Crédito cresce, mas governança não acompanha
Ausência de infraestrutura de governança desde a originação pode transformar crescimento rápido em passivo oculto
O ecossistema de crédito brasileiro entra em 2026 com uma contradição estrutural que começa a aparecer nos dados: nunca houve tanto capital disponível para emprestar, mas o índice de inadimplência segue pressionado e a maioria das empresas que tenta entrar no mercado de crédito trava antes de escalar. O movimento já é visível nas projeções do setor e aponta para uma mudança na forma como o mercado precisa entender o que separa uma operação de crédito sustentável de uma aposta mal dimensionada.
Segundo a Febraban, os bancos projetam crescimento de 8,2% na carteira de crédito em 2026, enquanto a inadimplência deve subir de 5,1% para 5,2%. O volume segue em expansão, mas o padrão de risco evoluiu e, com ele, o tipo de erro que compromete operações inteiras, sejam elas de bancos, fintechs ou empresas não financeiras que passaram a oferecer crédito com a própria marca.
Na leitura de Uilan Coqueiro, CEO da Ukamsoft e especialista em infraestrutura de crédito, o problema central não é de capital, mas sim de arquitetura. “O Brasil tem demanda reprimida e funding disponível. O que falta, na maioria dos casos, é governança desde a origem. Empresas estão descobrindo que oferecer crédito sem rastreabilidade e compliance estruturado é como construir um prédio sem fundação: cresce rápido, mas o risco está embutido em cada tijolo“, afirma Coqueiro.
O pano de fundo dessa leitura é a aceleração da oferta de crédito por empresas fora do sistema financeiro tradicional. Dados de consultorias como Deloitte e Celcoin estimam que o mercado brasileiro de serviços financeiros integrados pode gerar R$ 24 bilhões em receita adicional até 2026, com potencial de oferta de crédito por plataformas não financeiras ultrapassando R$ 83 bilhões, especialmente entre PMEs e público de classe C, historicamente subatendido pelo sistema tradicional.
Na prática, isso cria um dos principais vetores de risco da expansão do crédito
Varejistas, marketplaces e plataformas digitais que entram no mercado de crédito sem infraestrutura adequada de gestão de carteira, conformidade regulatória e auditabilidade de ponta a ponta acumulam passivos que só aparecem quando a operação já está em escala e o custo de correção é exponencialmente maior. “Quando o financeiro deixa de ser gargalo e passa a fazer parte da experiência do cliente, os efeitos aparecem em retenção, ticket médio e previsibilidade de receita. Mas para chegar lá com segurança, a governança precisa estar presente desde a primeira simulação“, explica Coqueiro.
Embora a tecnologia tenha reduzido drasticamente o tempo de entrada no mercado de crédito, a maturidade operacional para gerenciar uma carteira não acompanhou o mesmo ritmo. Com APIs e infraestruturas prontas, é possível lançar um produto de crédito em semanas, mas sem políticas de análise customizadas, monitoramento contínuo e mecanismos antifraude robustos, o risco se acumula silenciosamente nos ativos.
Em alguns casos, gargalo deixa de ser comercial e passa a ser estrutural
Outro fator que amplifica essa vulnerabilidade é a sofisticação crescente dos parceiros financeiros. Bancarizadoras, SCDs e fundos que lastreiam essas operações passaram a exigir trilhas de decisão auditáveis e integridade de dados de ponta a ponta como condição para manter ou ampliar o funding. Quando essa exigência não é atendida, o gargalo deixa de ser comercial e passa a ser estrutural.
A dinâmica também reflete uma mudança de comportamento do próprio mercado. Em um cenário de maior acesso a crédito e de juros ainda elevados, a Selic segue acima de dois dígitos, cresce o número de empresas que enxergam no crédito uma alavanca estratégica de fidelização e receita, mas sem incorporar à operação a lógica de compliance e rastreabilidade que esse papel exige.
Com a aceleração das projeções de crescimento do setor, a tendência é de entrada de novos players sob pressão competitiva, cenário historicamente associado ao afrouxamento de critérios de concessão. Neste ciclo, porém, o impacto pode ser mais severo, justamente pela exigência crescente de defensibilidade técnica por parte de investidores e reguladores. A recomendação é tratar a infraestrutura de governança com o mesmo nível de atenção dado ao produto financeiro em si e garantir que a operação seja auditável desde o primeiro contrato originado.
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