Boleto perde espaço nas cobranças condominiais com avanço do Pix e dos pagamentos digitais

Com inadimplência nos condomínios brasileiros próxima de 12%, síndicos e administradoras buscam nos meios de pagamento digitais uma forma de reduzir atrasos e simplificar a cobrança mensal
A digitalização dos pagamentos que transformou o varejo e os serviços no Brasil nos últimos anos chega agora com força ao setor condominial. O boleto bancário, por décadas o meio quase exclusivo de cobrança das taxas de condomínio, divide cada vez mais espaço com Pix, cartão e pagamentos por aproximação, num movimento que reflete tanto a mudança de comportamento dos moradores quanto a pressão crescente sobre o caixa dos condomínios. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), os pagamentos por aproximação responderam por 73,6% de todas as compras com cartão no Brasil em 2025, ante 5,4% em dezembro de 2020.
O cenário de inadimplência reforça a urgência da modernização. Levantamento da uCondo com dados de aproximadamente 7 mil condomínios em todo o país mostra que a taxa de atrasos superiores a 30 dias chegou a 11,95% no primeiro semestre de 2025, o maior patamar desde o início da série histórica, em 2022, e a projeção para 2026 é de que o índice se mantenha próximo de 11%.
Para se ter dimensão do problema, o Censo Condominial 2025/2026, elaborado com dados do IBGE, da Receita Federal e da plataforma uCondo, aponta que o Brasil tem 327.248 condomínios ativos com cerca de 39 milhões de moradores — uma população equivalente à da Argentina convivendo com uma inadimplência estrutural que compromete obras, contratos e a previsibilidade de caixa de síndicos e administradoras.
Novos meios de pagamento
A transformação nos hábitos de pagamento aponta um caminho para aliviar esse cenário. No primeiro semestre de 2025, o Pix registrou 36,9 bilhões de transações, consolidando-se como a principal infraestrutura de pagamentos do país. Parte desse volume já chegou aos condomínios: administradoras e sistemas de gestão condominial passaram a oferecer boletos híbridos com QR Code Pix embutido, permitindo que o morador pague a taxa em segundos pelo aplicativo do banco, sem precisar lembrar do vencimento ou se deslocar a uma agência.
“O condomínio é uma das despesas mais recorrentes na vida do brasileiro, e qualquer atrito no momento do pagamento aumenta o risco de atraso”, afirma Rodrigo Graça de Melo, Vice-presidente de produtos e negócios da Multipagamentos. “Quando o morador consegue quitar a taxa em segundos, pelo celular, sem boleto para imprimir e sem fila, a tendência natural é pagar em dia.”
A tecnologia também abre espaço para soluções de recorrência. Em junho de 2025, o Banco Central lançou o Pix Automático, que permite o agendamento de cobranças periódicas com uma única autorização do pagador. Aplicado às taxas condominiais, o recurso funciona de forma análoga a um débito automático: o valor é debitado na data de vencimento sem ação manual do morador, reduzindo esquecimentos e dando ao condomínio previsibilidade de receita mês a mês.
“Ferramentas como o Pix Automático mudam a lógica da inadimplência no setor condominial”, explica o executivo. “Em vez de depender de o morador lembrar do vencimento todo mês, o pagamento acontece de forma automática, com uma única autorização. Isso traz regularidade para o caixa do condomínio e elimina um ponto de atrito desnecessário para quem mora lá.”
Para síndicos e administradoras, a adoção de meios digitais exige atenção à governança. O uso de chaves Pix vinculadas ao CNPJ do condomínio, e não ao CPF do síndico, garante rastreabilidade e evita riscos jurídicos. A integração com sistemas de gestão condominial permite conciliação automática dos recebimentos, reduzindo retrabalho e aumentando a transparência nas prestações de conta em assembleia. Nesse contexto, o papel das plataformas de pagamento é justamente oferecer essa estrutura de forma acessível, independentemente do porte do condomínio.
“O setor condominial segue o mesmo movimento de toda a economia: pagar precisa ser simples, seguro e quase invisível”, conclui Rodrigo Graça de Melo. “Condomínios que facilitam o pagamento colhem resultados diretos na inadimplência. E com as ferramentas disponíveis hoje, essa modernização está ao alcance de qualquer administradora, seja ela responsável por dez ou por mil unidades.”








