Inflexão econômica e dinâmica eleitoral brasileira

Gilmar Mendes Lourenço.
Um breve apanhado das principais estatísticas relativas ao comportamento da economia brasileira, no exercício de 2025, não deixa dúvidas quanto a conformação de um clima de moderada desaceleração dos níveis de atividade, em consequência primordialmente dos efeitos da política de juros elevados, conduzida pela autoridade monetária.
O índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), indicador que traduz uma prévia do produto interno bruto (PIB) cresceu 2,5%, em 2025, ante 3,7%, em 2024, graças ao empuxe de 13,1% da agropecuária, dado que indústria e serviços acusaram velocidade reduzida de 1,5% e 2,1%, respectivamente.
De fato, ao contaminar de maneira multiplicada os demais elos da cadeia financeira, dada a ainda diminuta concorrência bancária prevalecente no país, a normalização da majoração e preservação da Selic nas alturas, vem, desde o princípio do segundo semestre de 2025, engendrando um autêntico freio ao consistente ritmo de recuperação dos negócios, observado desde fins de 2022, desdobrado em escalada do endividamento e inadimplência.
No entanto, os números também sugerem alguma fadiga dos mecanismos de indução à ampliação da massa de rendimentos e, por extensão, do consumo das famílias, assentados na reciclagem e adensamento das iniciativas oficiais de transferência direta de renda, sem a imprescindível correção operacional das distorções do Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada, abono salarial e seguro-desemprego.
Pelo ângulo da oferta, depois de subir 3,1%, em 2024, a produção industrial, levantada pelo IBGE, experimentou acréscimo de apenas 0,6%, no ano passado, puxada por bens intermediários (1,5%) e duráveis (2,5%), impulsionados por automóveis. Em paralelo, os ramos de bens de investimento e de consumo não duráveis e semiduráveis amargaram retração de -1,5% e -1,7%, respectivamente.
Com isso, a atividade fabril situou-se 0,6% acima do nível anterior ao surto de Coronavírus (estabelecido como fevereiro de 2020), porém 16,3% abaixo do recorde atingido em maio de 2011, sob os auspícios da Nova Matriz Econômica do governo de Dilma Rousseff, que oportunizou a maior e mais longa recessão dos tempos republicanos.
Convém assinalar que o avanço de 4,9% da classe extrativa, em especial de petróleo, e a contração de -0,6% das divisões de transformação, corrobora, em simultâneo, os sintomas de desindustrialização, a intensificação da subordinação produtiva a produtos primários e semielaborados e o desperdício das oportunidades de promoção de mutação estrutural, por meio da utilização dos recursos naturais em benefício da inovação e agregação de valor.
Os resultados para outras variáveis de desempenho industrial, apurados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), também confirmam o quadro de perda de embalo setorial, em 2025, precisamente o declínio de -0,1%, -2,1%, e -3,6%, no faturamento, massa de salários e rendimento médio dos trabalhadores, respectivamente, descontada a inflação.
Enquanto a quantidade de horas trabalhadas na produção e o nível de emprego subiram 0,8% e 1,6%, respectivamente, o grau de utilização da capacidade instalada caiu de 75,3% para 72,6%, na série original, e de 78,7% para 76,8%, no parâmetro que retira os efeitos de sazonalidade, entre os meses de dezembro de 2024 e dezembro de 2025.
No terreno da demanda, as exportações nacionais, avaliadas em dólares, aumentaram 3,3%, notadamente as de bens de consumo e de capital (15,0% e 5,9%), respectivamente, malgrado o acréscimo de apenas 1,8% para bens intermediários, que respondem por praticamente a terça parte do valor total da pauta.
Mais detalhadamente, percebe-se que as vendas externas para a China, que representam quase 30% do total, variaram 5,9%, enquanto que aquelas direcionadas aos Estados Unidos encolheram -6,7%, por conta do mega tarifaço de Trump, o que fez a participação do mercado americano no total comercializado pelo Brasil na fronteira externa diminuir de 12,0% para 10,8%, entre 2024 e 2025, ainda permanecendo como o segundo maior parceiro comercial.
Já as vendas reais do comércio de varejo registraram acréscimo de apenas 0,1%, em 2025, versus 3,7%, em 2024, sustentadas por eletrodomésticos (7,5%), artigos farmacêuticos e de perfumaria (4,5%), equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação (4,1%), e super e hipermercados (1,1%), contrastando com recuos expressivos em veículos e motos, peças e partes (-2,9%) e atacado de produtos alimentícios, bebidas e fumo (-2,3%).
O IBGE também constatou variação de 2,8% nos serviços, em 2025, contra 3,1%, em 2024, movida notadamente por transportes aéreos (15,6%), tecnologia da informação (12,2%) e serviços técnico-profissionais (3,9%), sendo que a atividade mais importante, destinada ao atendimento das famílias, cresceu apenas 1,1%.
Ao exibir performance positiva pelo quinto ano seguido, o setor alcançou patamar 19,6% superior ao considerado tecnicamente como pré-pandemia, em fevereiro de 2020, só que 0,4% inferior ao maior volume experimentado na série histórica, alcançado em novembro de 2025.
Também de acordo com o IBGE, o pulo nas divisões ligadas à tecnologia foi bastante diversificado, abarcando portais, provedores de conteúdo e outros serviços de informação na Internet, desenvolvimento e licenciamento de softwares, consultoria em TI, tratamento de dados, suprimento de serviços de hospedagem na Internet, produção de programas de computador sob encomenda, e suporte técnico, manutenção e outros serviços.
