Empresas estão criando conselhos antes de buscar investidores

Empresas estão criando conselhos antes de buscar investidores

Crédito caro, crescimento mais complexo e pressão por resultados levam médias empresas a adotar estruturas de governança para reduzir riscos e melhorar decisões

A profissionalização da governança deixou de ser uma pauta exclusiva das grandes corporações. Em um ambiente marcado por juros elevados, crédito mais seletivo e maior pressão por eficiência, empresas de médio porte têm antecipado a criação de conselhos consultivos e estruturas formais de governança para evitar erros estratégicos que comprometem caixa, crescimento e rentabilidade.

O movimento ocorre em um momento em que o custo do capital permanece elevado. Com a Selic em 14,75%, decisões equivocadas passaram a ter impacto ainda maior sobre investimentos, expansão e liquidez. Ao mesmo tempo, empresas enfrentam um cenário de maior rigor na concessão de crédito e cobrança crescente por previsibilidade financeira.

Para Farias Souza, administrador de empresas, CEO e fundador da Board Academy, empresa especializada na formação de conselheiros e no desenvolvimento de estruturas de governança, a mudança reflete uma transformação no perfil das empresas brasileiras.

“Durante muito tempo o empresário conseguiu compensar falhas de gestão com crescimento de mercado. Hoje isso ficou mais difícil. O dinheiro está mais caro, os riscos aumentam e cada decisão passou a ter um peso maior sobre os resultados. É nesse contexto que os conselhos ganham relevância”, afirma.

A tendência também acompanha o avanço da governança entre empresas familiares e negócios em fase de expansão. Levantamentos da KPMG e estudos do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) mostram que mecanismos formais de governança vêm ganhando espaço fora das companhias abertas, impulsionados por processos de sucessão, crescimento, profissionalização da gestão e preparação para captação de recursos.

O custo invisível das decisões centralizadas

À medida que a empresa cresce, aumentam também as decisões relacionadas a expansão, investimentos, contratação de executivos, sucessão e gestão financeira. Em muitas organizações, porém, essas definições continuam concentradas exclusivamente no fundador.

Segundo estudo da McKinsey & Company, empresas com processos estruturados de tomada de decisão podem elevar a eficiência operacional em até 20%. Já análises da Deloitte apontam que organizações com governança mais madura apresentam maior previsibilidade financeira, melhor gestão de riscos e mais capacidade de adaptação diante de mudanças de mercado.

Na avaliação de Souza, a principal contribuição de um conselho está justamente na ampliação da qualidade das decisões.

“Quando a empresa depende apenas da visão do dono, ela cria um limite para o próprio crescimento. O conselho amplia perspectivas, questiona premissas, traz experiências complementares e reduz a probabilidade de erros que custam caro”, afirma.

Além dos ganhos internos, a governança também influencia a percepção de bancos, investidores e parceiros estratégicos. Estruturas mais organizadas costumam transmitir maior confiança sobre a capacidade de execução e gestão dos recursos da companhia.

Cinco sinais de que chegou a hora de criar um conselho

Embora não exista um faturamento mínimo para implementar a governança, alguns sinais costumam indicar que a empresa atingiu um nível de complexidade que exige uma estrutura mais robusta de decisão.

O primeiro deles é quando o faturamento cresce, mas a geração de caixa não acompanha o mesmo ritmo. Outro alerta surge quando praticamente todas as decisões relevantes continuam dependendo da aprovação do fundador, gerando lentidão e sobrecarga.

A ausência de indicadores confiáveis para apoiar investimentos e prioridades estratégicas também costuma revelar fragilidades na gestão. Há ainda situações em que o crescimento passa a gerar mais problemas operacionais do que resultados financeiros, comprometendo eficiência e rentabilidade.

Quando o empresário dedica a maior parte do tempo a resolver urgências e apagar incêndios, em vez de discutir estratégia e expansão, o modelo de gestão normalmente já demonstra sinais de esgotamento.

“Muitas empresas procuram governança quando a crise já apareceu. O ideal é fazer esse movimento antes. O conselho é uma ferramenta de prevenção, não apenas de correção”, diz Souza.

Como estruturar um conselho sem criar burocracia

Um dos equívocos mais comuns entre empresários é associar governança à burocracia. Na prática, a implementação pode começar de forma simples e adaptada ao estágio de maturidade da organização.

O primeiro passo é definir com clareza qual problema o conselho ajudará a resolver. Em algumas empresas, o foco está na expansão. Em outras, na sucessão, profissionalização da gestão, melhoria financeira ou preparação para novos ciclos de crescimento.

A escolha dos membros também é decisiva. O ideal é reunir profissionais com experiências complementares em áreas como finanças, estratégia, mercado, operações e gestão empresarial.

Outro ponto fundamental é estabelecer uma rotina de reuniões com pautas objetivas, indicadores claros e acompanhamento das decisões tomadas.

Também é necessário separar governança e operação. Enquanto os executivos executam a estratégia, o conselho atua como instância de orientação, análise crítica e acompanhamento dos resultados.

“O conselho não existe para administrar a empresa. Ele existe para melhorar a qualidade das decisões. Quando isso acontece, os ganhos aparecem em eficiência, previsibilidade e capacidade de crescimento sustentável”, afirma.

Governança se transforma em ferramenta de geração de valor

O amadurecimento do ambiente empresarial brasileiro tem acelerado a adoção dessas estruturas. O que antes era visto como uma formalidade típica de grandes grupos econômicos passou a ser percebido como uma ferramenta prática para melhorar decisões, reduzir riscos e proteger resultados.

Para Farias Souza, essa tendência deve se intensificar nos próximos anos, impulsionada por um mercado cada vez mais exigente em relação à eficiência do capital e à capacidade de execução das empresas.

“Os empresários estão percebendo que crescer não significa apenas vender mais. Significa tomar decisões melhores, reduzir erros e construir uma operação capaz de sustentar resultados no longo prazo. É exatamente nesse ponto que a governança gera valor”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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