Reino Unido e França: batalhas vencidas em defesa da democracia

Reino Unido e França: batalhas vencidas em defesa da democracia
Gilmar Mendes Lourenço.

Os adeptos da resolução das tensões sociais, econômicas e políticas, ou daquilo que se convencionou chamar de conflito distributivo, sob regras democráticas, devem estar em estado de celebração com os números definitivos das contendas eleitorais para a renovação das assembleias nacionais do Reino Unido e da França, promovidas em junho e julho de 2024.

Isso porque, a ameaça de ascensão do nacional-populismo, de extrema direita, reacionário e intolerante, ao poder parlamentar nas duas importantes nações do continente europeu foi temporariamente neutralizada, de maneira rotineira, no Reino Unido, e adiantada, na França.

Mesmo com interesses e plataformas bastante heterogêneas, a coalizão das instituições defensoras da democracia conseguiu impor uma espécie de freio, ainda que em curto prazo, à escalada da ultradireita, cuja consolidação dependerá da capacidade de enfrentamento dos complexos desafios e equacionamento dos não poucos problemas que afetam as diferentes nações.

No Reino Unido, os representantes do Partido Conservador, donos das rédeas dos destinos do país por 14 anos, amargaram o mais acentuado revés eleitoral da história, com drástica diminuição de tamanho legislativo. Tal evento pode ser imputado ao conjunto da obra ou à uma sucessão de equívocos, notadamente no campo da economia, ancorada especialmente na deliberação de saída da União Europeia, que é rechaçada por mais de 2/3 dos britânicos.

Não seria ocioso destacar que o Brexit (a mistura das palavras inglesas, British e exit) foi predominante no desencadeamento do estado de estagflação, que representa a combinação entre intensa retração da velocidade de crescimento dos níveis de atividade e ocupação dos fatores de produção e pronunciada aceleração do nível geral de preços, o que resultou em impulsão dos custos domésticos e drástica diminuição dos patamares de produtividade.

Na verdade, o resultado britânico serviu apenas para confirmar as projeções esboçadas pelos analistas políticos, centradas na preferência majoritária pelo Partido Trabalhista de atuação não radical, liderado por Keir Starmer, um ex-procurador de origens operárias, postulante dotado de visão pragmática e agenda não ideológica, aderente aos problemas do cotidiano econômico e social.

Antes de tudo, com postura e proposições consideradas equilibradas, Starmer teve que convencer e/ou suplantar a ala mudancista da sigla, que, encabeçada por Jeremy Corbin, contabilizou fracassos eleitorais nada desprezíveis por mais de duas décadas.

Na sequência, o novo premier britânico foi beneficiado pela engenharia do processo eleitoral, determinada pelo chamado “voto distrital puro”, que propicia ao vencedor a arregimentação da totalidade dos sufrágios de cada localidade, independentemente da diferença e destituído de qualquer tipo de compensação aos perdedores.

Enquanto os trabalhistas ficaram com 411 cadeiras parlamentares, absorvendo 33,7% dos votos, contra 202 deputados, ou 32,1% dos votos, em 2019, os conservadores, prejudicados pelo avanço da extrema direita (Reform UK) – que saltou de 2% para 14,3% da votação, entre 2019 e 2024 – tiveram que se contentar com 121 assentos, consequência da obtenção de 23,7% das preferências populares.

Já, o episódio francês foi consequência de uma arriscada manobra política do presidente Emmanuel Macron, que dissolveu o parlamento e convocou eleições imediatas, depois da surpreendente vitória do Reagrupamento Nacional (RN), grupo político radical de direita conduzido por Marine Le Pen.

O RN resultou fortalecido do pleito para a composição do parlamento europeu, acontecido em 9 de junho de 2024, quando conseguiu eleger a maior bancada, com 30 eurodeputados, contra 13 dos adeptos de Macron e outros treze do grupo de esquerda francês.

O time de Le Pen também venceu o embate antecipado, em primeiro turno, verificado em 1º de julho de 2024, contabilizando 33% dos votos, sendo seguido pela Nova Frente Popular (NFP), soma das esquerdas extrema e moderada, e pelo Juntos, de Macron, com 21%.

