Juros altos seguem travando o crescimento e mantêm o Brasil refém da Selic

Juros altos seguem travando o crescimento e mantêm o Brasil refém da Selic

Taxas elevadas encarecem o crédito travam investimentos e exigem decisões financeiras mais estratégicas das companhias

Mesmo após quase três décadas do Plano Real, o Brasil convive com juros estruturalmente elevados como principal instrumento de controle inflacionário. Dados do IBGE mostram que a inflação acumulada pelo IPCA desde 1994 supera 700%, o que representa perda superior a 85% do poder de compra da moeda. Esse histórico ajuda a explicar a postura mais conservadora da política monetária e a manutenção da Selic em níveis elevados por longos ciclos.

No cenário atual, a cautela do Banco Central do Brasil está ligada à combinação entre inflação ainda pressionada, expectativas parcialmente desancoradas e incertezas fiscais. Com o índice de preços orbitando o teto da banda de tolerância de 4,5%, frente à meta central de 3%, a autoridade monetária opta por preservar credibilidade e previsibilidade, mesmo ao custo de desacelerar a atividade econômica.

Para Beny Fard, engenheiro, especialista em finanças e CEO da fintech DeFin, o país ainda paga o preço de desequilíbrios históricos. “O juro alto virou uma espécie de seguro institucional. Ele protege a moeda, mas penaliza o investimento produtivo e empurra empresas para decisões defensivas”, afirma.

O ambiente internacional reforça essa postura. A política monetária dos Estados Unidos segue exercendo influência direta sobre economias emergentes. A sinalização de juros elevados por mais tempo pelo Federal Reserve fortalece o dólar, pressiona o câmbio e encarece importações, afetando expectativas inflacionárias domésticas.

Segundo o especialista, esse cenário reduz o espaço de manobra do Brasil. “Quando o juro americano permanece alto, cortes precipitados aqui tendem a gerar fuga de capital e volatilidade cambial. O Banco Central acaba sendo forçado a agir de forma defensiva”, diz.

Esse contexto se reflete na curva de juros doméstica, especialmente nos vencimentos mais longos, que incorporam prêmios elevados de risco. Os efeitos chegam rapidamente à economia real. Crédito mais caro desestimula consumo, adia investimentos e eleva o custo médio de capital das empresas. Em muitos casos, torna-se financeiramente mais atraente aplicar recursos em títulos públicos do que investir em expansão, inovação ou aumento de capacidade produtiva. “A Selic alta distorce a lógica empresarial. O retorno financeiro sem risco passa a competir diretamente com o investimento no próprio negócio”, avalia Fard.

No campo fiscal, o impacto é ainda mais sensível. Com a dívida bruta do governo geral se aproximando de R$ 9 trilhões, grande parte indexada à Selic, cada ponto percentual adicional eleva de forma significativa o custo de rolagem.

Isso reduz o espaço para políticas públicas e amplia a sensibilidade do mercado a qualquer sinal de deterioração fiscal. Embora política monetária e fiscal sejam formalmente independentes, a percepção de risco influencia diretamente o nível de juros exigido pelos investidores.

Diante desse cenário prolongado de juros elevados, empresas precisam ir além do ajuste tático de curto prazo e adotar uma postura mais estruturada de gestão financeira. “Juros altos não são apenas um problema macroeconômico. Eles exigem maturidade financeira, leitura de risco e decisões mais criteriosas para atravessar ciclos longos de aperto monetário”, afirma o especialista.

O especialista aponta cinco pontos de atenção para empresas em um ambiente de Selic elevada

Antes de adotar medidas pontuais, a recomendação é que as companhias façam uma revisão ampla da estrutura financeira, buscando previsibilidade e resiliência no médio e longo prazo.

  1. Reavaliar o custo real do capital
    Projetos precisam ser recalculados com taxas de desconto mais altas e premissas mais conservadoras. “Muitos investimentos que pareciam viáveis em um ambiente de juros baixos passam a destruir valor quando o custo do dinheiro sobe”, alerta.
  2. Renegociar dívidas e alongar prazos
    Reduzir a exposição a dívidas pós-fixadas e buscar alongamento de passivos ajuda a diminuir a volatilidade financeira. Segundo ele, entender a indexação da dívida é tão relevante quanto o volume contratado.
  3. Separar capital operacional de capital estratégico
    Misturar caixa de giro com recursos destinados a investimento aumenta o risco financeiro. “Empresas que não fazem essa separação tendem a perder eficiência e margem justamente quando o ambiente fica mais restritivo”, afirma.
  4. Contratar assessoria especializada
    A escolha de empresas com experiência em estruturação financeira e crédito é decisiva. O alerta é para soluções genéricas. “Cada negócio tem uma dinâmica própria de risco, fluxo de caixa e financiamento. Não existe resposta única”, diz.
  5. Avaliar alternativas ao crédito bancário tradicional
    Mercado de capitais, estruturas privadas de crédito e soluções híbridas podem oferecer condições mais adequadas. “O erro é achar que o banco é sempre a única porta. Hoje existem instrumentos mais eficientes para empresas bem estruturadas”, conclui.

A redução sustentável da taxa de juros no Brasil depende de fatores que vão além do ciclo econômico imediato, como inflação convergindo de forma consistente para a meta, previsibilidade fiscal, estabilidade institucional e segurança jurídica.

Até que esse ambiente se consolide, a Selic tende a cair de forma gradual e condicionada. Sem enfrentar as causas estruturais, o país corre o risco de perpetuar o ciclo histórico de juros altos, baixo crescimento e perda de competitividade, um cenário que exige das empresas mais estratégia e menos improviso.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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