Reforma Tributária inicia testes em janeiro e pode fazer empresas pagarem pelo erro fiscal de fornecedores

Reforma Tributária inicia testes em janeiro e pode fazer empresas pagarem pelo erro fiscal de fornecedores

Nova etapa exige atualização tecnológica imediata e coloca a conformidade dos parceiros no centro da estratégia financeira corporativa

A partir de 5 de janeiro, empresas de todos os setores iniciarão a adaptação ao novo modelo digital de cobrança de tributos previsto pela Reforma Tributária, que exigirá revisão de sistemas, atualização de cadastros, integração financeira e alinhamento tecnológico com o fisco. Embora o recolhimento dos novos tributos só passe a valer em 2027, o próximo ano marca o início da fase técnica da transição e chega acompanhado de um efeito colateral que pode impactar diretamente o custo das operações: a dependência da conformidade fiscal dos fornecedores.

No novo sistema, se um parceiro na cadeia de suprimentos não recolher o imposto devido, a empresa contratante perde o direito ao crédito e, na prática, “paga a conta pelo erro do outro”. O alerta foi feito por Evandro Gonçalves, CEO da Datatem, empresa especialista em conectividade e tecnologia de gestão, durante encontro que reuniu especialistas para esclarecer o que muda na operação e nos custos com a Reforma Tributária, quais pontos exigem ação imediata e porque áreas como TI, compras e operações passarão a ser tão impactadas quanto o financeiro.

Segundo Gonçalves, a maturidade fiscal e tecnológica dos fornecedores deixa de ser apenas uma boa prática e se torna parte da estratégia financeira das empresas.

“Acabou a era da confiança cega. A partir de 2026, a conformidade fiscal do seu fornecedor é um problema seu. Perguntar sobre a maturidade tecnológica e fiscal do parceiro antes de contratar deixou de ser boa prática e virou uma questão de sobrevivência financeira”.

Ele também reforça que as adequações não podem ser deixadas para 2027. “Os testes começam em 2026. Se a sua empresa e seus fornecedores não estiverem prontos para trocar informações fiscais de forma correta, o prejuízo virá rápido, seja por perda de crédito, seja por retrabalho operacional”.

Apuração em tempo real muda a rotina de crédito

O tributarista e fundador da ROIT, Lucas Ribeiro, que desde 2019 acompanha as discussões sobre Reforma e colaborou com grupos técnicos do Congresso e da Receita Federal, alerta que o modelo de apuração assistida será a espinha dorsal da nova estrutura tributária. Em vez de o contribuinte prestar contas ao fisco, será o próprio sistema público que cruzará documentos fiscais e pagamentos para calcular créditos e débitos.

“Ao invés de nós prestarmos conta para o fisco, é o fisco que vai prestar conta para nós”, disse Ribeiro.

O crédito, até então escritural, passa a ser financeiro: só poderá ser apropriado quando o imposto estiver efetivamente pago pelo fornecedor. “Se o meu fornecedor não recolhe o tributo, eu não tomo crédito”, afirmou. A mudança exige que empresas revisem políticas de pagamento e controle de fornecedores para garantir que o crédito seja liberado apenas quando o sistema indicar quitação.

O chamado Registro de Operação de Consumo (ROC) será o novo ponto de encontro entre a nota fiscal e o pagamento. Na prática, toda transação comercial terá de ser “confirmada” quando o dinheiro sair da conta do comprador, criando um elo direto entre o documento fiscal e a quitação financeira. Isso significa que o fisco passará a enxergar cada operação do início ao fim, eliminando brechas para sonegação e inconsistências.

Para as empresas, o ROC exigirá integração total entre os sistemas fiscal e financeiro, já que o ERP precisará vincular essa chave ao pagamento e devolver ao sistema público a informação de que a operação foi efetivamente concluída. A contabilidade e a tesouraria terão de conversar em tempo real e a falta dessa conexão poderá travar o crédito tributário ou gerar autuações automáticas.

“O crédito tributário vai deixar de ser uma presunção e passará a ser uma consequência do recolhimento efetivo na etapa anterior. Se o seu fornecedor comete um erro ou age de má-fé e não recolhe o imposto, o direito ao crédito simplesmente não nasce. Para o Fisco, o ônus da prova – e o prejuízo financeiro – recai sobre o cliente, que não terá como abater o imposto que pagou”.

Marco tecnológico

Lucas definiu o ano de 2026 como um marco tecnológico. “Nós estamos prestes a viver a maior virada tecnológica da história tributária do Brasil. É o momento em que o país inteiro vai falar a mesma língua de dados. E isso não é exagero. Quando o IBS e a CBS estiverem rodando, nós teremos um Brasil totalmente digitalizado em matéria de tributos. A diferença entre quem estiver preparado e quem não estiver vai ser brutal”.

A primeira fase da Reforma será dedicada à adaptação técnica. Na prática, as empresas terão de atualizar layouts, preparar os ERPs (sistemas de gestão empresarial) e garantir compatibilidade com os eventos fiscais que alimentarão a apuração assistida — o novo sistema que exibirá em tempo real os débitos de quem vende e os créditos de quem compra. Entre as mudanças previstas, estão a criação de novos documentos fiscais — como a NF3e (nota fiscal de energia elétrica) e a NFCON (nota de consumo) — e a introdução do cClassTrib, um código de classificação tributária padronizada que substituirá as antigas tabelas de enquadramento e definirá automaticamente como cada operação será tributada no novo sistema.