Por isso, o desfecho revestiu-se de complicações de maior envergadura, sendo decorrente de rápida associação entre a abrangente frente de esquerda (configurada na coligação NFP, dos socialistas, do ex-presidente François Hollande, e comunistas ao velho estilo, de Jean-Luc Mélenchon), e o centro, comandado pelo chefe do executivo.

O objetivo precípuo do agrupamento era deslegitimar a onda autoritária, por meio da interrupção da ascensão da agremiação de Le Pen, aglutinadora de forças e bandeiras retrógradas, materializadas em xenofobia e racismo, apesar das maquiagens das imagens, produzidas pela estratégia de comunicação extremista, na tentativa de transmitir a impressão de normalização de uma direita republicana com feições nacionalistas.

A operação de viabilização da empreitada de reunião entre centro e esquerda visando ao estreitamento das chances de êxito dos ultraconservadores contemplou até o comportamento de retirada de candidaturas radicais (130 da NFP e 81 do Juntos), entre o primeiro e o segundo turno, em favor de pretendentes de centro, mais alinhados aos sentimentos dos cidadãos.

Por uma retrospectiva histórica, é interessante assinalar que esse modo de organização e acomodação republicana vem sendo erguido desde as eleições presidenciais de 2002, quando esteve dedicado à neutralização de Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, condutor da Frente Nacional, antecessor da RN, instituída em 1972, com a participação decisiva de coadjuvantes de práticas nazistas.

Na época, a candidatura vitoriosa foi de Jacques Chirac, componente da direita não radical, havendo a repetição do expediente de aglutinação das forças progressistas nas disputas presidenciais de 2017 e 2022, que redundou no represamento das possibilidades de Marine.

Ao final das apurações de julho de 2024, que contou com a adesão recorde de 67% da população, os blocos NFP e Juntos somaram 182 e 168, dos 577 deputados (76 alçados no primeiro turno, sobrando 501), respectivamente, contra 143, do grupo de Le Pen, e 48, dos Republicanos, o que serviu para modificar substancialmente o retrato de vantagem da ultradireita extraído em primeiro de julho.

Isso consagrou a maior fragmentação da Assembleia Nacional francesa desde o lançamento da Quinta República, em 1958, por Charles de Gaulle. Sobraram três pedaços, portadores de plataformas contrárias e/ou, na melhor das hipóteses, ocupadas por múltiplas discordâncias.

Decerto que a permanente instabilidade acoplada ao fracionamento de anseios e propósitos conflitantes pode prejudicar a formulação, negociação, tramitação, debate e aprovação de assuntos relativos a um programa de governo de coabitação por entes adversários.

De um lado, figura o presidente Macron, cada vez mais isolado e absoluta e voluntariamente ausente da discussão legislativa e, de outro, aparece Mélenchon, solicitante natural do posto de primeiro ministro, por chefiar o partido detentor da maior votação, lotado de teses anacrônicas e/ou polêmicas, como a reversão da reforma da previdência e a ampliação dos dispêndios públicos, e jocosamente rotulado como Le Pen com sinal invertido.

Mesmo assim, há que se construir capacidades para a preservação da democracia e restauração das condições à retomada do crescimento, arrefecimento da inflação, minimização das disparidades sociais, em ambiente de compressão de benefícios, e tratamento adequado das questões migratórias.

A contagem dos votos na Europa também estragou a quermesse da ultradireita brasileira, qualificada como Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada em 7 de julho, em Balneário Camboriú, no litoral do estado de Santa Catarina.

Com apoio presencial do presidente da Argentina, Javier Milei – um rebelde e obstinado sem causa, que abdicou da participação da cúpula do Mercosul para prestigiar o frenesi dos seguidores do lema “pátria, família e liberdade” -, conhecidos expoentes da autocracia golpista, organizada a partir de novembro de 2022 e improvisada e derrotada em oito de janeiro de 2023, comemoravam antecipadamente o êxito (frustrado) do conservadorismo no velho mundo.

Por fim, o elenco de recomendações de destino para aqueles simpatizantes da adoção de iniciativas inclusivas no Brasil, praticadas desde o final da primeira metade da década de 1990 – com a desinflação do Plano Real, a valorização do salário mínimo e as transferências direta de renda às famílias em situação de vulnerabilidade -, antes restrito a Cuba, Venezuela e Bolívia, ganhou novos integrantes de peso, sediados em território europeu.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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