Ter um amigo no trabalho não é luxo, é estratégia de retenção, mostra a ciência

Cafezinho com o colega vale mais do que parece para a permanência no emprego
Toda empresa fala em retenção de talentos, plano de carreira, benefícios, salário competitivo. Quase nenhuma fala do colega que senta do lado, do grupo de WhatsApp do time ou daquele papo de cinco minutos no corredor. E talvez devesse: segundo a Gallup, profissionais que têm um amigo próximo no trabalho são até sete vezes mais engajados do que aqueles que não têm.
O outro lado da moeda também é revelado pela Gallup: globalmente, um em cada cinco trabalhadores afirma se sentir sozinho no ambiente profissional. Para Monize Oliveira, gerente sênior de Comunicação e Marketing da Redarbor Brasil, detentora do Infojobs, esse dado costuma ser subestimado pelas empresas. “Muita gente associa trabalho remoto à solidão, mas ela também pode acontecer em escritório cheio. Ter colegas no ambiente de trabalho exige conexão e precisamos criar oportunidades para que elas aconteçam”, observa.
Os dados reforçam essa percepção: segundo a Gallup, trabalhadores que têm um melhor amigo no trabalho apresentam 51% menos intenção de mudar de emprego. “Salário é importante, mas nem sempre determinante para alguém ficar ou sair do trabalho. O vínculo com as pessoas do time é um dos fatores que mais pesam, silenciosamente, na hora de decidir sair de um emprego ou continuar nele, mesmo quando o profissional não percebe isso conscientemente”, afirma Monize.
A executiva lembra que esse vínculo funciona como uma rede de proteção em momentos difíceis. “O dia a dia nem sempre é tranquilo. O trabalho exige bastante, e ter alguém com quem dividir aquilo muda completamente a experiência. Profissionais com amizades no time tendem a aguentar fases ruins com mais resiliência do que quem está sozinho”, completa.
O que as empresas podem fazer (sem forçar a barra)
Monize é direta sobre um risco comum: tentar fabricar amizade por decreto não funciona. “Happy hour ou almoço obrigatório não cria vínculo, às vezes até afasta. O papel da empresa não é forçar amizade, é criar espaço para que ela aconteça organicamente, com tempo de qualidade entre as pessoas, projetos que exigem colaboração real e uma cultura que não trate interação social como perda de produtividade”, recomenda.
Ela cita como exemplo mudanças simples, mas que podem fazer diferença no dia a dia, como reservar alguns minutos das reuniões para conversas informais ou organizar a escala do trabalho híbrido para que os integrantes de uma mesma equipe estejam presencialmente juntos nos mesmos dias.
“Criar conexão exige intencionalidade. Pequenos ajustes na rotina podem fortalecer o relacionamento entre as pessoas e o senso de pertencimento. No trabalho híbrido, por exemplo, não basta definir quantos dias serão presenciais; é preciso pensar em como esses encontros acontecem. Quando cada integrante vai ao escritório em dias diferentes, a oportunidade de troca presencial se perde antes mesmo de acontecer. A escala híbrida precisa ser pensada de forma estratégica: quem estará junto, em quais dias e com qual propósito, para que o momento presencial de fato fortaleça os vínculos”, pondera.
Os limites das amizades
Mas Monize também pondera que a amizade no trabalho tem limites que vale observar. “O equilíbrio profissional exige que as relações interpessoais não se sobreponham às diretrizes corporativas, evitando cenários de favoritismo que inibem a performance. Quando a camaradagem vira uma zona de proteção, a evolução do grupo é comprometida. Parcerias estratégicas são aquelas que integram a maturidade à colaboração, separando a lealdade ao indivíduo da responsabilidade com o trabalho bem feito, e que permitem que a discordância saudável atue como combustível para a inovação e o crescimento coletivo”.
Quando o vínculo entre colegas se fecha em si mesmo, vira um grupo que se protege, que evita feedbacks honestos ou que dificulta a entrada de pessoas novas, ele deixa de ser saudável para o time. A amizade que fortalece é aquela que convive bem com a discordância, que não confunde lealdade à pessoa com lealdade ao trabalho bem feito”, avalia.
Ela acrescenta que o profissional também precisa cuidar da própria autonomia emocional. “Ter amigos no trabalho é ótimo, mas depender exclusivamente desse vínculo para se sentir motivado é um risco. A carreira não pode depender de uma amizade, porque os desafios do trabalho nem sempre estarão alinhados com essa relação. Ter essa clareza e maturidade é o que permite extrair o melhor das amizades no trabalho, sem abrir mão do crescimento profissional”, conclui.








