Fim da era do preço: como pequenos supermercados tentam sobreviver ao domínio do atacarejo

Fim da era do preço: como pequenos supermercados tentam sobreviver ao domínio do atacarejo

Com margens comprimidas e mudança no hábito de consumo, varejistas de bairro abandonam a guerra de etiquetas para focar em conveniência e personalização

Pequenos e médios supermercados têm visto suas margens encolherem diante do avanço acelerado do atacarejo, modelo que amplia sua participação no faturamento do setor e vem mudando a forma como o brasileiro faz compras. Dados da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) indicam que o formato segue em expansão, impulsionado por consumidores mais sensíveis a preço. O movimento tem reduzido o ticket médio, aumentado a pressão sobre custos e dificultado a previsibilidade financeira dessas operações.

Márcio Goulart, especialista em gestão de supermercados e porta-voz da Meta Contabilidade, a mudança vai além da concorrência direta. “O atacarejo opera com escala e margem reduzida, o que força o restante do varejo a rever toda a lógica de precificação e operação. O pequeno supermercado não perde só cliente, perde referência de preço e passa a operar sem margem de segurança”, afirma.

A pressão se intensifica com renda comprimida e consumo mais cauteloso. Indicadores do IBGE apontam desaceleração no consumo das famílias, o que reforça a migração para canais mais econômicos. Na prática, isso aumenta a disputa por preço e reduz o espaço de negociação para os pequenos varejistas.

Margens menores e operação no limite

A principal consequência é a compressão das margens. Com menos espaço para repasse de custos, muitos negócios passam a operar no limite para manter o fluxo de clientes. “O varejista reduz margem para não perder volume, mas isso compromete a sustentabilidade no médio prazo”, diz o especialista.

O comportamento de compra também mudou. Parte dos consumidores concentra compras maiores no atacarejo e recorre ao supermercado de bairro apenas para reposições. O resultado é a queda do ticket médio e maior fragmentação das vendas ao longo do mês.

Esse novo padrão impacta diretamente a rotina operacional dos supermercados. Com menor previsibilidade de demanda, cresce o risco de ruptura de produtos ou excesso de estoque, o que afeta o caixa e reduz eficiência. “O gestor perde capacidade de planejamento, gira estoque de forma irregular e sofre mais pressão financeira”, afirma.

Além disso, pequenos varejistas enfrentam mais dificuldade na negociação com fornecedores. Sem escala, o acesso a melhores condições comerciais se torna limitado, ampliando a diferença de preço nas prateleiras.

Reposicionamento se torna questão de sobrevivência

Diante desse contexto, competir exclusivamente por preço deixa de ser viável para operações menores. O caminho passa por reposicionamento estratégico. “O supermercado de bairro precisa entender que não é só preço. Ele ganha relevância em conveniência, proximidade e relacionamento. Quem não fizer esse ajuste vai perder espaço rapidamente”, afirma.

Entre as medidas adotadas estão o foco em categorias de maior giro e melhor margem, a revisão de produtos com baixa rentabilidade, o controle mais rigoroso de custos e estoque e o fortalecimento do relacionamento com clientes da região. A profissionalização da gestão também ganha peso, com maior acompanhamento de indicadores como margem por categoria, giro de estoque e fluxo de caixa.

Mudança estrutural no varejo alimentar

O crescimento do atacarejo não é visto como um movimento pontual, mas como uma transformação estrutural do setor. A consolidação do modelo tende a elevar o nível de exigência e ampliar a pressão sobre pequenos negócios.

“Não é um ciclo passageiro. O comportamento do consumidor mudou e exige outra lógica de gestão. Quem continuar operando da mesma forma vai perder competitividade”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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