Queda de 1,83% do ouro expõe pressão entre guerra, inflação e Fed

A queda desta quarta-feira significa uma disputa entre dois medos: o medo geopolítico, que favorece o ouro, e o medo de juros altos, que pressiona o metal
O ouro opera nesta quarta-feira (8) em US$ 4.081,15 por onça, com queda de 1,83%, depois de oscilar entre US$ 4.050,79 e US$ 4.144,71 na sessão do dia anterior. A queda chama atenção porque o metal recua justamente em um dia de aumento da tensão entre Estados Unidos e Irã, quando, em tese, o mercado deveria buscar proteção de forma mais automática. Para Mauriciano Cavalcante, especialista da Corretora Ourominas, a leitura mais importante do momento é que o ouro não está apenas reagindo à guerra, mas ao risco de que a guerra vire inflação, petróleo mais caro e juros americanos elevados por mais tempo.
“O movimento é inédito porque mostra uma mudança na lógica tradicional do metal. A tensão no Oriente Médio sustenta a procura por ativos reais, mas a alta do petróleo muda a conta do Federal Reserve. Se o conflito pressiona energia, o mercado passa a recalcular inflação nos Estados Unidos e reduz a aposta em cortes de juros. Como o ouro não paga rendimento, ele sofre quando o dólar e os Treasuries ganham força. Por isso, a queda de hoje não significa perda da tese de proteção, mas uma disputa entre dois medos: o medo geopolítico, que favorece o ouro, e o medo de juros altos, que pressiona o metal”, explica Cavalcante.
De acordo com o especialista da Corretora Ourominas, a alta de mais de 22% em 12 meses mostra que o ouro segue sustentado por fundamentos estruturais. Bancos centrais continuam usando o metal como reserva estratégica, investidores globais buscam ativos reais e o mercado ainda convive com dúvidas sobre inflação, petróleo, atividade americana e política monetária.
“Para o investidor brasileiro, o recado é claro: o ouro não substitui a renda fixa com Selic elevada, mas funciona como proteção parcial contra choques que começam fora do Brasil e chegam rapidamente ao câmbio, aos combustíveis, à inflação e aos juros locais. Hoje, o ouro está dizendo menos sobre joias ou demanda física e mais sobre a confiança do mercado na capacidade dos Estados Unidos de controlar inflação, guerra e juros ao mesmo tempo”, conclui.