O código funcionará como uma “etiqueta fiscal”, identificando se o item é tributado integralmente, se tem redução, isenção ou outro regime especial, e será obrigatório em todas as notas a partir de 2026.

“As notas recebidas em 2026 já virão em novo padrão. Se você importa XML, vai dar divergência”, alertou Ribeiro, destacando que as empresas precisarão revisar cadastros e atualizar seus ERPs para suportar a nova linguagem fiscal.

Split payment antecipa saída de caixa

Outro mecanismo em desenvolvimento é o split payment, em que a instituição financeira separa automaticamente a parte do tributo no momento do pagamento ao fornecedor, remetendo o valor diretamente ao fisco. A medida evita inadimplência tributária, mas antecipa a saída de caixa das empresas. “O fisco sempre vai receber primeiro. Se o fisco está recebendo antes, alguém vai ter que pagar antes. Alguém vai ser afetado em capital de giro”, alertou o tributarista. As companhias precisarão revisar prazos de pagamento e simular o impacto da retenção automática sobre o fluxo financeiro.

Enquanto o split payment ainda não estiver em uso pleno, as empresas terão de recorrer a um mecanismo provisório chamado Recolhimento em Nome do Fornecedor (RAD). Nesse modelo, o comprador pode pagar o imposto diretamente ao governo em vez de depender de que o fornecedor o faça, garantindo o direito ao crédito tributário. “Não é retenção, é algo facultativo e precisa estar nos contratos”, explicou Ribeiro. A diferença é sutil, mas importante: o RAD não transfere a responsabilidade do tributo, apenas permite que o comprador se proteja caso o vendedor não cumpra a obrigação.

A adoção do mecanismo exigirá atenção redobrada das áreas jurídica, fiscal e de compras, que precisarão incluir cláusulas específicas nos contratos para definir quem recolhe, quem arca com juros e multas e como será feita a compensação. No campo tecnológico, os ERPs também precisarão acompanhar esse novo fluxo, registrando pagamentos feitos em nome de terceiros e conciliando essas informações na apuração assistida.

Confirmação de recebimento vira obrigação

Outro ponto que demandará atenção imediata das empresas é a confirmação de recebimento da mercadoria ou serviço, chamada de manifesto do documento fiscal. A sigla MD-e (Manifesto do Documento Eletrônico) se tornará obrigatória em todas as operações e funcionará como um registro formal de que o comprador reconhece o recebimento da nota e valida a operação junto ao fisco.

Segundo Lucas Ribeiro, o procedimento deixará de ser opcional e passará a ter impacto direto na apuração dos tributos. “Ele vai passar a ser obrigatório, porque se eu não fizer terei multa de uma Unidade Padrão Fiscal dos Tributos sobre Bens e Serviços (UPF), índice usado para calcular penalidades fiscais. Cada UPF vale R$200, então imagine o impacto de receber essa multa por cada documento fiscal que não teve confirmação”.

O especialista acrescentou que, além da obrigatoriedade de manifestar o recebimento, o procedimento alimentará o novo modelo de apuração assistida, no qual o fisco cruzará as informações de nota fiscal, pagamento e confirmação de recebimento. “É provável que o serviço também entre nisso, porque vai alimentar a apuração assistida. Temos que ter mecanismos, processos novos, procedimentos estruturados no financeiro, no fiscal e no contábil”, afirmou.

A exigência obriga as empresas a repensarem seus fluxos de compras e recebimento. Os sistemas precisarão notificar automaticamente cada nota recebida e gerar uma tarefa para o responsável confirmar o recebimento dentro do prazo legal. Cancelar uma nota fora deste prazo também terá custo alto: multa de 33% do valor do tributo.

Infraestrutura pública e integração digital

A nova estrutura tributária exigirá também uma transformação tecnológica do Estado. A Receita Federal está construindo uma nuvem soberana, ambiente computacional próprio e isolado de provedores estrangeiros, destinado a processar o volume de dados fiscais que o modelo de apuração assistida vai gerar. “A Receita Federal investiu mais de R$ 1 bilhão em desenvolvimento e tem mais de R$ 2,5 bilhões para o ano que vem”, disse Ribeiro, ressaltando que a base de dados do fisco passará a operar em arquitetura de alta disponibilidade, com camadas de integração diretas com o setor privado.

O Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) é o responsável por desenvolver e operar essa infraestrutura, criando os mecanismos de comunicação entre os sistemas públicos e os ERPs das empresas. Segundo o tributarista, as primeiras integrações já estão em fase de testes. Essas interfaces permitirão que as empresas enviem e recebam dados em tempo real, validando notas fiscais, créditos e pagamentos diretamente com os servidores do governo. A promessa é de maior precisão na apuração, mas o desafio será acompanhar a velocidade das atualizações.

“O Serpro vai mudar layouts o tempo inteiro. Então, quem não tiver controle de versão, fila de envio e rastreabilidade vai ter problema”, conclui Ribeiro.

Crédito da foto: Pixabay

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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