Na construção civil, o brasileiro troca a posse pelo aluguel

Na construção civil, o brasileiro troca a posse pelo aluguel

Com juros altos e crédito restrito, locação de equipamentos cresce e sustenta o ritmo das obras em 2025

Em um país acostumado a erguer casas, galpões e sonhos mesmo nos períodos mais duros da economia, 2025 revelou uma mudança silenciosa no jeito brasileiro de construir. Com crédito caro, juros elevados e maior cautela no investimento, o Brasil encontrou um caminho pragmático para seguir em frente. Em vez de comprar, alugou. Em vez de imobilizar recursos, buscou acesso. O reflexo dessa escolha aparece nos números. Quase 2 milhões de locações de equipamentos foram realizadas ao longo do ano, espalhadas por todos os estados do país, segundo dados consolidados da Casa do Construtor, maior rede de locação de equipamentos de construção civil da América Latina.

O dado ajuda a explicar uma transformação mais profunda no comportamento de quem constrói. Do pedreiro autônomo ao pequeno empreiteiro, do agricultor ao morador que decide reformar a própria casa, a lógica da posse vem perdendo espaço para a lógica do uso. É a economia de acesso, conceito que já havia avançado em setores como mobilidade e hospedagem, agora definitivamente incorporado à construção civil.

A pesquisa mostra que até a primeira semana de dezembro de 2025 foram 1.985.971 locações, um crescimento de 8% em relação ao ano anterior, mesmo em um cenário econômico mais restritivo. O avanço ocorreu de forma desigual pelo território nacional, o que também revela muito sobre o Brasil de hoje. Estados historicamente menos atendidos por grandes investimentos puxaram o crescimento. O Amapá liderou a locação de equipamentos com alta de 43%, seguido por Maranhão 38%, Pará 27% e Rio Grande do Sul 24%. O Norte e o Nordeste voltaram a mostrar fôlego, impulsionados por obras de infraestrutura, habitação e reformas residenciais.

Estratégia

Para Expedito Eloel Arena, fundador da Casa do Construtor, o movimento não acontece por acaso. “Em regiões onde o acesso ao crédito é mais limitado, alugar deixou de ser alternativa e passou a ser estratégia. O custo médio de uma locação gira em torno de R$ 320, valor que permite executar uma etapa da obra sem comprometer o orçamento por meses ou anos. Em tempos de cautela financeira, essa diferença pesa”, explica.

Os equipamentos mais alugados ajudam a desenhar o retrato das obras brasileiras. Painéis metálicos, rompedores e betoneiras lideram a lista, seguidos por ferramentas elétricas, compactadores e sistemas de escoramento. São itens ligados às fases iniciais e estruturais da construção, o que indica que o país segue construindo do zero, e não apenas reformando. Ao mesmo tempo, chama atenção o crescimento acelerado de equipamentos ligados à tecnologia e à precisão, como termovisores, ferramentas de demolição controlada e painéis fachadeiros. O canteiro de obras ficou mais técnico.

Por trás desse volume está uma engrenagem que movimenta economias locais. A cadeia da locação de equipamentos gera empregos diretos e indiretos, ativa fornecedores regionais e recolhe impostos em municípios de todos os portes. No caso da Casa do Construtor, são quase 6 mil postos de trabalho entre colaboradores das unidades e atividades indiretas ligadas à operação de mais de 800 lojas.

Fundada em 1993, no interior paulista, a rede se transformou em termômetro desse novo comportamento. Ao atingir a marca de quase 2 milhões de locações em um único ano, a empresa deixa de ser apenas um case de franchising e passa a funcionar como indicador econômico. “Onde há obra, há locação. Onde há locação, há circulação de renda, trabalho e desenvolvimento”, comenta Arena.

Brasileiro sabe se ajustar

A expansão também revela um Brasil que cresce fora do eixo tradicional. O crescimento mais acelerado no Norte e no Nordeste contrasta com a estabilidade do Sudeste, onde estados como São Paulo e Rio de Janeiro avançaram em ritmo mais moderado. Isso indica uma interiorização da construção, puxada por moradia, pequenas obras comerciais e investimentos locais.

Para Altino Cristofoletti Junior, também fundador da rede, outro ponto relevante é a resiliência do modelo em períodos de instabilidade. Enquanto a compra de máquinas depende de crédito, financiamento e planejamento de longo prazo, a locação se adapta ao dia a dia.

“Quando o cenário aperta, o brasileiro ajusta o tamanho da obra, mas segue construindo. Aluga o que precisa, pelo tempo necessário”, complementa Cristofoletti.

O comportamento ajuda a explicar por que a economia de acesso deixou de ser tendência e se consolidou como prática. Em um país de renda média, marcado por desigualdades regionais e ciclos econômicos instáveis, acesso virou sinônimo de eficiência.

“No fim das contas, os quase 2 milhões de contratos de locação assinados em 2025 contam uma história maior do que qualquer balanço corporativo. Eles falam de um Brasil que se reinventa no detalhe, que aprende a fazer mais com menos e que mesmo quando pisa no freio encontra jeitos inteligentes de seguir em frente”, finaliza

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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