejado sobre os agentes econômicos e sociais da nação, desde a posse do comandante da presidência, permanentemente envolvido em tarefas voltadas à viabilização de perpetuação da aliança hegemônica de poder por vias não democráticas.

O déficit de atenção com os problemas nevrálgicos da saúde, educação e ambiente de negócios, multiplicados pelo acentuado e longo ciclo do surto de Sars-CoV-2, acrescido do desprezo à segurança jurídica e institucional, explica o progressivo esvaziamento da “bolha de governo”, atestado pela corrosão da popularidade do titular e, por extensão, comprometimento do intransigente desejo de reeleição.

As pressões pela ruptura do teto de gastos, os tropeços na preparação da peça orçamentária pelo time de Paulo Guedes e os subsequentes procedimentos cirúrgicos definidos e praticados de maneira clientelista pelo Centrão – abarcando a não resolução do imbróglio do pagamento dos precatórios e do financiamento do Renda Cidadã, sucedâneo do Bolsa Família, alargado por interesses populistas e eleitorais -, e a reduzida adesão coletiva aos movimentos contrários aos preceitos constitucionais, constituíram golpes pesados que minaram o governo.

Apesar da salvação pelo gongo, expressa na carta de pacificação ou remissão, preparada pelo mediador do ruído político com o Supremo Tribunal Federal (STF), Michel Temer, e considerada apenas um recuo estratégico por seguidores otimistas, atentas observações de canto identificaram graves e enormes ferimentos.

Tanto que a nova pesquisa do Datafolha, realizada entre os dias 13 de 15 de setembro de 2021, junto a 3.667 pessoas maiores de 16 anos, em 190 municípios brasileiros, revela que aprovação à gestão presidencial, medida pelos conceitos ótimo e bom, caiu de 37%, em dezembro de 2020, para 22%, em setembro de 2021, e 24% em julho deste ano.

Em contraposição, a reprovação à conduta do mandatário, avaliada pelos selos ruim e péssimo, saltou de 32% para 53%, em igual intervalo, sendo que 57% dos entrevistados afirmaram não acreditar em suas declarações.

Com isso, as simulações de intenções para o 2º turno das eleições de 2022 colocam o atual comandante do executivo com 31% contra 56% de seu principal oponente, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, que, depois de blindado pelo STF, busca resgatar o ativo ético suprimido pelos escândalos do Mensalão e Petrolão.

Diante da flagrante inexistência de condições técnicas para continuar a luta pela vontade de governar – o que, de fato, não se tem – a melhor opção seria a desistência. O Centrão, esteio legislativo do atual mandato presidencial, e dos demais que o precederam, estará pronto para o desembarque e nova conexão.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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