Gilmar Lourenço lança seu 10º livro que traz os cenários global e brasileiro

Lançamento foi seguido por debate sobre os rumos da economia
Nesta quinta-feira (22), a sede do CoreconPR recebeu um evento especial: o lançamento do livro “Política e Economia Global e no Brasil: Cenas de 2024”, do economista Gilmar Mendes Lourenço. O evento, que teve início às 16 horas, com uma breve apresentação do livro, reuniu profissionais da área, acadêmicos e interessados em economia para uma discussão aprofundada sobre os temas abordados na obra, que analisa os principais acontecimentos políticos e econômicos de 2024 e seus desdobramentos em 2025.
Gilmar Lourenço iniciou sua fala agradecendo a presença de todos e destacando o papel do CoreconPR como um espaço essencial para o debate crítico em economia. Ele ressaltou a importância de os economistas irem além das análises técnicas e se engajarem na compreensão das dinâmicas sociais.
O livro traz uma análise detalhada dos cenários global e brasileiro, abordando desde os rearranjos geopolíticos, como a crescente influência da China e os conflitos no Oriente Médio, até as turbulências políticas internas, como o fortalecimento do Congresso Nacional e os desafios da recuperação econômica pós-pandemia. Lourenço também discutiu os impactos da eleição de Donald Trump nos EUA e as políticas econômicas adotadas na Argentina sob o governo de Javier Milei, destacando os efeitos desses eventos no Cone Sul.
Debate
Durante o debate, os participantes levantaram questões sobre os rumos da economia brasileira, a persistência da informalidade no mercado de trabalho e as contradições de um crescimento que, embora reduza a desigualdade, ainda enfrenta desafios estruturais. O autor enfatizou a necessidade de políticas de longo prazo para consolidar a recuperação econômica e criticou o que chamou de “parlamentarismo de extorsão”, no qual o Legislativo ganha poder às custas de práticas clientelistas.
A apresentação do livro foi finalizada com um convite à reflexão sobre o papel dos economistas na sociedade, incentivando uma abordagem mais humana e menos técnica da ciência econômica. Na finalização, houve a palavra do presidente do Sindecon PR, Juarez Trevisan, e também do presidente do CoreconPR, Odisnei Antônio Bega, que ambos agradeceram a grande contribuição do economista para a área e sociedade. O evento foi encerrado com uma sessão de autógrafos e fotos com o autor.
Projeto Solidário
O livro “Política e Economia Global e no Brasil: Cenas de 2024”, é também um projeto solidário: toda a arrecadação com as vendas será destinada ao Asilo São Vicente de Paulo, em Curitiba, instituição que acolhe e cuida de mais de 160 idosas. Para adquirir seu exemplar e contribuir com esta causa nobre, basta fazer um PIX no valor de R$ 45,00 para a chave CNPJ 76.712.918/0001-25 e enviar o comprovante com seu endereço para o WhatsApp (41) 99969-5517.
Confira a fala de Gilmar Mendes Lourenço, no lançamento do seu 10º livro, na sede do Corecon:
Boa tarde, minhas amigas e meus amigos.
É um prazer enorme tê-los comigo neste momento tão especial, que marca o lançamento do meu décimo livro de economia, nesta Casa tão acolhedora, que me suportou como conselheiro em diferentes períodos do século passado. O Sindecon/PR, presidido pelo meu querido companheiro, Juarez Trevisan, foi ainda benevolente, e me tolerou até 2023.
Dentre as incontáveis tarefas e atribuições do Corecon-PR, hoje conduzido com zelo e maestria pela equipe do meu velho e grande amigo, Odisnei Antônio Bega, a mais importante, a meu ver, representa o exercício permanente do papel de “caixa de ressonância da sociedade” brasileira e regional, mantendo a dianteira no corajoso processo de debate dos temas e explicitação de propostas relevantes ao desenvolvimento econômico e social nacional e estadual.
A minha décima obra repete a velha parceria com a brilhante jornalista e amiga Mirian Gasparin, que me brinda com a hospedagem dos meus artigos semanais no seu portal, “Economia e Negócios”, e amplia os laços recentes que busquei estabelecer com o Asilo São Vicente de Paulo, entidade assistencial que cuida de mais de 160 mulheres idosas, em Curitiba, tocada de modo competente e fraterno pelo Padre José Aparecido.
O livro em si consiste em uma organização descritiva e analítica da tortuosa evolução do ambiente político e econômico mundial e brasileiro, ao longo de 2024, com transbordamento para 2025. De maneira sintética, eu poderia dizer que os textos ou capítulos nele contidos destacam a intensificação dos efeitos dos rearranjos geopolíticos, com o aprofundamento da ofensiva da China na tentativa de desbancar a liderança hegemônica dos EUA, acompanhado do estreitamento das ligações com a Rússia, notadamente depois dos embargos comerciais promovidos pelo Ocidente, a partir da invasão da Ucrânia, no começo de 2022.
Também são interpretados os impactos da impulsão dos seculares conflitos no Oriente Médio, renovados depois de outubro de 2023, com o ataque-surpresa do grupo Hamas ao território de Israel, com resposta absolutamente desproporcional e desconectada de qualquer apelo humanitário.
