Reforma tributária pode aumentar carga tributária de bares e restaurantes em até 68%

Reforma tributária pode aumentar carga tributária de bares e restaurantes em até 68%

Mudanças no sistema de tributação do consumo devem pressionar margens do setor e exigir reorganização operacional de empresas de alimentação

A reforma tributária do consumo no Brasil, que substituirá tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS pelo modelo de IVA dual composto por IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), pode provocar um aumento significativo na carga tributária de bares e restaurantes. Dependendo do perfil do estabelecimento e da composição da receita, a elevação pode chegar a cerca de 68% em relação ao modelo atual, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

Embora a nova legislação tenha criado um regime específico para o setor de alimentação fora do lar, reconhecendo particularidades como o alto volume de operações e a forte intensidade de mão de obra, a estrutura adotada também traz novos desafios operacionais e fiscais.

De acordo com o especialista tributário Eduardo Dias, a mudança exigirá uma reorganização significativa na forma como bares e restaurantes administram suas receitas.

“A reforma trouxe um regime diferenciado para o setor, mas ao mesmo tempo exige uma segmentação muito mais rigorosa das receitas. Restaurantes precisarão separar diferentes tipos de faturamento para aplicar corretamente as regras tributárias, o que aumenta a complexidade da gestão contábil e fiscal”, explica.

Diferentes tipos de receita terão tributação distinta

O regime especial previsto na reforma se aplica ao fornecimento de refeições e bebidas não alcoólicas preparadas no próprio estabelecimento. No entanto, várias operações comuns do setor ficam fora desse tratamento diferenciado.

Entre elas estão a venda de bebidas alcoólicas, a revenda de produtos alimentícios industrializados adquiridos de terceiros e o fornecimento de alimentação para empresas por meio de contratos corporativos.

Na prática, um mesmo restaurante poderá ter diferentes tipos de receita sujeitos a regimes tributários distintos.

Para o contador, advogado e consultor empresarial William Almeida, essa fragmentação tende a aumentar o nível de controle exigido das empresas.

“Na prática, o empresário vai precisar acompanhar com muito mais precisão de onde vem cada parcela do faturamento. Um mesmo restaurante pode ter parte da receita com alíquota reduzida e outra parte com tributação cheia. Isso exige mais organização contábil e sistemas preparados para essa nova realidade”, afirma.

Redução de alíquota pode não compensar aumento da carga

A legislação prevê uma redução de 40% nas alíquotas do IBS e da CBS para determinadas operações do setor. No entanto, o benefício não se aplica a toda a receita dos estabelecimentos.

Itens relevantes do faturamento de bares e restaurantes, como bebidas alcoólicas e produtos industrializados vendidos no local, permanecem sujeitos à alíquota integral do novo IVA.

Segundo Eduardo Dias, isso pode reduzir significativamente o efeito prático da redução prevista na lei.

“Dependendo da composição do faturamento do restaurante, uma parcela relevante da receita pode ficar fora do benefício da redução de alíquotas. Em estabelecimentos onde bebidas representam uma parte importante das vendas, o impacto tributário tende a ser maior”, diz.

Carga tributária pode subir mais de 50%

Atualmente, um restaurante médio fora do Simples Nacional costuma operar com uma carga tributária aproximada de 8,05% sobre a receita, considerando ICMS e tributos federais.

Com o novo modelo, análises indicam que a carga total pode chegar a cerca de 13,6%, considerando a incidência de IBS, CBS, IR e CSLL.

Na prática, isso representa um aumento de cerca de 5,5 pontos percentuais, o equivalente a uma elevação próxima de 68% na carga tributária total.

Para William Almeida, o novo cenário pode levar empresários do setor a rever estratégias operacionais.

“A tributação passa a influenciar diretamente decisões comerciais. Restaurantes podem precisar revisar mix de produtos, política de preços e até contratos com plataformas de delivery para preservar margem e competitividade”, afirma.

Tributação passa a ser variável estratégica

Especialistas apontam que, diante da nova estrutura tributária, bares e restaurantes precisarão reforçar controles internos, revisar modelos de faturamento e antecipar ajustes na operação.

“A reforma não é apenas uma mudança técnica no sistema de arrecadação. Ela altera a lógica econômica do setor. A tributação passa a ser uma variável estratégica na gestão das empresas”, conclui Eduardo Dias.

Crédito da foto: Freepik

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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