Sanções de Trump e democracia brasileira

Gilmar Mendes Lourenço.
Em uma parte da coluna publicada neste espaço, em 04 de agosto de 2025, argumentei acerca da necessidade e, por que não dizer, conveniência de recomposição das condições de funcionamento revigorado do centro democrático do espectro político brasileiro, que, embora destituído de força propulsora para voos isolados, revelou-se crucial para o desenho do desfecho eleitoral ao cargo de presidente da república, no segundo turno de 2022.
Alguns colegas alertaram, de um jeito extremamente elegante e pertinente, para o caráter demasiadamente otimista subjacente aquela premissa, em um estágio tão sombrio atravessado pela nação, potenciando por problemas descomunais, alguns importados e outros Made In Brazil.
De fato, nota-se a predominância da perversa combinação de multiplicação das incertezas geopolíticas globais, por conta das posturas e iniciativas antagônicas à globalização e ao multilateralismo, tomadas pelo chefe republicano dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, e do acirramento dos embates institucionais domésticos, em clima de exacerbação dos comportamentos extremados.
Faz-se necessário esclarecer que não se trata de sugestão direcionada ao fortalecimento do bloco conhecido como centrão, conjunto multifacetado de representantes de interesses absolutamente dominante no jogo legislativo, a cada dia menos subordinado às ligações com o poder executivo e mais inclinado ao manuseio das vultosas verbas derivadas das emendas.
Estas, por seu turno, podem ser alocadas diretamente nos redutos eleitorais dos parlamentares, com transparência bastante questionável, ao sabor dos ventos eleitorais dominantes e, o que é mais grave, destituídas de qualquer vínculo com as estratégias de estado, contratadas com a sociedade pelos vencedores das disputas eleitorais majoritárias.
Ao contrário, ainda que portadora de elevadas doses de utopia, a insinuação levantada no sentido da restauração do centro democrático repousa no caráter imprescindível do resgate da preponderância de hospedagem, na política, daqueles segmentos sociais moderados.
Esse estrato carrega a qualidade de menor inclinação ou mesmo aversão à radicalização, além de exibir maior preocupação com a formulação, apresentação, debate, negociação e aplicação de uma agenda voltada à estruturação de providências de longa maturação, preferencialmente destituída de objetivos eleitoreiros de curto prazo.
A propósito disso, sondagem realizada pelo Datafolha, realizada junto a 2.004 pessoas, nos dias 29 e 30 de julho de 2025, em 130 municípios, após o anúncio por Donald Trump das alíquotas de importação incidentes sobre produtos e serviços fornecidos pelo Brasil, sinalizou com retratos menos desalentadoras.
Os indicadores permitiram constatar enorme desgaste político de postulantes presidenciais alinhados ou escorados nos espaços da direita – em caso de insistência de inclusão do indulto ao ex-incumbente, Jair Bolsonaro -, na plataforma para o pleito de 2026.
Isso porque, 61% dos eleitores entrevistados pelos pesquisadores do Instituto mencionaram não apenas repúdio à hipótese de concessão de perdão ao capitão reformado e seus raivosos devotos, nas empreitadas de destruição da vontade popular, mas a retirada da intenção de sufrágio no candidato que vier a assumir esse compromisso anacrônico no decorrer da campanha.
A esse respeito, cumpre sublinhar que os atuais governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), pré-postulantes à cadeira máxima, a partir de janeiro de 2027, advogam a utilização dessa conduta.
Para eles, a medida deverá ser empregada, em circunstâncias de condenação e prisão de Bolsonaro, por planejamento do fracassado empreendimento de ruptura institucional no país. Fora desse elenco pró-perdão, figura o incumbente do Paraná, Ratinho Junior, do PSD, também cotado como presidenciável, rotineiramente acostumado à inadequada isenção de opinião sobre assuntos de pronunciada complexidade.
Há apreciáveis barreiras, de distintas naturezas, enfrentadas pelos movimentos favoráveis à tramitação da pauta da impunidade, centrada na anistia aos vândalos subversivos do evento de 08 de janeiro de 2023, e da celebração do compromisso de disponibilização da remissão presidencial, após o desfecho do ciclo eleitoral de 2026.
