Inteligência Artificial redesenha liderança executiva nas empresas

IA já não é apenas um tema técnico, mas se tornou uma agenda de governança, cultura e reposicionamento competitivo
Nos últimos anos, a inteligência artificial deixou o ambiente dos laboratórios de tecnologia e avançou para o mundo das empresas brasileiras. De início, trouxe mais eficiência para os processos operacionais e, aos poucos, passou a fazer parte da pauta dos executivos que ocupam cargos de gerência e diretoria e estão na mesa de discussão dos conselhos de administração.
De acordo com André Freire, Sócio-Diretor da EXEC, consultoria especializada em recrutamento e desenvolvimento de alta liderança, a virada aconteceu de forma significativa entre os anos de 2023 e 2024, quando o ChatGPT deixou de ser curiosidade de tecnologia e entrou na pauta dos conselhos. O principal acelerador desse movimento foi a percepção de que a IA começou a afetar modelos de negócio, e não apenas processos internos. “Quando o CEO passa a receber perguntas do conselho sobre estratégia de IA, a agenda sobe de andar. Nas conversas que tenho tido com líderes no Brasil, esse ponto de inflexão foi nítido: a IA saiu da TI e entrou na sala de reunião do comitê executivo”, aponta.
Segundo Freire, esse movimento não aconteceu de forma isolada, envolvendo três tipos de pressão: velocidade, impacto transversal e competição acirrada. “A IA evoluiu rápido demais para continuar confinada a um projeto paralelo. Além disso, seu impacto é transversal, ou seja, áreas como financeiro, operações, RH, marketing, atendimento, supply e comercial passaram a usar a ferramenta ao mesmo tempo, exigindo coordenação acima dos silos tradicionais. Outro ponto é que quando concorrentes e mercados internacionais começam a capturar ganhos concretos com IA, a pergunta deixa de ser se vale a pena investir e passa a ser quão rápido a empresa consegue transformar tecnologia em vantagem”.
A diferença entre as empresas que tratam a inteligência artificial como ferramenta operacional daquelas que já enxergam a tecnologia como estratégia é grande, de acordo com André. “As que tratam a IA como ferramenta operacional têm um perfil técnico bem definido, focado em automação e ganho de eficiência. As que a enxergam como transformação estratégica questionam sobre qual tipo de liderança ajuda a repensar o negócio a partir da IA. Essas costumam estar mais dispostas a buscar perfis híbridos, com capacidade de influenciar cultura e estratégia, e não apenas entregar projetos”.
Historicamente, a aplicação da IA ainda está, em grande parte, sob o guarda-chuva da área de TI. No entanto, esse modelo deixa de funcionar a partir do momento em que a ferramenta precisa influenciar decisões de negócio, mudar processos comerciais ou alterar a proposta de valor da empresa. “O sintoma mais claro disso é quando os projetos de IA ficam na prova de conceito e travam na escala”.
Os executivos são os novos profissionais de IA
Para Freire, no Brasil esse movimento ainda está em construção. “As empresas mais maduras esperam desses executivos uma atuação que vai muito além do domínio técnico. Querem que eles sejam capazes de transformar a IA em estratégia de negócio, influenciar a cultura e gerir a mudança organizacional que essa transformação exige. Ele precisa falar a língua do tecnólogo e da gestão ao mesmo tempo”, explica.
Hoje o mercado lida com uma escassez de lideranças para ocupar esse tipo de cadeira. “O Brasil tem bons engenheiros, cientistas de dados, executivos com visão de negócio. No entanto, o perfil que consegue cruzar os dois mundos com profundidade ainda é raro. Quando vamos ao mercado em busca desses profissionais, o funil afunila muito rápido e a disputa é acirrada”, ressalta o sócio- Diretor da EXEC.
O processo de recrutamento da liderança com foco em IA exige critérios específicos. “Nas
buscas tradicionais pelos executivos, trabalhamos com trajetórias bem mapeadas, referências consolidadas e benchmarks de mercado relativamente estáveis. Para encontrar um gestor focado em IA, muitas dessas referências ainda estão sendo construídas. Precisamos avaliar o potencial de aprendizado contínuo e velocidade de adaptação, competências menos tangíveis, mas decisivas. Além disso, o processo precisa incluir avaliações práticas que abordam como o candidato soluciona problemas reais que envolvem a ferramenta”.
Executivos e empresas resistentes à IA
A IA ainda enfrenta algumas resistências, tanto por parte de executivos mais tradicionais e também das empresas. “Quando bem implementada, a IA redistribui poder dentro das organizações, democratizando o acesso à informação, algo que, historicamente, era uma das principais fontes de autoridade executiva. Com isso, o líder que baseia seu poder no acesso exclusivo a dados e análises se sente ameaçado. Aquele que se adapta melhor é o que percebe que a IA não elimina o julgamento humano, mas sim o qualifica. E que seu valor migra para a capacidade de fazer perguntas certas, e não apenas ter respostas”, ressalta o sócio-diretor da EXEC.
A diferença entre as organizações que integram a IA à cultura daquelas que enfrentam resistência está na liderança pelo exemplo. “Quando os gestores usam a IA no processo de decisão e falam sobre isso abertamente, a organização inteira recebe um sinal claro. A resistência surge, quase sempre, quando a IA é imposta de cima para baixo sem narrativa, sem treinamento e sem envolvimento das pessoas que serão afetadas. Cultura é o resultado de comportamentos repetidos pela liderança, e isso também vale para a IA”, conclui.








