Empresas podem “morrer de sucesso”

Empresas podem “morrer de sucesso”

Especialista explica fenômeno do overtrading nas organizações

A Copa do Mundo de futebol masculino está entre os eventos que mais impactos positivos trazem à economia global. O torneio deste ano deve agregar US$ 40,9 bilhões ao produto econômico internacional e gerar 824 mil empregados, de acordo com projeções da Federação Internacional de Futebol (Fifa). Mas há um efeito colateral. Picos sazonais assim são terreno fértil para o fenômeno do ‘overtranding’.

De forma resumida, overtranding consiste em um crescimento do negócio para além da capacidade de a empresa sustentar essa expansão. Vendas de produtos e serviços aumentam, há incremento nas receitas, no entanto a estrutura e os custos para dar conta da nova demanda explodem também. Desse modo, o negócio acaba por se inviabilizar.

O Brasil é pródigo em casos assim. Em diversos setores da economia, empresas que se tornaram grandes grupos, aparentemente inabaláveis, sucumbiram, reféns do próprio sucesso e tamanho. É verdade que a crônica instabilidade da economia brasileira é um ingrediente e tanto, mas não é incomum o fenômeno do overtranding ser também pano de fundo para a dissolução de alguns empreendimentos.

Situações emblemáticas

Augusto Lyra.

Os exemplos estão no imaginário coletivo. No varejo há situações emblemáticas: redes como Arapuã, Mappin e Mesbla, agigantaram-se, mas não resistiram, nem com o próprio tamanho. Mais recentemente, o caso da Saraiva, no ramo de livrarias. Nos transportes, Varig e Itapemirim, de onipresentes de norte a sul, hoje uma desapareceu do mapa (a companhia aérea) e a outra (a viação) sobrevive do arrendamento de sua marca. Na área de telecomunicações, há o caso, também recente, da Oi.

Voltando à Copa do Mundo, sintomas de ‘overtrading’ são percebidos no fechamento de pelo menos 90 deles, em todo o Brasil, depois da edição de 2014 do evento, sediada em 12 cidades brasileiras. Mesmo quando a Copa é em outros países, o evento movimenta a economia brasileira, enchendo empreendedores de otimismo. Na última edição, de 2022, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) calculou impactos, nesse setor, de mais de R$ 1,8 bilhão.

É preciso, porém, estar com o sinal de alerta ligado. “Crescimento da demanda e da receita não significa lucro na certa”, adverte o empresário Augusto Lyra, CEO da Everflow, plataforma especializada na gestão de empresas prestadoras de serviços externos. Aliás, no setor de serviços os riscos são ainda maiores, dada a maior dificuldade de se dimensionar custo e receita necessária para uma precificação que leve a resultados sustentáveis.

“Quando se trata de um produto, é mais fácil calcular essa relação despesa versus receita, se dá lucro ou prejuízo. Porque um produto tem determinado custo de produção, valor de distribuição, valor de venda ao mercado. É muito mais claro e rápido de averiguar, na gestão da empresa, se aquela operação está sendo rentável ou não. Com serviços, isso não é tão visível assim”, explica Lyra

Isso ocorre devido a variáveis de custo ocultas, pontua o especialista. Não há materialidade no objeto oferecido ao mercado. “Por exemplo, uma empresa vai prestar determinado serviço. Nele, há a atuação de um engenheiro, que tem sua remuneração. Mas é sua remuneração mensal, geral, não a parcela dela em cada projeto em que atua. Se isso não for calculado, não se consegue mensurar precisamente se aquele serviço prestado está sendo rentável ou não”, argumenta Lyra.

Impactos sazonais

Assim, em impactos sazonais, como o da Copa do Mundo, um aumento na demanda – e portanto nos contratos e receitas – não necessariamente se reflete resultados para as empresas, se esse crescimento não vier acompanhado de uma gestão contábil e financeira exata. “Tem muita empresa que quebra por vender muito. Como? Porque olha apenas para a receita, e não percebe que aquele aumento de demanda afeta também os custos, e, muitas vezes, a médio e longo prazo”, afirma o CEO da Everflow.

Consequência: quando se dá conta, a empresa já está imersa em um poço sem fundo. “E, então, não consegue se alavancar mais. Vendeu muito, sem conseguir entregar tudo. Enfrenta falta de dinheiro para insumos e material, e entra nesse círculo vicioso, até quebrar, e muitas vezes sem enxergar a origem desse problema todo”, sublinha.

O gargalo pode estar na falta de um sistema informatizado de gestão impreciso, incapaz de integrar fluxo de caixa com fluxo operacional, adverte Lyra. Isso leva à falta de dados necessários para o dimensionamento adequado de custos, preços, receitas e lucro necessário.

“Diante dessa imprecisão e não integração, para o empresário, para o gestor, torna-se visível apenas o financeiro, e então ele observa e pensa, ‘nossa, estou bem, meu financeiro está organizado’. Mas esquece que todo o ato dele não está no financeiro, está no lucro operacional por serviço”, descreve o especialista.

Não cair nessa armadilha passa por um sistema informatizado de gestão integrado e especializado no ramo de atividade. “Software padrão de mercado não vai dar lucro operacional [para prestadores de serviço]. É muito difícil calcular lucro operacional de serviço. Você tem que ponderar média de custo de material, apontar hora-homem, custo de deslocamento, pedágio… Então é muito difícil organizar isso em um software genérico”, justifica o especialista.

Foi justamente a falta de soluções assim no mercado é que fez Augusto Lyra, em parceria com Rafael Stellato, seu sócio, definir o modelo de negócio da Everflow, dez anos atrás, quando a startup foi criada. “Nos especializamos em oferecer a pequenas e médias empresas prestadoras de serviços em engenharia, energia e telecom, com equipes externas, um software ERP que integra financeiro, comercial e técnico-operacional”, descreve.

Criação de modelos de proposta personalizados, organização e centralização das informações, controle de produtos, de mão de obra, de ativos e de despesas financeiras, com toda a descrição do serviço executado em tempo real, estão entre as funcionalidades contempladas pelo software da Everflow, ressalta Lyra. A plataforma atualmente tem 225 empresas clientes, em todo o Brasil.

Crédito da foto: Pexels

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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