Juros reais elevados e cenário eleitoral devem definir rumo dos investimentos no Brasil

No mercado cambial, o comportamento do dólar tem chamado atenção dos investidores
O mercado financeiro global atravessa um momento de forte contraste entre resiliência internacional e incertezas locais. Enquanto bolsas americanas seguem renovando máximas históricas impulsionadas por resultados corporativos robustos, o Brasil opera sob maior volatilidade, pressionado principalmente pelo cenário eleitoral e pelas dúvidas em relação à trajetória fiscal do país.
A avaliação é de Gabriel Timm, gestor de investimentos da Trio, que analisa o atual ambiente econômico como uma combinação de tensões geopolíticas, juros elevados e reposicionamento global de capital. “A guerra vem durando mais tempo do que o mercado precificava inicialmente, mas o mercado americano absorveu esse ruído com uma resiliência maior do que se esperava, muito sustentado por uma temporada de resultados corporativos extremamente forte”, afirma.
No mercado cambial, o comportamento do dólar tem chamado atenção dos investidores. Embora a moeda americana tenha se fortalecido temporariamente com a escalada do conflito no Oriente Médio, a tendência estrutural segue sendo de enfraquecimento global.
No Brasil, porém, o movimento ganhou características próprias.
“Frente ao real, o dólar perdeu terreno de forma consistente, principalmente por conta do diferencial de juros e da condição do Brasil como exportador líquido de commodities”, explica Timm.
A valorização do real também foi influenciada pela manutenção do petróleo próximo da faixa dos US$ 100, favorecendo países exportadores de commodities como o Brasil.
Ainda assim, o gestor alerta que o ambiente continua carregando riscos relevantes. “O petróleo elevado mantém vivos riscos importantes para a economia global, como inflação mais persistente, pressão sobre as margens das empresas e redução da rentabilidade esperada dos portfólios”, destaca.
Bolsa brasileira perde força
Enquanto o S&P 500, que representa uma carteira teórica composta pelas 500 maiores empresas de capital aberto listadas nas bolsas americanas NYSE e NASDAQ, renovou recordes históricos, chegando na casa dos 7.400 pontos, o mercado brasileiro apresentou comportamento oposto. Após se aproximar dos 200 mil pontos recentemente, o Ibovespa recuou para a faixa dos 180 mil pontos, com impacto ainda maior sobre empresas de menor capitalização.
“O fluxo estrangeiro perdeu intensidade. Parte disso aconteceu porque os resultados das empresas americanas voltaram a atrair capital global, drenando recursos que estavam migrando para emergentes”, explica Timm.
Segundo o especialista, o cenário doméstico também passou a ser influenciado de forma mais intensa pelas eleições brasileiras. Na avaliação do gestor de investimentos, a evolução do cenário político será determinante para o comportamento dos juros, do câmbio e da bolsa nos próximos meses. “A melhora do ambiente fiscal depende diretamente da evolução política. Caso um candidato mais alinhado às pautas econômicas defendidas pelo mercado ganhe força nas pesquisas, a tendência é de recuperação da confiança e fechamento dos juros reais”, afirma Timm.
Hoje, o Brasil possui um dos maiores níveis de juros reais do mundo, fator que, ao mesmo tempo em que atrai investidores para renda fixa, pressiona empresas mais alavancadas e limita a performance da bolsa.
“No início do ano, o mercado projetava uma Selic terminal próxima de 12% para o fim de 2026. Agora já vemos projeções de 13% a 13,5%, o que impacta diretamente valuation, custo de capital e atividade econômica”, explica.
Segundo o gestor, a redução desse prêmio de risco depende principalmente da percepção sobre responsabilidade fiscal no pós-eleição.
Renda fixa segue atrativa
No cenário atual, Timm defende o investimento em títulos atrelados à inflação, especialmente NTN-Bs de longo prazo. “As NTN-Bs continuam oferecendo prêmios reais historicamente muito elevados, próximos de momentos de estresse profundo da economia brasileira. E o cenário atual é muito melhor do que o observado em crises anteriores”, avalia. Segundo o gestor, esses papéis oferecem ganho real relevante no longo prazo e ainda possuem potencial adicional caso o ambiente fiscal melhore após as eleições.
Para Gabriel Timm, o momento exige leitura cuidadosa de cenário e diversificação estratégica. “O ambiente continua desafiador, mas também cheio de oportunidades. O investidor precisa entender que juros, política e geopolítica estão cada vez mais conectados. A capacidade de adaptação será decisiva nos próximos meses”, conclui o especialista.
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