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PIB do segundo trimestre e o fogo aceso de Paulo Guedes

A variação de -0,1% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, no 2º trimestre de 2021, mensurada pelo Sistema de Contas Nacionais Trimestrais (SCNT), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirma o estado de estagnação cíclica experimentado pela economia nacional desde 2014.

Depois de amargar a maior e mais prolongada recessão da história republicana, entre abril de 2014 e dezembro de 2016, registrar discreta expansão no triênio 2017-2019, mergulhar em profunda contração, entre março e maio de 2020, por conta dos efeitos da pandemia de Covid-19, e tomar o caminho de razoável recuperação entre junho do exercício passado e o começo deste ano, os níveis de atividade do país religaram as travas da letargia.

Mesmo com os desdobramentos do retorno do pagamento do benefício emergencial, a principal grandeza macroeconômica permaneceu no nível do final de 2019 e princípio de 2020, etapa pré-surto de Sars-CoV-2, e 3,2% abaixo do pico da série histórica, verificado nos três primeiros meses de 2014.

As estatísticas também servem para apagar o fogo entusiasmado do ministro da Economia, Paulo Guedes, um profissional fincado em raízes liberais comandadas pelas finanças, cuja vaidade o impede de reconhecer o embarque voluntário na “canoa furada” do atual governo.

Ao exibir flagrante incapacidade de formulação de um projeto consistente de nação e consequente definição de diretrizes, prioridades e políticas de ação, a administração Bolsonaro inviabilizou o cumprimento dos objetivos gerais de recuperação da solvência do estado e da eficiência da microeconomia.

As omissões, equívocos e rendições aos desejos desprovidos de racionalidade do chefe de governo, transformaram Guedes, em menos de três anos de ocupação e condução da pasta, de famoso Posto Ipiranga, em mera bomba de combustível isolada, pertencente a estabelecimento comercial destituído de bandeira.

 Ao se dirigir recentemente a uma plateia de empresários simpáticos, por ocasião do V Fórum Nacional do Comércio, promovido pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), o ministro, amparado em indicadores parciais do mercado de trabalho, afirmou que a economia nacional estaria “bombando e voando”, em uma retomada em formato em V, para desespero dos críticos empenhados em produzir a “rolagem da desgraça”.

De fato, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), do Ministério do Trabalho e Previdência, o Brasil gerou 2,2 milhões de postos líquidos de trabalho com carteira assinada, entre janeiro e agosto de 2021, sendo o melhor desempenho desde 2010, contra fechamento de -849 mil vagas, em igual intervalo de 2020, explicado pelo desastre sanitário.

Porém, o chairman da Fazenda preferiu ignorar que, se for considerado a dinâmica de ocupações de maneira mais abrangente, os dados são menos alentadores. Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), igualmente do IBGE, a taxa de desemprego nacional permanece bastante elevada.

Mais precisamente, no trimestre móvel findo em julho de 2021, a desocupação alcançou 13,7% da força de trabalho, contra 13,8% no mesmo período de 2020. Trata-se de 14,1 milhões de pessoas sem emprego e a procura de ocupação, 7,3% superior ao observado entre maio e julho de 2020, ou quase um mil milhão de pessoas. Já a taxa de subutilização da mão de obra, englobando o desalento e jornada insuficiente, está em 28%, equivalendo a 31,7 milhões de pessoas.

Enquanto isso, o rendimento médio real do pessoal ocupado caiu -8,8%, em comparação com o mesmo lapso de 2020, e a informalidade chegou ao recorde de 43,2% da população ocupada, o que corresponde a 38.444 pessoas, versus 40,3%, em semelhante trimestre do ano anterior, ou 33.067 trabalhadores. Em outros termos, a precarização do emprego no país sofreu acréscimo de 5,4 milhões de pessoas, em um ano.

Em circunstâncias tão adversas, Guedes também esqueceu, propositadamente, de mencionar os inconvenientes ocasionados pela escalada da inflação, puxada por alimentos, combustíveis e energia elétrica, e dos juros, episódios compressores da renda líquida disponível dos estratos menos favorecidos da pirâmide social.

Quanto instado a enunciar explicações a respeito, o ministro destacou os fatores exógenos, sobretudo a disparada das cotações das commodities primárias e do petróleo, e a sobrevalorização do dólar, que escapariam do raio de ação da política econômica doméstica.

Como se vê, não houve o entendimento oficial acerca da enorme influência exercida pelo descaso, de quase um ano, em relação aos alertas técnicos quanto à inevitabilidade da eclosão da crise hídrica, e pela flutuação da moeda americana no Brasil, vinculada as constantes manifestações desencontradas do presidente da república ou de membros importantes do staff palaciano, particularmente aquelas focadas no abalo da estabilidade institucional e/ou do funcionamento dos mercados.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.

Mirian Gasparin
Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 44 anos na área de jornalismo, sendo 42 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 11 anos de blog, mais de 20 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 18 prêmios, com destaque para Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.
https://www.miriangasparin.com.br

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