Na mesma linha de acomodação do consumo, sondagem efetuada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), revelou salto no endividamento das famílias brasileiras de 76,1% para 79,5%, entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, avanço nas contas em atraso (média de 65 dias) de 29,1% para 29,3%, e estabilização em 12,7% das assinalações de não disponibilidade financeira para colocação das contas em dia.
Um complicador adicional reside nas dívidas com cartão de crédito, que passaram de 83,9% para 85,4%, em um intervalo de um ano, que, na modalidade do rotativo, cobram os maiores juros médios dentre os vários tipos de financiamento, estimados em quase 440% ao ano pelo Banco Central (BC).
Em semelhante perspectiva, trabalho da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil atestou a existência de 73,30 milhões de consumidores negativados em janeiro de 2026, o maior contingente da história, o que corresponde a incremento de 9,39% em relação ao mesmo mês de 2025.
O ambiente conjuntural menos promissor já começa afetar o estado de humor da comunidade corporativa. Tanto que, em fevereiro de 2026, o índice de confiança do empresário industrial (Icei), aferido pela CNI, permaneceu pelo 14º mês consecutivo na zona de pessimismo, conforme manifestação dos empresários consultados, ficando em 48,2 pontos, lembrando que o indicador varia entre zero e 100 pontos, denotando falta de ânimo quando situa-se abaixo de 50 pontos.
A consolidação ou reversão desse panorama inóspito serão determinantes para as apostas eleitorais na roleta polarizada, de novo, em 2026, na ausência de opções viáveis equidistantes dos extremos com chances de beliscar expressiva fração de lulistas e de apoiadores incondicionais do ex-incumbente.
O elenco de governadores desejosos da cadeira de chefe de estado entre 2027 e 2030 não consegue se desvencilhar de bandeiras desbotadas, que estampam ideias fixas de privatizações de estatais tanto deficitárias quanto rentáveis, educação para poucos e com emblema arcaico do civismo e militarismo e, o que é mais grave, eterna reverência ao obscurantismo do passado recente e às atitudes de Donald Trump, desprezado, de maneira aberta ou velada pelo resto do mundo.
Lembre-se que o trumpismo está ferrenha e perpetuamente empenhado em empreendimento personalista, autoritário e atrevido, ancorado no enfraquecimento do aparato político e jurídico, no afã de maximização dos poderes do agente encarregado do governo, sob a justificativa de obtenção de autorização popular em evento eleitoral majoritário.
O êxito desses propósitos não exige o encaminhamento de forças militares às ruas, sendo viabilizados pela assinatura de decretos presidenciais, nomeações destituídas de princípios rasteiros de racionalidade, ações discricionárias e intimidatórias dirigidas à mutação do modus operandi e destruição dos anticorpos da democracia norte-americana.
Na prática, a vontade de Trump compreende o desmantelamento da ordem internacional. assegurada, desde o fim da segunda guerra, pelo multilateralismo, aprofundamento da integração econômica e reconhecimento da natureza estratégica da defesa do meio ambiente e dos direitos humanos.
Nessas circunstâncias, no contexto eleitoral brasileiro, perfila-se, de um lado, o postulante à reeleição amparado na perenização do populismo redistributivista, e, de outro, o novo líder da família do ex-mandatário preso, proprietário da plataforma anacrônica e autoritária, levada a cabo entre 2019 e 2022 e maquiada com retórica de moderação.
Partindo dos pressupostos de calcificação dos pouco mais e menos de 1/3 das intenções de voto nos agentes hospedados na extrema esquerda e direita, respectivamente, e de não ocorrência de alterações relevantes na vontade da direita tradicional, lulista e bolsonarista, expressa em 2022, parece razoável admitir que o X da questão subjacente ao embate eleitoral será equacionado, mais uma vez, pela sedução do grupo do sufrágio absolutamente independente.
Trata-se daquelas pessoas alojadas no centro do espectro político, normalmente desacorçoadas, com sentimento de não representadas pelas tradicionais alternativas políticas – em face da prolongada entressafra de personalidades capazes e dignas – e correspondentes instituições, que podem votar em branco, nulo ou mesmo preferir não comparecer ao pleito, sobretudo no segundo turno.
Em contexto de potencialização da radicalização, os pejorativamente denominados de “isentos” podem ser cruciais à definição do quadro sucessório se forem atraídos por plataformas críveis que extrapolem o imediatismo demagógico e recoloquem uma agenda contemporânea e plural de prioridades na mesa de debates de ideias.
Parece inescapável o compromisso com o equilíbrio fiscal e a estabilização da dívida pública, a impulsão da produtividade, o tenaz combate à desigualdade e aos privilégios, a formação educacional voltada à cidadania, a qualificação/capacitação profissional, a desobstrução dos gargalos e modernização da infraestrutura, a ampliação das concessões públicas e a transição energética, dentre outros temas portadores de futuro.
Até porque, não é exagerado sublinhar que há praticamente um empate técnico nos medidores de rejeição e medo, aferido por inquérito opinativo feito pela Genial/Quaest junto a 2.004 eleitores, em 120 municípios, entre os dias 5 e 9 de fevereiro de 2026.
Enquanto Lula é repudiado por 54% da população e Flávio por 55%, 41% apontam o sentimento de temor de Lula 4 e 44% receiam a volta triunfal da “grande família”. A distinção entre ambos reside no potencial de votos, com Lula desfrutando de 42% e Flávio de 36%.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.







