Guerra na Ucrânia: qual o impacto nos investimentos?

O mundo vive, nesta quinta-feira (24), um dos momentos mais tensos desde o fim da guerra fria. Os primeiros ataques diretos da Rússia à capital da Ucrânia, Kiev, fizeram os mercados apresentarem forte queda logo nas primeiras horas do dia, nas principais bolsas europeias e nos Estados Unidos.
E no Brasil, qual o impacto para os investimentos? Para o Head de Research da Ativa Investimentos, Pedro Serra, mesmo antes dos ataques, conflitos como os que vinham ocorrendo já trazem aversão ao risco nos mercados e esse seria o primeiro canal de transferência, com a possibilidade de fuga de capital de países emergentes para aqueles mais seguros. Porém, vale também traçar um panorama da importância da Ucrânia no cenário internacional.
Com uma das terras mais férteis do planeta, a Ucrânia é um destaque da agricultura europeia há séculos. Atualmente, o país é responsável pela produção de 13% do milho e 7% do trigo mundiais. Além disso, a Ucrânia é um dos maiores exportadores mundiais de outros grãos, como cevada e centeio.
De acordo com dados da organização mundial de agricultura (FAO), 14 países compram da Ucrânia o equivalente a mais de 10% de seu consumo interno de trigo. Desses países, um número significativo já apresenta problemas de segurança alimentar, como o Iêmen e a Líbia.
Além disso, uma parte substancial das terras agrícolas ucranianas estão localizadas na região leste do país, justamente a posição mais vulnerável a um potencial ataque russo.
Safras agrícolas
Pedro Serra chama a atenção para o fato de que caso o surgimento de um conflito bélico na Ucrânia afete de forma significativa as safras agrícolas daquele país, podem ocorrer efeitos diversos ao redor do mundo, nomeadamente nos preços de trigo, milho e fertilizantes agrícolas.
“No Brasil, o aumento do preço do trigo, que já vem sendo impulsionado pelas notícias do conflito ucraniano, poderá afetar negativamente empresas listadas na bolsa”, destaca o Head de Research da Ativa Investimento.
A M Dias Branco (MDIA3), que depende da importação de trigo, assim como a Santa Amália, marca de massas e biscoitos recentemente adquirida pela Camil, deverão sentir efeitos negativos advindos das altas do trigo, informa Serra.
Já a alta do milho, impulsionado pelo conflito ucraniano e a estiagem no sul do Brasil, pode ser favorável para empresas que produzem e exportam esses grãos, como a SLC Agrícola (SLCE3) e a Brasil Agro (AGRO3).
Por outro lado, empresas compradoras de milho como BRF (BRFS3), Seara (JBS) e Ambev (ABEV3) deverão sentir impactos negativos em seus resultados.
“Para além da distorção nos preços de trigo e milho, a crise ucraniana pode também desencadear efeitos adversos no mercado de fertilizantes de forma direta e indireta. Direta porque um potencial conflito pode reduzir as exportações de fertilizantes ucranianos e já vem afetando fábricas de fertilizantes, que tiveram as operações temporariamente paralisadas na região por motivos de segurança”, explica Serra.
Além disso, um potencial conflito bélico entre a Rússia e a Ucrânia poderia levar a sanções econômicas contra a Rússia. Como mais de 40% do gás consumido na Europa é proveniente da Rússia, o agravamento da crise pode levar aumentos no preço do gás natural. Por sua vez, o gás natural é o principal insumo utilizado na produção de fertilizantes nitrogenados, o que tende a aumentar o preço desses produtos, após um ano de alta significativa para os fertilizantes em 2021.
Fertilizantes
O preço dos fertilizantes é sempre algo a ser monitorado e atualmente constitui em risco de médio prazo para as empresas listadas do agronegócio no Brasil. “No entanto, vale lembrar que a volatilidade dos fertilizantes não costuma ter efeito de curto prazo no resultado dessas empresas, uma vez que elas costumam fazer a compra desses produtos com bastante antecedência. Atualmente, empresas como a SLC Agrícola e a Brasil Agro só teriam seus resultados significativamente impactados por essa volatilidade caso ela persistisse por um período mais longo”.
Caso, até o fim de 2022, a situação seja resolvida, faz com que este risco ao mercado de fertilizantes não se concretize. Dessa forma, os potenciais impactos da crise da Ucrânia podem ter ramificações até mesmo na bolsa brasileira, afetando ações de alimentos (MDIA3, JBSS3, BRFS3, CAML3, ABEV3), com o aumento do custo dos insumos, e produtores agrícolas (SLCE3, AGRO3), com um efeito positivo, como o aumento do preço de milho, e um negativo, no caso do encarecimento dos fertilizantes.
Concluindo, o Head de Research da Ativa Investimento alerta que é necessário cautela e monitoramento constante dos riscos pelo investidor, garantindo uma diversificação entre setores que permita tranquilidade em teses de investimentos de longo prazo, minimizando abalos decorrentes de eventos imprevisíveis de curto prazo como a crise na Ucrânia.
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