Motoristas de aplicativos ganham até 60% mais por hora nas capitais

Geografia pesa no resultado financeiro dos motoristas
A promessa de flexibilidade e autonomia no trabalho por aplicativos costuma vir acompanhada de uma ideia implícita de uniformidade: dirigir mais significaria ganhar mais, independentemente de onde se está. Na prática, porém, a geografia tem pesado, e muito, no resultado financeiro dos motoristas.
Segundo levantamento do GigU, na Região Metropolitana de São Paulo um motorista de aplicativo registra lucro médio de R$ 15,57 por hora, com margem líquida de 43,6%. A mesma atividade, exercida no noroeste do estado, em cidades como Barretos, São José do Rio Preto e Votuporanga, rende R$ 10,11 por hora, com margem de 33%. A diferença de R$ 5,46 por hora, acumulada ao longo de uma jornada mensal de 200 horas, representa mais de R$ 1 mil a menos no bolso. Em um ano, o impacto ultrapassa R$ 13 mil.
O padrão se repete em outros estados e, em alguns casos, com intensidade ainda maior. Em Minas Gerais, motoristas na Região Metropolitana de Belo Horizonte alcançam R$ 16,05 por hora, enquanto no Triângulo Mineiro o rendimento cai para R$ 9,36, uma diferença de R$ 6,69 por hora e 11 pontos percentuais de margem. No Rio de Janeiro, a renda média na capital chega a R$ 18,49 por hora, contra R$ 12,24 em regiões como Angra dos Reis e Volta Redonda. Na Bahia, Salvador registra R$ 14,74 por hora, enquanto áreas como Eunápolis e Porto Seguro ficam em R$ 8,88.
Mercado fragmentado
O cenário que emerge é o de um mercado fragmentado, em que o CEP do motorista passa a ser determinante para a rentabilidade. Em nove estados com múltiplas regiões analisadas, as diferenças de ganho por hora são consistentes, indicando que não se trata de distorções pontuais, mas de uma característica estrutural do modelo.
Parte dessa disparidade está ligada à dinâmica de demanda, explica Luiz Gustavo Neves, CEO e co-fundador da plataforma. “Capitais e regiões metropolitanas concentram maior volume de corridas, maior incidência de tarifas dinâmicas e presença mais forte de categorias premium, como Comfort e Black, que elevam o tíquete médio. Além disso, a densidade urbana reduz o tempo ocioso entre chamadas, permitindo um maior número de viagens por hora”, afirma.
No interior, o cenário é mais ambíguo. Em geral, o menor volume de corridas e a menor presença de categorias de maior valor pressionam a receita. Por outro lado, custos operacionais tendem a ser mais baixos, já que combustível, manutenção e deslocamentos pesam menos, o que ajuda a sustentar a atividade, ainda que com margens inferiores.
Relação não é linear
Essa relação, no entanto, não é linear. Em Pernambuco, por exemplo, motoristas fora da Região Metropolitana do Recife apresentam desempenho ligeiramente superior ao da capital: R$ 10,02 por hora, contra R$ 9,41. No Ceará, a diferença entre Fortaleza e o interior é reduzida, e a margem fora da capital chega a ser maior. São exceções que sugerem que o equilíbrio entre demanda e custo pode, em alguns contextos, favorecer cidades menores.
O caso do Paraná ilustra outra nuance. Londrina registra R$ 16,05 por hora, superando Curitiba, que fica em R$ 15,65, ainda que por margem estreita. Já regiões como Cascavel e Foz do Iguaçu operam em patamares significativamente inferiores, próximas de R$ 11 por hora.
Mais do que uma simples comparação regional, o que se observa é uma mudança na leitura sobre o trabalho por aplicativos. A localização deixa de ser apenas pano de fundo e passa a atuar como variável central na equação de renda. Ainda assim, não é o único fator determinante. Estratégias operacionais, como escolha de combustível, tipo de veículo e categoria, seguem capazes de alterar significativamente o resultado financeiro, em alguns casos com impacto maior do que o próprio território.