Do ponto de vista legal, não há margem de manobra, ainda que por atalhos viabilizados no âmbito do legislativo, para a supressão antecipada de punição a acusados em processo de investigação e julgamento e/ou ainda não condenados de modo inexorável.
Esse quadro adverso encontrado pelos arautos da benevolência criminal contra o Estado foi magnificado desde a materialização da aliança celebrada entre a família Bolsonaro e Donald Trump, em uma deplorável e desrespeitosa conspiração, endereçada ao desmanche dos pilares das regras formais e informais do certame da democracia brasileira, sob o disfarce da imposição de desproporcional tarifaço.
As bombas tarifárias foram desferidas de maneira díspar sobre praticamente todos os estados nacionais, o que, malgrado o otimismo das previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), resultará em substanciais danos nos patamares de renda e emprego e recrudescimento das tensões inflacionárias.
Por essa perspectiva, sintomaticamente, percebeu-se o não endosso e, o que é pior (ou melhor), instantâneo afastamento dos presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, e de outras lideranças políticas, especificamente governadores, das demandas levantadas pela desesperada ultradireita nacional, a ponto de não terem comparecido aos eventos de apoio irrestrito à intentona trumpista, acontecidos em 03 de agosto de 2025, nas principais capitais.
Não obstante, é prudente advertir que quase todas aquelas forças, enfileiradas nas correntes conservadoras, desprovidas de pensamento e visão prospectiva, não apenas abonaram como tiveram a pachorra de justificar a tabela de mega tarifas, divulgada por Trump, à exceção, novamente, da indiferença e descaso do mandatário paranaense, explicitados em reunião dos presidenciáveis com o povo privilegiado da Faria Lima.
Fazendo um breve parêntese, a postura de “vai e vem” imprimida pelo mandatário americano sobre os países, em momentos distintos, provocando uma verdadeira bagunça nos esforços elementares de montagem de cenários minimamente previsíveis, mira essencialmente o enfraquecimento da parte unilateralmente afetada e a maximização dos ganhos dos EUA, por ocasião da finalização dos acordos, tanto no terreno comercial quando na captura ou promessa de investimentos.
O desconforto de Trump com a conduta independente do Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, tem gerado insistente assédio ao presidente da autoridade monetária, Jerome Powell, e o desgosto com as informações magras da abertura de empregos, no mês de julho de 2025, precipitou a demissão sumária da encarregada do Departamento de Estatísticas do Trabalho (BLS), Erika McEntarfer.
Por essa ordem de interpretação, a contenda Brasil versus Trump é portadora de potencial ou chance de fragilização da fração radical da sociedade, capitaneada por um clã familiar que, na “árdua” jornada de escape das agruras da prisão, não demonstrou o menor pudor em encabeçar a montagem e desencadeamento de uma trama internacional, dominada por chantagens econômicas em troca de alterações do marco institucional do país. Não por acaso, 57% da população ouvida pelo Datafolha reprova a investida da Casa Branca na operação do poder judiciário do Brasil.
No entanto, não se deve acalentar esperanças de condução desse grupo radical ao ostracismo político, dada sua ainda inquestionável capacidade de mobilização de massas, com identidade tribal e dispostas à episódicas crises de insurreição, catapultada pela habilidade no manuseio das redes sociais, com contínuo espalhamento de notícias falsas e desinformações, o que justifica a verificação de aceitação plena da interferência trumpista por 36% das pessoas consultadas pelo Datafolha.
De outra parte, em que pese a subida das intenções de voto declaradas para “Lula Eterno”, nas simulações de primeiro e segundo turno, contra qualquer adversário, em 2026, o estabelecimento de sanções comerciais e, principalmente, a tentativa de interferência em assuntos “fora de casa”, por Trump, caros à preservação da soberania nacional, não conseguiu produzir melhora na popularidade do governo.
A avaliação negativa de Lula 3 (2/3), expressa na categorização ruim e péssima, ainda se situa em 40%, enquanto a aprovação (conceitos ótimo e bom) está em 29%, inferior à mensurada em idêntico período das duas gestões anteriores do petista e de Dilma Rousseff.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








