O que as empresas precisam fazer para evitar prejuízos com o tarifaço

O que as empresas precisam fazer para evitar prejuízos com o tarifaço

Investigação comercial dos Estados Unidos avança para fase de consulta pública e pode afetar contratos, exportações e estratégias de negócios de empresas brasileiras

A proposta do governo dos Estados Unidos de aplicar uma sobretaxa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros já mobiliza autoridades e exportadores.

A medida foi apresentada pelo USTR (United States Trade Representative) no âmbito de uma investigação conduzida com base na Seção 301 do Trade Act e ainda passará por consulta pública e audiência antes de uma eventual implementação. Embora haja indicação de exclusões relevantes, como café, carne bovina, energia, metais, terras raras e partes aeronáuticas, especialistas apontam que os impactos podem ir além da questão tarifária.

De acordo com Fernando Canutto, sócio do Godke Advogados e especialista em Direito Internacional Empresarial, o risco não se limita ao aumento de custos para exportação.

“Além do efeito tarifário, há um risco regulatório mais amplo, pois, a investigação americana envolve temas como comércio digital, meios de pagamento, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, anticorrupção e desmatamento”, explica.

Como o Brasil pode reagir

No plano institucional, o Brasil dispõe de três caminhos para responder à iniciativa americana. “O Brasil tem três frentes principais. A primeira é diplomática e negocial, por meio de Itamaraty, MDIC, Camex e canais bilaterais com o USTR, buscando demonstrar que a medida é desproporcional ou incompatível com o comércio regular entre os dois países. Essa frente é relevante porque a tarifa ainda estaria em fase de consulta e pode ser modulada”, afirma Canutto.

A segunda alternativa envolve o sistema multilateral de comércio. “A segunda frente é multilateral, perante a OMC. O próprio Brasil já sustentou, em resposta anterior à investigação americana, que não reconhece a legitimidade de medidas unilaterais adotadas fora do marco jurídico da OMC”. Já a terceira possibilidade está no âmbito interno.

“A terceira frente é doméstica, com base na Lei de Reciprocidade Econômica, Lei nº 15.122/2025, que criou instrumentos para o Brasil reagir a medidas unilaterais que prejudiquem sua competitividade internacional. Essa reação, no entanto, deve ser técnica e proporcional, porque uma escalada tarifária pode prejudicar importadores, cadeias produtivas brasileiras e consumidores nacionais, lembrando que, o Brasil já taxa as importações norte americanas em, pelo menos, 60%”, complementa o especialista.

Empresas devem agir antes da decisão final

Mesmo sem uma definição sobre a entrada em vigor das tarifas, empresas com exposição ao mercado americano já deveriam revisar suas operações. “Aquelas que possuem exportações para os EUA devem mapear quais produtos estariam sujeitos à tarifa, levando em consideração que uma tarifa de 25% pode tornar determinados contratos economicamente inviáveis”, diz o advogado.

O impacto tende a ser mais intenso em segmentos que operam com margens reduzidas e menor capacidade de repassar custos aos compradores.

“Os setores mais vulneráveis serão aqueles que exportam produtos não excepcionados, com baixa margem, forte concorrência internacional e baixa capacidade de repasse de preço ao comprador americano. A proposta divulgada indica exceções importantes para café, carne bovina, energia, metais, terras raras e partes aeronáuticas, o que reduz o impacto direto sobre alguns dos principais itens da pauta exportadora brasileira”, conclui.

A geopolítica por trás das isenções

Para Ricardo Inglez de Souza, sócio do IW Melcheds Advogados, especialista em Comércio Internacional e presidente da Comissão Especial de Direito da Concorrência e Regulação Econômica da OAB/SP, a lista de exceções revela a verdadeira estratégia americana.

“Essa é a contradição central da medida. Entre os produtos excluídos da tarifa estão carne bovina, café, frutas tropicais, petróleo, fertilizantes, aeronaves e peças aeronáuticas, justamente os itens que os EUA não conseguem substituir facilmente por outros fornecedores. Washington protege seu próprio abastecimento ao isentar os produtos em que o Brasil é fornecedor estratégico”, avalia o advogado.

Inglez de Souza ressalta ainda que o impacto real recairá sobre a indústria de bens de consumo e alerta para o pano de fundo da decisão. “Do ponto de vista geopolítico, trata-se de clara forma de pressionar o Brasil na agenda pendular entre China e Estados Unidos. O Brasil é colocado em posição incômoda para negociar sob pressão”, conclui.

Crédito da foto: Freepik

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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