A despeito da continuidade do declínio da inflação e fortalecimento da recuperação econômica cíclica pós-pandemia de Covid-19, o cenário geopolítico internacional ganhou contornos de maior instabilidade com o avanço da ultradireita, captado em pleitos eleitorais importantes da Europa, e, notadamente, com a vitória de Donald Trump, uma verdadeira “imprevisibilidade ambulante”, nas eleições americanas do ano passado.
Trump tem não como um braço, mas como um dedinho, no Cone Sul, o libertário chefe de estado argentino, Javier Milei, que conseguiu as bençãos do FMI,
depois de produzir expressiva queda da inflação ao preço da ampliação do desemprego e pobreza e desmonte do estado.No campo brasileiro, o fio condutor da obra repousa na discussão do consistente prosseguimento da recuperação econômica, iniciada no segundo semestre de 2022, excessivamente dependente da engorda do consumo privado, baseada na ampliação da fatia orçamentária destinada aos programas de proteção social, sobretudo a partir de 2023.
O produto interno bruto (PIB) nacional cresceu 3,2% ao ano, no triênio 2002- 2024, e 4,2%, em doze meses findos no primeiro trimestre de 2025, de acordo com o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br). Como isso vem acontecendo sem o guarda-chuva de políticas de investimentos de médio e longo prazo, verifica-se acréscimo recorde nos níveis de emprego de baixa a moderada remuneração e perigosa estabilização da informalidade do mercado de
trabalho ao redor de 40% da população ocupada.
Igualmente relevante foi a subida das necessidades de financiamento do setor público, ou o déficit público, operado por um governo desapegado da responsabilidade fiscal, sem, porém, a existência do risco de insolvência, alardeado pelos mercados, que, paradoxalmente, parecem desconhecer a garantia de recompra da dívida pública e a inexistência de instrumentos legais que propiciem a decretação de calotes, como o ocorrido em março de 1990, sob o governo Collor.
Por sinal, o apetite dos rentistas vem sendo suficientemente saciado com asegunda maior taxa de juros real do planeta, atrás apenas da Turquia, comprovadamente ineficaz na produção da convergência da inflação para a meta anual de 3%, fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), por constituir remédio para pressões de demanda e não de oferta, particularmente de alimentos, afetada por problemas climáticos e flutuações globais.
Por fim, outra vertente do livro abrange a avaliação dos principais componentes institucionais domésticos, especificamente as batalhas voltadas ao fortalecimento do aparato democrático formal e informal, travadas predominantemente pelo judiciário – os negacionistas do golpe alegam apenas que a capital da república hospedou o maior evento turístico do país, no final de semana de oito de janeiro de 2023 – e a flagrante perda de protagonismo do poder executivo em relação ao legislativo, plantada a partir da cassação da presidente Dilma Rousseff, em 2016.
A perpetuação da festança com os recursos reservados às emendas impositivas, reforçada com a terceirização ao Congresso Nacional da formulação e execução do orçamento geral da união (OGU), por um governo ocupado exclusivamente com o fracassado empreendimento da reeleição, maximizou as
chances de renovação perene dos mandatos dos parlamentares e minimizou o peso das políticas públicas.
Do ponto de vista da lógica da ciência política, eu estou completamente convencido de que o presidencialismo de cooptação, que, a partir dos escândalos do
Mensalão, dos anos 2000, e do Petrolão, da década de 2010, substituiu o presidencialismo de coalizão, ensejado pela Constituinte de 1988, foi praticamente
engolido, na mais polida das expressões, pelo semipresidencialismo.
Não por acaso, em uma autêntica legislação em “causa própria” ou em favor de terceiros próximos e poderosos, o Congresso Nacional aprovou a anistia ampla aos partidos políticos descumpridores do vasto regramento de operação, englobando descalabros financeiros, e a enésima renegociação da dívida dos estados, generosa com os perdulários e rigorosa com os eficientes.
Eu não tenho dúvidas que, nas circunstâncias de construção de apoio flutuante do governo no legislativo, prevalece o parlamentarismo de extorsão, viabilizado tanto pela utilização das agremiações partidárias para a arregimentação de vultosas somas de recursos dos fundos partidário e eleitoral, a serem distribuídas aos escolhidos pelas cúpulas, quanto pelo controle dos ministérios estratégicos e pelo uso indiscriminado das emendas que superam os R$ 50 bilhões por ano, maiores que as alocações em investimentos governamentais.
Eu encerro afirmando que, em uma nação que comemora a menor desigualdade social da história, atestada pela apuração do menor coeficiente de gini, em 2024, de acordo com a PNAD Contínua, do IBGE, na qual o 1% mais rico da população obteve renda equivalente a 36,2 vezes a recebida pelos 40% mais pobres, os economistas ainda tem muito trabalho. Só que, para tanto, precisamos rapidamente escapar da pecha, ou mesmo armadilha, de meros cientistas de dados, cabeças de planilhas ou tecnocratas, como mencionava a saudosa professora Maria da Conceição Tavares, e retomarmos a nossa função de investigadores do cotidiano social com os conhecidos “olhos de águia”.
Muito obrigado.







