Isenção do IR eleva salário líquido em 2026, mas efeito na declaração só aparece em 2027

Com impacto imediato no salário e efeitos adiados no ajuste anual, a nova tabela do IR corrige distorções históricas, ao mesmo tempo em que impõe novos desafios de interpretação ao contribuinte
A reformulação da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), em vigor desde o início de 2026, altera de forma relevante a tributação sobre salários no Brasil. A principal mudança é a eliminação do imposto mensal para rendas de até R$ 5 mil, acompanhada de um modelo de redução progressiva do desconto para quem recebe até R$ 7.350. O impacto começa a ser percebido nos pagamentos feitos a partir de fevereiro e deve alcançar milhões de contribuintes ao longo do ano, contudo, apenas em 2027 o novo modelo será integralmente refletido no ajuste anual.
O novo desenho da tabela amplia significativamente a faixa de renda com tributação reduzida, corrigindo uma distorção histórica: até então, a isenção estava restrita a valores próximos ao salário mínimo. Agora, trabalhadores formais, servidores públicos, aposentados e pensionistas passam a ter maior previsibilidade de renda líquida, inclusive em pagamentos como o décimo terceiro salário.
Para André Bobek, sócio-fundador da Mhydas Planejamento Financeiro, a mudança representa um avanço importante, mas está longe de significar uma simplificação do sistema. “O governo redesenhou a entrada do imposto, mas não mexeu na engrenagem como um todo. O contribuinte sente o alívio no mês a mês, porém continua sujeito a um modelo complexo de apuração anual”, afirma.
Segundo o especialista, o novo modelo reduz distorções como o chamado “salto tributário”, em que pequenos aumentos de salário resultavam em descontos desproporcionais de imposto. Ainda assim, o efeito final varia conforme a composição da renda. “Quem tem salário fixo sente o benefício com mais clareza. Já quem recebe bônus, comissões ou tem múltiplas fontes de renda precisa redobrar a atenção, porque o cálculo final continua dependendo de diversos fatores”, explica Bobek.
Além do impacto sobre a base de contribuintes, a mudança também reorganiza a cobrança no topo da pirâmide de renda. Para compensar a redução de arrecadação, passam a valer mecanismos de tributação mínima para rendas elevadas, incluindo pessoas físicas com ganhos anuais muito acima da média e parte dos rendimentos distribuídos como lucros e dividendos.
“Há um deslocamento claro da carga tributária: menos pressão sobre a renda do trabalho e mais foco sobre rendas muito altas. Isso tem efeito distributivo, mas também aumenta a complexidade para quem transita entre diferentes tipos de rendimento ao longo do ano”, avalia.
Outro ponto de atenção, segundo Bobek, é o descompasso entre o benefício imediato e a declaração do Imposto de Renda. Embora o desconto mensal já tenha sido alterado em 2026, a declaração entregue no próximo ano continuará baseada em regras anteriores. Apenas em 2027 o novo modelo será integralmente refletido no ajuste anual.
“Esse intervalo cria uma falsa sensação de simplificação. O contribuinte precisa entender que a obrigação de declarar continua existindo e que erros de interpretação agora podem gerar problemas lá na frente”, alerta.
Na avaliação do especialista, a atualização da tabela corrige parte das defasagens acumuladas ao longo dos anos, mas não resolve o desafio estrutural do IRPF no país. “O ganho no contracheque é positivo e necessário, mas o sistema segue pouco intuitivo. Sem informação de qualidade, o contribuinte corre o risco de comemorar hoje e se frustrar no momento da declaração”, conclui.
Crédito da foto: Dephositors







