Ano Novo Chinês pressiona cadeias globais e exige estratégia financeira antecipada das empresas brasileiras

Ano Novo Chinês pressiona cadeias globais e exige estratégia financeira antecipada das empresas brasileiras
As exportações de calçados diminuíram em valor apesar da alta do dólar.

Com China respondendo por 25,3% das importações do Brasil paralisação sazonal em fevereiro impacta estoques contratos e fluxo de caixa

A China respondeu por 25,3% de todas as importações brasileiras em 2025, somando cerca de US$ 70,9 bilhões em mercadorias, segundo dados consolidados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Principal fornecedora de insumos industriais, componentes eletrônicos e bens intermediários ao Brasil, o país asiático reduz drasticamente o ritmo de produção e embarques durante o Ano Novo Chinês, celebrado entre janeiro e fevereiro.

A paralisação parcial de fábricas, portos e transportadoras pressiona cadeias produtivas globais e impõe riscos diretos a empresas brasileiras dependentes desse fluxo.

Para Murillo Oliveira, especialista em investimentos e Head of Treasury da Saygo, holding brasileira de comércio exterior e câmbio, o impacto vai além do calendário cultural. “O Ano Novo Chinês é previsível, mas o efeito financeiro costuma ser subestimado. Quando a empresa não antecipa compras nem estrutura capital de giro, o atraso no embarque vira ruptura de estoque e pressão sobre contratos locais”, afirma.

O feriado oficial dura cerca de uma semana, mas o efeito operacional pode se estender por até três semanas, considerando a retomada gradual das atividades e o acúmulo de pedidos. 

Indústrias que trabalham com estoques enxutos ou produção sob demanda tendem a sentir o impacto com mais intensidade, especialmente em um cenário de fretes ainda elevados e maior disputa por espaço em navios e portos.

“Não é só a fábrica que fecha. A cadeia inteira desacelera, do fornecedor de matéria-prima ao operador logístico”, diz Oliveira.

Planejamento transforma risco em vantagem

Segundo o executivo, empresas mais organizadas utilizam o período como instrumento estratégico. “Quem entende o ciclo chinês negocia volumes antes do feriado, diversifica fornecedores e trava câmbio com antecedência. Isso reduz volatilidade e transforma risco em vantagem competitiva”, explica.

Ele destaca que a gestão de tesouraria precisa estar alinhada ao calendário internacional. “Se a companhia sabe que haverá interrupção em fevereiro, precisa revisar projeções de caixa ainda no último trimestre do ano anterior. É uma decisão estratégica, não apenas operacional”, pontua.

O especialista mostra cinco medidas estratégicas para proteger margens e evitar rupturas no Ano Novo Chinês

Antes de listar as recomendações, Murillo reforça que o erro mais comum é tratar o evento como imprevisto. Para ele, a integração entre compras, logística e finanças é o que define o nível de exposição ao risco.

  1. Antecipação de pedidos e revisão de estoques
    Ao programar compras com antecedência, a empresa reduz o risco de ruptura e evita contratações emergenciais de frete, que tendem a custar mais caro após o feriado.
  2. Diversificação de fornecedores internacionais
    Buscar alternativas em outros países asiáticos ou até em fornecedores regionais diminui a dependência exclusiva da China e amplia poder de negociação.
  3. Proteção cambial estruturada
    Oscilações do dólar em períodos de incerteza podem corroer margens. Instrumentos como hedge e contratos a termo ajudam a manter previsibilidade financeira.
  4. Revisão de cláusulas contratuais
    Inserir previsões sobre atrasos logísticos e prazos de embarque reduz risco jurídico e facilita renegociações quando há impacto no cronograma.
  5. Contratação de assessoria especializada
    Empresas de comércio exterior e consultorias financeiras conseguem mapear riscos, organizar documentação e alinhar estratégia cambial à operação logística.

“Contratar uma empresa especializada não é custo, é seguro operacional. Ela ajuda a prever gargalos, organizar capital de giro e evitar que o calendário internacional comprometa resultados”, afirma o especialista.

Murillo lembra que o ambiente internacional segue marcado por tensões geopolíticas, políticas protecionistas e reconfiguração de rotas comerciais. Nesse contexto, qualquer interrupção sazonal amplia seus efeitos. “Em um cenário de disputa por espaço logístico e volatilidade cambial, o empresário que depende da China precisa enxergar o Ano Novo como parte do planejamento anual”, diz.

Ele acrescenta que o período também pode gerar oportunidade. Empresas que se antecipam conseguem negociar melhores condições antes do pico de demanda global. “Planejamento é o que separa quem sofre impacto de quem ganha mercado”, conclui.

Com a China concentrando mais de um quarto das importações brasileiras, o Ano Novo Chinês deixa de ser apenas uma data cultural e passa a integrar a agenda estratégica das companhias. 

Em um comércio internacional sensível a prazos, custos e previsibilidade financeira, antecipação e inteligência na gestão tornam-se ativos decisivos para preservar competitividade e proteger margens.

 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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